Polido com sangue: mármore e granito produzidos no Espírito Santo vão para o exterior à custa de vidas de trabalhadores

Fotografia: Fernando Madeira/Agência Pública

Era tarde de segunda-feira, 13 de junho de 2020, quando a explosão em uma mina de exploração de rochas ornamentais, localizada em Barra de São Francisco, no noroeste do Espírito Santo, deixou em choque a população da cidade. “Explodiu três na pedreira!”, dizia o texto compartilhado em diversos grupos de aplicativos de mensagem. 

Minutos após o acidente, o tio da psicóloga Maria Helena Gonçalves Tomaz Caseli, 35 anos, chegou para dar a notícia de que o marido dela, Jeeam Lucindo Caseli, 31, era uma das vítimas. As primeiras informações eram que ele teria quebrado os braços e as pernas após a “detonação de forma acidental” de material explosivo na empresa e que fora levado para o hospital. 

Jeeam foi socorrido, mas chegou ao hospital morto. Estava quase irreconhecível pela quantidade de hematomas, queimaduras e ossos fraturados. A violência registrada em seu corpo não é um caso isolado e faz parte de um triste histórico de morte e invalidez de trabalhadores que se repete ano a ano no setor de mármore e granito no estado. 

“A morte sempre pega todo mundo de surpresa, mas para nós está sendo muito difícil. Minhas filhas ficaram com problemas psicológicos, principalmente a mais nova, que era muito apegada ao pai. Perdi não só um marido. Ele era um companheiro, um amigo. Agora é uma batalha por dia. Difícil demais!”, desabafou a viúva de Jeeam. 

Considerado um funcionário experiente, Jeeam trabalhava havia dez anos como blaster – profissional que faz a detonação de rochas com o uso de material explosivo – no Grupo Guidoni, uma das maiores empresas de extração e beneficiamento de rochas do Espírito Santo. No momento do acidente, ele estava com mais dois colegas de trabalho. Um jovem de 22 anos que teve uma fratura exposta na perna passou por cirurgia e se recuperou em casa. E um homem de 36 que, além das fraturas, teve 18% do corpo queimado e passou quatro meses internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital das Clínicas em Vitória. Procurado pela Agência Pública, o Grupo Guidoni informou que deu esclarecimentos por meio de notas oficiais nas datas dos fatos, que “seguem com as investigações internas e que irão responder somente aos órgãos competentes”.

Segundo informações do Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Extração, Beneficiamento e Comércio de Mármore, Granitos e Calcário do Estado do Espírito Santo (Sindimármore), desde 2005, o setor registrou 220 mortes de trabalhadores no estado. O número de acidentes de trabalho também é alto. Em 2020, foram 289, com 12 mortes. Números parecidos com os de 2019, ano com 291 ocorrências e 10 mortes.

Dados da Secretaria Estadual de Saúde (Sesa) revelam que, de 2012 a 2019, o setor de mármore e granito foi responsável pela atividade econômica mais letal no estado, ficando na frente do de transporte rodoviário de carga, por número de notificações de óbitos por acidente de trabalho. Foram 52 mortes em sete anos, segundo a Sesa. Mas, se se considerarem os dados do Sindimármore, sindicato que representa os trabalhadores da categoria, esse número sobe para 63.

“As pessoas vão virando número, só que para a família não é assim. A empresa indeniza e toca pra frente. Depois você encontra com os filhos desses trabalhadores e eles não têm mais o pai. A esposa com aquela dor profunda que não supera”, desabafou a advogada do Sindimármore, Amanda Macedo Torres Moulin.

Com mais de 1.600 empresas, a indústria de exploração de rochas é um dos principais setores econômicos do Espírito Santo, responsável por 10% do PIB capixaba. Segundo o Sindicato da Indústria de Rochas Ornamentais, Cal e Calcário (Sindirochas), em 2020 o setor faturou US$ 740 milhões em exportações. Em 2019, o estado alcançou a marca de US$ 1 bilhão de faturamento, com exportações para Estados Unidos, China, Itália, México e Reino Unido.

Mas por trás do alto faturamento o setor registra uma quantidade assustadora de acidentes e mortes de operários. Um dos motivos para tantas mortes seria a falta de investimento em medidas de segurança do trabalho, afirma a coordenadora do Núcleo Especial de Vigilância em Saúde do Trabalhador da Sesa, Liliane Graça Santana. 

