Perdemos nossa chance com Obama de impulsionar reformas trabalhistas, diz líder sindical dos EUA

“Nós perdemos nossa oportunidade com Obama de impulsionar reformas trabalhistas”. Estas palavras são de Gary Casteel, representante do sindicato UAW (União dos Trabalhadores Automotivos), que esteve no Brasil em meados de fevereiro para um protesto contra a montadora japonesa Nissan, que a agremiação afirma estar ameaçando funcionários que tentem se sindicalizar.

“Nós sempre apoiamos [o presidente, Barack] Obama. Quando ele foi eleito, pensamos que conseguiríamos uma reforma na nossa lei trabalhista pela primeira vez desde que ela foi criada, em 1935. Mas ele não conseguiu nem passar pelo Congresso propostas que visavam ajudar o movimento sindical, quanto mais realizar uma reforma na lei. Nós perdemos nossa oportunidade com Obama de conseguir o apoio do Congresso e do Senado para impulsionar reformas”, explica Casteel.

Além disso, a UAW vive um momento de tensão com o chefe de Estado norte-americano por causa da assinatura da Parceria Trans-Pacífico (TPP). “Sempre nos opusemos à criação da TPP. Não acreditamos que ela tenha regulamentações adequadas quanto aos direitos humanos e trabalhistas”, argumenta.

Com a chegada das eleições presidenciais nos EUA, que acontecem no dia 8 de novembro, a UAW tem expectativa de que um democrata continue na Casa Branca. O sindicato, no entanto, não apoiou oficialmente nenhum dos pré-candidatos do partido, Hillary Clinton e Bernie Sanders. “Nós iremos apoiar quem ganhar as eleições primárias”, esclarece Casteel.

O sindicalista argumenta, porém, que “Bernie está mais alinhado com a causa trabalhista e os problemas que ela enfrenta”. Sanders defende o direito à sindicalização, a diminuição das horas semanais de trabalho, licença maternidade e médica remunerada, entre outras medidas. O que a UAW teme é que, se Sanders ganhar tanto as eleições primárias, quanto as gerais, ele não consiga promover nenhuma reforma efetiva, da mesma forma que Obama não o fez quando assumiu a presidência. Mesmo assim, Casteel disse estar otimista, tendo em vista que os dois pré-candidatos sempre foram “muito bons com os trabalhadores e a nossa causa”.

“As pessoas estão cansadas. Os trabalhadores estão dizendo que aguentaram o suficiente. Nós já chegamos no fundo do poço, agora só podemos ir para cima”, afirma.

Nissan

Casteel, junto com outros membros da UAW, veio ao Brasil organizar um protesto, que foi realizado em frente ao Comitê Olímpico no Rio de Janeiro, na quinta-feira (18/02), contra a montadora Nissan. Segundo o sindicato, a empresa vem ameaçando seus funcionários, desde 2003, para evitar que eles se filiem. Patrocinadora oficial das Olimpíadas de 2016, a empresa deve seguir princípios de ética, responsabilidade social e cidadania estabelecidos pelo Comitê Olímpico Internacional. Para a UAW, estes são violados a partir do momento em que a Nissan impede a organização de seus funcionários.

“Nós queremos atrair a atenção para o comportamento ameaçador e intimidante da Nissan”, sustentou ele. De acordo com Casteel, a principal dificuldade são as ameaças indiretas realizadas pela companhia. “Eles não podem dizer, ‘olha, se vocês se sindicalizarem nós vamos atear fogo no andar onde vocês trabalham’, mas eles podem dizer, ‘olha, se vocês se sindicalizarem, é possível que o andar onde vocês trabalham pegue fogo’. A lei permite isso”, conta Casteel.

Em resposta, a Nissan afirmou a Opera Mundi que “não apenas respeita as leis trabalhistas, mas trabalha para garantir que todos os seus funcionários estejam cientes destas leis, entendam seus direitos e tenham plena liberdade para expressar suas opiniões e eleger seus representantes”. Segundo a montadora, os funcionários já realizaram votações para decidir pela sindicalização e, em todas elas, escolheram não ser representados pela UAW.

“Nós acreditamos que nossos funcionários têm o direito de escolher diretamente seus representantes: duas vezes, em Smyrna, Tennesse, nossos funcionários votaram contra a representação da UAW. Em Canton, Mississippi, nunca houve interesse suficiente para iniciar o processo de votação”, diz um representante da empresa.

Reforma nas relações laborais

Para Casteel, a única maneira de acabar efetivamente com as ameaças, independentemente da empresa, seria uma reforma do Ato Nacional das Relações Laborais, criado em 1935 e única proteção que os trabalhadores possuem. Este é o principal objetivo do movimento sindicalista no país.

Porém, tanto o Congresso quanto o Senado norte-americano possuem maioria de representantes republicanos que, segundo Casteel, não costumam apoiar a luta trabalhista. “Eles [republicanos] acham que nós devemos simplesmente aceitar o que os nossos patrões estão dispostos a oferecer e nos darmos por satisfeitos”, diz.

Como consequência desse cenário, apenas 13% dos trabalhadores norte-americanos estão em sindicatos, de acordo com dados de 2016 do Ministério do Trabalho dos EUA.

Para se sindicalizar, os trabalhadores de uma empresa devem realizar uma votação em 40 dias e pelo menos 50,01% dos funcionários devem votar a favor da organização. É durante esse período, entretanto, que as empresas se aproveitam para ameaçar e coagir os trabalhadores, fazendo com que, no final, não haja a quantidade suficiente de votos para ocorrer a sindicalização.

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Fonte: Opera Mundi
Texto: Camila Alvarenga
Data original da publicação: 27/02/2016

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