Pesquisadora analisa o impacto da pandemia nas relações sindicais

Fotografia: Sindicato dos Metroviários de São Paulo

Um dos indicadores econômicos que mais tem se alterado durante a pandemia é a taxa de desemprego. Entre os meses de abril e agosto, cerca de três milhões de pessoas ficaram sem trabalho. Em julho, a taxa de desocupação chegou a 13,7%, o que corresponde a 12,9 milhões de pessoas. Os dados são da edição semanal da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Para a professora de Ciência Política da Universidade de Campinas (Unicamp) e integrante da Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reforma Trabalhista (Remir), Andréia Galvão, a pandemia acelera a conjuntura de desmonte de direitos trabalhistas: “Viemos de um contexto de desmontes, e novas etapas nesse processo surgem com a eleição de Bolsonaro e a pandemia. Ela é um novo patamar desse processo e isso exige uma ação dos sindicatos”. 

Para ela, a necessidade de agir em defesa dos direitos da categoria muda a perspectiva de atuação das entidades sindicais “Nós da Remir estamos pesquisando exatamente a ação dos sindicatos na pandemia. Essa situação emergencial e inédita faz com que os sindicatos assumam um papel mais ativo nessa conjuntura, no contato e na representação dos trabalhadores. Com as novas formas de comunicação, ter mais contato com a base ajuda a informar sobre as medidas de segurança e saúde e sobre as novas condições de trabalho da categoria”, explica. 

A professora aponta que a ação traz benefícios para além das bases das entidades e tem um efeito positivo na visão da sociedade: “Essa movimentação de perspectiva em defesa da vida surge numa condição que dá mais legitimidade aos sindicatos, porque eles estão agindo além de questões econômicas e corporativas. Os sindicatos fazem denúncias de demissões; de falta de condições mínimas de trabalho; muitos têm feito manifestações virtuais e nas ruas; denunciando o não pagamento de salários e alguns direitos. Nesse contexto, as entidades têm mostrado sua capacidade de reação”. 


Para a pesquisadora, lutas como a paralisação dos entregadores de aplicativo são exemplos de que nem a precarização do trabalho impede a organização e a paralisação quando os trabalhadores se deparam com condições insustentáveis, “O breque dos apps foi importante para mostrar que esses trabalhadores precários, que supostamente não conseguem se organizar, por estarem na informalidade e espalhados, eles utilizam dessas mesmas ferramentas para se organizar”, explica. 


Ainda que se unissem na reivindicação, Andréia aponta que haviam três formas de encarar a questão: “Há uma divisão política aqui. Uma parte quer permanecer autónoma; outra quer uma regulamentação específica, diferenciada e tem os que querem a aplicação da regulamentação vigente, que é a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT)”. “Isso é uma disputa política também. São diferentes posições em jogo quando falamos em condições de trabalho, porque nem sempre a percepção da garantia de direitos é a mesma”, reflete a pesquisadora, que aponta que a solidariedade de outras categorias também teve peso no alcance das paralisações. 


“Outro elemento interessante a ser destacado são as ações de solidariedade que são para fora da categoria, como oferecer espaços que funcionaram como hospitais de campanha, a doação de cestas básicas, a arrecadação de recursos para trabalhadores desempregados”. Ela enfatiza que essas ações elevam não apenas a legitimidade dos sindicatos com suas bases, mas podem gestar um processo de unidade política.

“Ainda que as ações se dêem nessa lógica mais da assistência, sem evidenciar a solidariedade de classe, é interessante observar essas movimentações, porque elas podem conscientizar os trabalhadores sobre as condições de outras categorias e contribuir para a construção de um projeto político mais amplo”, pontua. 


Os desafios para o pós-pandemia exigem essa ampliação da atuação, já que, de acordo com ela, “perceber a importância dos direitos universais para reduzir a desigualdade é algo que os sindicatos precisam integrar. Para além da luta corporativa, é necessário incorporar esses outros trabalhadores nesse movimento de ampliação da defesa dos direitos universais, o que não significa ignorar as desigualdades históricas, de raça, gênero, sexualidade, porque se entrelaçam de forma muito diversas e os sindicatos precisam dar conta disso sem criar uma dicotomia entre luta geral e específica”.

Confira a entrevista completa: 

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Vanessa Gonzaga
Data original da publicação: 14/10/2020

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