“Às vezes a gente vê que o setor admite pessoas que não estão preparadas para aquela atividade. Máquinas sem proteção, sem segurança. A ausência de equipamentos de proteção adequados”, diz Liliane, que destaca ainda a cultura de culpabilização do trabalhador pelas empresas. 

“Infelizmente as análises de acidentes são feitas culpabilizando os trabalhadores. Mas os acidentes geralmente não têm causa única. Enquanto a gente tiver a cultura de culpabilização do trabalhador, o problema não se resolve. O que falhou? A minha gestão de segurança estava adequada? Isso é importante porque senão só vai contabilizar óbitos e não vai descobrir as causas dos acidentes”, destaca.

O procurador-chefe do Ministério Público do Trabalho (MPT-ES), Valério Soares Heringer, também aponta que há muitas falhas que contribuem para os acidentes e mortes dos trabalhadores. As principais regras descumpridas são a ausência de entrega ou a fiscalização inadequada do uso de equipamentos de proteção individual; falta de exames médicos periódicos; não fornecimento de informações sobre os riscos ocupacionais existentes; falta de dispositivos de capacitação para movimentação, armazenagem e manuseio de chapas; deixar de determinar procedimentos a serem adotados em caso de acidente ou doença relacionada ao trabalho, incluindo a análise de suas causas e medidas de prevenção e reparação do dano; e até a não emissão de comunicação de acidente de trabalho.

“As mortes estão presentes em todas as etapas da produção. Na extração, os mais comuns são quedas, contusões e esmagamento de membros e órgãos por fragmentos rochosos. No beneficiamento, os acidentes estão relacionados à movimentação e acondicionamento de chapas e produtos beneficiados. No transporte, são comuns os acidentes rodoviários envolvendo veículos de carga de blocos e chapas”, detalhou o procurador. 

Cobranças e falta de fiscalização

Nas pedreiras, uma das vítimas que tiveram o corpo esmagado foi Aziel Betzel, de 32 anos, no município de Nova Venécia, na empresa Mont D’Ouro Mineração. Segundo relatos de funcionários ao Corpo de Bombeiros, Aziel participava do processo de extração de granito quando uma pedra se desprendeu e caiu de uma altura de 6 metros. A pedra, que pesava toneladas, caiu em cima dele. Procurada pela reportagem, os sócios da empresa não quiseram se pronunciar. 

“Ele foi trocar a água quando estavam terminando de cortar a bancada. Daí ela [a bancada] abriu e arrancou o pedaço que ele estava em cima. A bancada desceu normal e o pedaço que ele estava em cima chiou. Ele caiu primeiro e a bancada caiu por cima dele”, contou à reportagem o irmão de Aziel, Ozéias de Paula Betzel, de 36 anos.

Ozéias também era funcionário da empresa onde o irmão trabalhava. Ele esteve no local do acidente, porém, depois de ter visto o irmão prensado debaixo da pedra, não conseguiu mais voltar ao trabalho. Desenvolveu síndrome do pânico e decidiu fazer um acordo para ser demitido. 

“Não consegui voltar. Cheguei a ir ao escritório, mas na extração não fui mais. Minhas pernas tremiam ao chegar lá. Foi quando consegui fazer uma demissão indireta. Foi o único jeito que achei de não voltar a trabalhar lá de forma alguma”, disse Ozéias, ainda abalado pelas cenas que presenciou.

Marteleteiro experiente, Ozéias relata pressões de empresas da região sobre os trabalhadores da linha de frente da extração de pedras, em uma rotina de constantes cobranças por produtividade, mesmo em locais de alta periculosidade.

“Uma vez pediram para meu primo furar um lugar perigoso lá, ele ficou com medo e não quis fazer. Ele pediu para colocá-lo em outro lugar e no outro dia o mandaram embora. Aí você percebe aquela ganância que é tão grande por dinheiro, que eles não podem te ver 30 minutos à toa, que não é à toa – é você montando uma segurança para você próprio – e eles falam que você está indo devagar”, disse.

A falta de fiscalização, o excesso de carga de trabalho diante da suspensão de contratos e a manutenção e até o aumento da produção são alguns dos fatores apontados por diretores do Sindimármore para a escalada de acidentes com mortes em 2020. O sindicato denuncia que desde 2016 nenhuma operação foi feita por auditores da Superintendência Regional do Trabalho, órgão responsável pela fiscalização das condições de segurança do trabalho. 

“Desde 2016 que não temos fiscalização no setor de mármore e granito. Teve uma investigação por ordem judicial. Falar que veio um auditor fiscal fazer a fiscalização, através dos ofícios que enviamos, não veio nenhum”, denunciou Reginaldo Célia, diretor do Sindimármore. 

Em entrevista à Pública, o superintendente regional do Trabalho, Alcimar Candeias, criticou o posicionamento do sindicato dos trabalhadores por apontar a falta de fiscalização como um dos fatores que contribuíram para ocorrências de acidentes com mortes.

“Eles têm a mania assim… sempre quando morre alguém, falam que não está tendo fiscalização. A fiscalização tem esse papel da prevenção também. Mas o governo, o Estado brasileiro, não tem como manter uma estrutura que seja suficiente para fazer o papel que os empreendedores têm que fazer. Nosso papel é suplementar. Na verdade, a obrigação de conferir o trabalho seguro e saudável é de quem contrata. É de quem empreende”, disse Candeias, que relacionou as mortes à falta de investimento das empresas em segurança e saúde do trabalho.

“Você vai à marmoraria e encontra o tear com fio de alta tensão desencapado, aí acontece um acidente e falam que é culpa da fiscalização. A fiscalização que tinha obrigação de consertar aquilo ali? Não é assim! O governo não pode ter uma estrutura dessa, não. É um custo muito alto para a sociedade brasileira”, afirmou o superintendente.

Apesar de defender o enxugamento da máquina pública, Candeias afirmou que o trabalho do órgão precisa ser ampliado. “Temos feito nosso papel, mas nos últimos anos perdemos muitos colegas com aposentadorias, até mortes, e estamos em um nível de concursos muito baixo. Aí quer dizer você diminui os seus quadros e é claro que você gera dificuldade. Mas repito para você: a gente vem fazendo nosso trabalho, todas as denúncias estão sendo apuradas, todas as informações de acidentes estamos fazendo a análise circunstanciada, mas esse ano o que realmente pegou foi a situação da pandemia”, concluiu. 

Sem velório

Aziel era solteiro e morava com a mãe, no interior de Vila Pavão, no noroeste do estado. Meses depois do trágico acidente, a aposentada Lucimar Betzel, de 62 anos, convive com o vazio deixado pela partida precoce do filho. Com olhar carregado de tristeza, lamenta não ter conseguido ver o corpo do filho. “A pedra que caiu em cima dele era tão grande que não deu nem para ver uma beiradinha”, disse. 

Aziel, assim como muitos outros trabalhadores do campo no Espírito Santo, trocou a agricultura pelo ofício braçal em uma pedreira de extração de mármore e granito. Dona Lucimar, durante os quase dois anos em que o filho trabalhou com carteira assinada na empresa, se preocupava com os riscos que ele corria, diante das constantes notícias de acidentes e mortes.

“Eu nem queria que ele trabalhasse lá. Ele mandou uns currículos e pedi a Deus para que não desse certo. A gente já sabia que esse trem era perigoso, mas todo mundo trabalhava e ele estava precisando de ganhar um dinheirinho. Mas sabemos que, de vez em quando, vai um lá nessas pedras”, relatou dona Lucimar. 

Após a morte de Aziel a família ficou devastada. Dona Lucimar perdeu um companheiro de todas as tarefas diárias, um filho brincalhão que adorava um café com muita prosa. E para o irmão Ozéias está difícil olhar para a lavoura e não lembrar da empolgação do irmão que, dias antes do acidente, tinha iniciado a preparação da terra para plantar pimenta. 

“Tudo que um fazia o outro estava ajudando. Plantamos feijão aqui e estávamos preparando a lavoura para plantar pimenta. Agora vou mexer na minha terrinha sozinho. Sem meu irmão”, disse Ozéias, emocionado.

A dor da perda no feriado de Finados

No dia 2 de novembro, feriado de Finados, Diéliton Gonçalves Melo, de 30 anos, foi mais uma vítima de acidente de trabalho, na pedreira da empresa Mineração Giarllo Ornamental, em Vila Itaperuna, Barra de São Francisco. Segundo informações da Polícia Militar, o trabalhador caiu de uma altura de 40 metros depois de uma pedra ter se soltado. Com a queda, quebrou as pernas e bateu a cabeça. Ele ainda foi socorrido, mas chegou ao hospital sem vida. Diéliton era casado e deixou um filho de 4 anos. A empresa não retornou os contatos feitos pela reportagem.

“Ele não trabalhava em dia de feriado. Foi chamado pelo encarregado para trabalhar no sábado, para cumprir uma demanda, só que choveu muito. Aí pediram para ir na segunda. Isso aconteceu assim que ele chegou. Ele saiu para trabalhar e uma hora depois veio a notícia do acidente”, disse a esposa, Angélica Conceição da Silva, de 32 anos.

O que de fato aconteceu com Diéliton no dia do acidente é contestado pela família. Ele era marteleteiro e trabalhava havia quatro anos na empresa. Familiares acreditam que no momento do acidente ele estava trabalhando na detonação de pedras sem ter formação para fazer o serviço. 

“O que fiquei sabendo na hora que cheguei no hospital foi que soltou a capa de uma pedra e atingiu a cabeça dele. Depois, o documento do hospital dizia que ele tinha caído de uma altura de 40 metros. Não faz muito sentido”, questionou Angélica. 

O pai de Diéliton, o autônomo Décio José de Melo, de 64 anos, diz não acreditar nos fatos apresentados pela empresa em que o filho trabalhava. “O relato que a empresa deu não bate com esse do hospital. Está diferente. O encarregado disse que ele caiu de uma altura de 6 metros. Aqui está que ele caiu de uma altura de 40 metros. Ele teve um corte de um lado ao outro na nuca, o rosto estava perfeito. Não teve dano nenhum, e eu não consigo entender como uma pessoa toma uma pancada na nuca e não vai cair de rosto no chão. Vai cair de barriga para cima. Eu não consigo entender”, disse com a voz embargada. 

“A perícia foi realizada lá na pedreira depois de oito dias. Eu praticamente não considero que foi uma perícia correta, porque a perícia tinha que ser na hora lá, eles não podiam ter tocado no meu menino! Eles pegaram e trouxeram. Eles tinham que chamar o Corpo de Bombeiros para socorrer meu filho! Realmente tem coisas que não dá para acreditar!”, concluiu.

Segundo Fernando Silva Vieira, diretor do Sindimármore, o sindicado e a esposa de Diéliton solicitaram à Polícia Civil e à direção da empresa que acompanhassem o trabalho da perícia. Entretanto, de acordo com Silva Vieira, a empresa teria omitido que já tinha sido feita. “Contactamos a empresa para acompanhar a perícia. No dia, os representantes disseram que iriam nos avisar, e no dia seguinte descobrimos que a perícia já tinha sido realizada. Ou seja, eles sabiam dessa informação e omitiram”, denunciou.

Acidentes também incapacitam trabalhadores 

Além do alto índice de mortes, o setor de rochas ornamentais no Espírito Santo registra uma quantidade assustadora de acidentes de trabalho todos os anos. De 2015 a 2020, foram 1.873 acidentes. Um registro a cada dois dias no período de cinco anos, segundo informações do Sindimármore.

O ex-operário Euclésio Santos do Carmo, de 53 anos, carrega no corpo as marcas de 20 anos de trabalho em minas de exploração. Testemunhou alguns acidentes e sofreu um que quase tirou sua vida. Caiu de uma altura de 8 metros e quebrou diversos ossos do corpo. 

“Estava derrubando uma prancha que escorregou. Estou aí vivo, mas quase morri. Na época, na pedreira, não tinha segurança e depois do ocorrido eles colocaram cercas. Meu corpo nunca mais foi o mesmo. Os ossos do peito são trincados e não posso pegar peso. Se pegar peso e andar 5 metros, é muita dor”, relatou. 

Euclésio foi demitido quando retornou ao trabalho, um ano após o acidente, pois não conseguia mais fazer o trabalho braçal na frente de exploração. Só que o destino foi ainda mais trágico para o operário. Anos depois, descobriu que estava com silicose, doença ocupacional causada pela inalação do pó de sílica, substância tóxica presente no granito.

Silicose: a morte silenciosa

“Eram dez marteleteiros trabalhando juntos e jogando poeira um na cara do outro. Não dava para enxergar. E no final desse negócio aí descobri essa silicose.” A afirmação é do ex-operário do setor de rochas ornamentais Gilcimar Procópio Lucas, de 49 anos, momentos depois de receber o diagnóstico de que estava com silicose, doença pulmonar adquirida durante o período em que trabalhou nas frentes de mineração no estado do Espírito Santo.

Conhecida também como pulmão de pedra, por causar o endurecimento dos tecidos dos pulmões, a silicose é uma doença ocupacional sem cura e sem tratamento específico causada pela inalação do pó de sílica, presente no granito, e que acomete diversos trabalhadores de forma silenciosa. Entre os sintomas estão fadiga e falta de ar, que vão se agravando com o tempo. 

“A cada dia me sinto diferente. A cada dia sinto mais a falta de ar. Sinto muitas dores também. Sinto muito as costas. Hoje, o doutor constatou que a perna estava começando a inchar. Diz ele que a tendência é só agravar”, disse Gilcimar com os olhos marejados de lágrimas, diante do cenário desanimador do diagnóstico. 

O médico pneumologista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Valdério do Valle Dettoni, que acompanha há 15 anos a evolução da silicose no norte do estado, explica que o pó da sílica é extremamente tóxico e, depois de inalado, o pulmão produz uma ação inflamatória, resposta imunológica do organismo que causa fibrose, que provoca a perda da elasticidade do tecido do pulmão, tornando a respiração cada vez mais difícil. 

“A silicose é uma doença pulmonar ocupacional que é produzida decorrente da inalação de partículas finas de sílica. Essas partículas inaladas se depositam nas vias aéreas e no pulmão e produzem uma reação inflamatória crônica de maior ou menor intensidade que vai produzir a doença”, explicou Dettoni, que já identificou mais de 150 trabalhadores com a doença no estado.

Os primeiros sintomas da silicose aparecem após dez anos de exposição às partículas da sílica, e por isso são identificados em trabalhadores com idade entre 35 e 60 anos. A doença não tem cura e se desenvolve de forma progressiva. Por não possuir tratamento específico, a única condição de recuperar os pacientes é o transplante de pulmão.

A situação vivida por Gilcimar é um retrato do problema social causado em anos de exploração de mármore e granito na região norte do estado, com a forte migração da força de trabalho da agricultura para as jazidas de pedras ornamentais. 

“Trabalhava na roça, e a melhor opção de conseguir um troco era na pedreira. Era pedreira ou ficar na roça sem quase o que comer. A rotina era sofrida. Saía cedo com a marmitinha. Na pedreira a condição de segurança era mínima, mas era o que a gente tinha para sobreviver. Foram 19 anos nesta luta”, relatou Gilcimar, que trabalhou em cinco empresas diferentes. 

O grande número de trabalhadores silicóticos é resultado do período de extração feita em sistema a seco, que provocava a suspensão de diversas partículas no ar. Hoje, após ações civis públicas instauradas pelo MPT, as empresas firmaram um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que obriga à utilização de sistema umidificado, entre outras regras, como molhar o pátio para diminuir a quantidade de partículas suspensas no ar. 

“Sabemos que muitos trabalhadores morreram em nossa região sem saber que era silicose; e, quando foi fazer a biópsia para saber o que ocasionou, estava com o pulmão empedrado. A pessoa já não tinha nem pulmão direito mais”, afirmou Silva Vieira.

Ações na Justiça

No município de Ecoporanga, no extremo norte do estado, diversos ex-operários buscam na Justiça indenizações e pedido de aposentadoria por invalidez por causa da silicose. Entre os relatos dos trabalhadores, histórias de fome diante da falta de ocupação após o diagnóstico da doença. 

O ex-operário Vilmar Dias Medeiros, de 46 anos, trabalhou 12 anos na pedreira e descobriu a silicose em 2017, três anos depois de ter sido demitido. Na época ele já vivia fazendo bicos na roça, mas agora, sem poder trabalhar, vive com a ajuda de familiares e amigos. 

“Consegui o auxílio-doença por um ano e três meses, mas aí eles cortaram e estou sem receber. Não posso trabalhar, e quem me ajuda são meus amigos e irmãos. A gente procura o INSS, mas eles alegam que eu poderia trabalhar com outra coisa. Estudei até a segunda série. Não tenho estudo e só trabalhei na área do granito”, desabafou Vilmar, que acionou a Justiça para tentar se aposentar por invalidez.

“As empresas em que trabalhei faliram e não consigo nem uma indenização. Aí está na Justiça para que eu possa me aposentar. E a cada dia fico mais preocupado porque esses dias meu travesseiro aparece sujo de sangue. Fui ao médico e ele me disse que preciso fazer um exame, mas que no SUS não tem. Tenho que usar bombinha, mas não tem no SUS. Aí fica complicado porque estou sem nenhuma renda e vivendo de ajuda”, relatou. 

Trabalhadores com silicose são demitidos

De seis em seis meses, as empresas precisam realizar exames de pneumologia dos trabalhadores da linha de frente da extração. A regra entrou em vigor após decisão judicial para o cumprimento da TAC para a promoção da segurança e saúde do trabalho no setor de rochas, regra ainda desrespeitada por grandes empresas do setor segundo denúncias do Sindimármore. 

O marteleteiro Paulo César da Silva trabalhou 19 anos no setor de rochas. Em seu histórico profissional, ele relata tempos de trabalho duro, com jornadas com mais de 12 horas diárias “Já trabalhei em pedreira, que dava 17 horas, e eles querendo produção, chegava e dava R$ 50 a cada marteleteiro e falava que era para furar. A gente montava em cima, dez marteleteiros, metia o martelo e não via nada, subia aquele poeirão. E tinha vez que o que iluminava eram as máquinas com o farol acesso de madrugada. Já furei pedra até às 2 horas da manhã. Passava das 12 horas de trabalho, quando apertava a produção”, disse Paulo César.

Em entrevista para a Pública em sua casa, em um assentamento localizado no interior de Ecoporanga, no extremo norte do estado, Paulo César compartilha o drama vivido nos últimos meses. Casado e pai de dois filhos, fora demitido da empresa S & C Gram Mineração após as constantes apresentações de atestados médicos. 

“Sentia a coluna, o quadril, dor nas costas. Era muito cansaço, qualquer movimento eu canso. Não estava me sentindo bem, aí fui ao médico, e a empresa não me deu assistência. Alegaram que eu estava fingindo e me dispensaram ainda passando mal. Tenho laudos dos médicos que não estava bem. Entreguei todos atestados a eles”, relatou o marteleteiro com os diversos atestados e medicamentos expostos sobre a mesa de sua casa. 

Com dois filhos pequenos para criar, Paulo César não desistiu, procurou emprego em outra empresa, porém no exame admissional foi constatado como incapacitado para o trabalho. Hoje ele vive de bicos na roça e entrou na Justiça contra a empresa em que trabalhava. A Pública não conseguiu contato com representantes da S & C Gram Mineração através dos telefones disponibilizados no site da empresa.

Assim como Paulo César, diversos ex-operários com silicose buscam na Justiça o recebimento de indenização. As ações são individuais, e, de acordo com o diretor executivo do Sindirocha, Celmo de Freitas, o sindicato que representa os empresários não tem um plano de trabalho e de diagnóstico conjunto, e as empresas atuam de forma isolada diante de cada caso. Ainda segundo Freitas, não existe um mapeamento de trabalhadores que desenvolveram doenças por trabalhos laborais no setor de rochas ornamentais no estado. 

Empresas não têm plano de acompanhamento de acidentes e trabalhadores doentes

Diante do histórico de acidentes com mortes no setor de rochas ornamentais, o Sindirochas diz que a atividade apresenta riscos naturais e reconhece que não possui um plano de acompanhamento de acidentes. 

“Em termos da atividade, você tem os riscos naturais, e, para isso, existem normas que buscam reduzir, minimizar ao máximo e até eliminar essa possibilidade de risco, mas você acaba vendo que, como na maioria das vezes, a gente não acaba recebendo uma posição conclusiva da investigação. O que aconteceu? Você fica com dificuldade de apontar claramente o quê”, afirmou Freitas.

Questionado sobre os fatores que levaram o setor a registrar a marca de 12 mortes de trabalhadores em 2020, o diretor levantou dúvidas sobre as causas das falhas das empresas, agravadas pela pandemia do novo coronavírus.

“Foi questão de algo que a empresa não forneceu? Foi algum momento de descuido na extração? Temos em 2020 um cenário interessante no aspecto de mudanças, e que os comportamentos foram alterados de uma forma mais drástica. E aí eu até coloco como uma pergunta, e não como uma afirmação: será que esse cenário, de alguma forma, não impactou a parte pessoal nossa, do indivíduo, e isso pode ter gerado em algum momento aquele segundo de não percepção do risco?”, disse.

Das 12 mortes registradas em 2020, sete tiveram as investigações concluídas pelo MPT. Após o aumento de acidentes com mortes, o Sindirochas e a Superintendência Regional do Trabalho anunciaram que irão realizar um diagnóstico de saúde e segurança no setor para desenvolver um plano de trabalho para corrigir falhas identificadas e aumentar a segurança do trabalhador.

Fonte: Agência Pública
Texto: Sullivan Silva
Data original da publicação: 17/02/2021

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *