Pandemia, transformações nas cidades e no trabalho: o mundo em movimento e o impacto nas juventudes. Entrevista com Guilhermo Aderaldo

Fotografia: Guilhermo André Aderaldo/Arquivo pessoal

O conceito de juventude é sempre muito diverso e também impreciso. Mas o certo é que olhar para os movimentos das gerações mais novas é interessante para minimamente apreendermos como se relacionar com as transformações do mundo. No entanto, nos últimos tempos, as transformações tecnológicas, das relações econômicas e sociais têm dado saltos tão grandes que têm posto até mesmo os mais jovens surpresos. Alia-se a isso o avanço de um conservadorismo e uma pandemia. O antropólogo Guilhermo Aderaldo vem há algum tempo pesquisando essas realidades, especialmente no contexto de periferias brasileiras, e percebe muitos impactos no ‘ser jovem’. “Com o aumento na expectativa de vida, a crise das formas tradicionais de organização social do trabalho, a recessão econômica e todo o desmonte das políticas de previdência, é cada vez mais comum vermos pessoas de quarenta anos ou mais vivendo na casa dos pais, com grande dificuldade de recolocação no mercado de trabalho e que sequer sonham com uma aposentadoria”, aponta.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor ainda observa que, dada a atual conjuntura, “há uma geração atual de jovens que, lamentavelmente, está pagando um preço altíssimo pelo pequeno movimento ascendente que os mais pobres fizeram durante a primeira década dos anos 2000”. Ou seja, os avanços mais progressistas da virada do milênio não foram a partir de transformações profundas e o revés logo se configurou. “De algum modo, a ascensão da extrema direita no país tem também algo a ver com isso. E hoje em dia, falar sobre esse custo “pago” por uma parcela da população mais jovem e menos privilegiada, pelo menos para mim, envolve um dilema não só epistêmico, mas, sobretudo, ético”, acrescenta.

Guilhermo faz questão de destacar essa relação porque mergulhou nas periferias e criou laços com os jovens que foram muito mais do que objetos de estudos. De dentro da favela, viu o trabalho diminuir, a uberização se impor e o que antes foi oportunidade agora se torna um luta e resistência. “E a pandemia tende a agravar o sentimento de desajuste que esses processos geram, trazendo consequências que afetam a saúde física e mental, além de muitos outros riscos, que levam à evasão escolar, perda de trabalho e renda, crises familiares e tudo isso num cenário no qual, por razões óbvias, a própria sociabilidade passa a ser vigiada”, aponta. E completa: “acho que nunca tivemos uma oportunidade tão perfeita para tomarmos consciência do nível absurdo de desigualdades que constitui a sociedade brasileira”.

Mesmo assim, apesar de transformações tão abruptas e impactos tão profundos, Guilhermo aponta caminhos e vê nos mais novos, mesmo isolados ou sem conseguir se isolar, sem terem como se proteger ou estudar, linhas de resistências que dão esperanças. “Há uma geração de produtores culturais muito talentosos nas periferias e que se dedicam a produzir trabalhos extremamente potentes”, indica. É o caso dos videoativistas, “uma prática absolutamente fundamental num país como o nosso, no qual os veículos de mídia são monopolizados”. “Coletivos que se dedicam ao uso político de ferramentas audiovisuais, que se multiplicam a cada dia, têm sido responsáveis por processos muito eficazes de preservação da memória de personagens e processos políticos protagonizados por minorias representativas”, conclui.

Guilhermo André Aderaldo é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista – Unesp, com ênfase nas áreas de Sociologia e Antropologia. Ainda possui mestrado em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo – USP. Realizou ‘estágio sanduíche’ na École des Hautes Études en Sciences Sociales/EHESS (Paris/França) e estágio pós-doutoral na USP, tendo ainda feito estágio de pesquisa na Universidad de Buenos Aires – UBA. Atualmente, é pesquisador do Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas – PPGAnt/UFPel, no Rio Grande do Sul. Entre suas publicações, destacamos Reinventando a cidade: uma etnografia das lutas simbólicas entre coletivos culturais vídeo-ativistas nas ‘periferias’ de São Paulo (São Paulo: Annablume/Fapesp, 2017).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o senhor observa os jovens de hoje? Quais suas maiores potências e as piores fragilidades?

Guilhermo Aderaldo – É impossível pensar nos “jovens”, de “hoje” ou de “ontem”, como se formassem um único grupo, com características e comportamentos relativamente homogêneos. As formas de se experienciar a juventude e o que ela significa são atravessadas de maneira muito profunda e complexa por clivagens de gênero, classe, raça, região etc. Além disso, em antropologia, quando falamos em “juventude”, no fundo, não nos referimos somente a um grupo etário específico, mas pensamos, sobretudo, num valor disponível para o “consumo” de pessoas de diferentes idades.

A antropóloga Guita Debert, que foi minha professora na Unicamp, por exemplo, tem um artigo bastante conhecido, em que discute justamente essa questão. Em linhas gerais, o que ela vai dizer é que, numa sociedade altamente hierarquizada como a nossa, o significado de “ser jovem” e “ser adulto” ganha sinais duplos, a depender de como esses valores são conjugados com marcadores de classe. Por exemplo, quando a referência são os setores mais privilegiados, frequentemente, “ser adulto” indica uma falha na autorrealização como consumidor, já que aponta para a incapacidade de a pessoa se manter “jovem”. Já quando pensamos em setores subalternizados, esse “ser adulto” surge como uma aspiração impossível, uma vez que os mais pobres costumam ser discriminados, justamente pela suposta incapacidade de chegar a um estágio de plena maturidade, responsabilidade e autonomia financeira.

A juventude, então, numa sociedade que supervaloriza o desempenho como essa em que vivemos, acaba sendo um valor que ganha valência positiva ou negativa, a depender de quem estamos falando. No caso dos mais pobres, é comum que a “juventude” seja entendida como sinal de ameaça, uma vez que o desejo e a energia para forçar limites sociais e buscar a mudança costumam surgir, justamente, desse setor. Não é por acaso que o pesadelo de uma classe média relativamente estabelecida no Brasil se materialize, justamente, nas jovens filhas de empregadas domésticas que entram na USP, no lugar que, aparentemente deveria estar “reservado” aos seus filhos, como vemos no filme “Que horas ela volta?” (2015), ou num bando de jovens negros que, do dia para a noite, surgem compartilhando o mesmo espaço privado de consumo que, até ontem, parecia existir, justamente, para contê-los.

O cinema brasileiro contemporâneo tem pontuado razoavelmente bem essa nova gramática de conflitos. Filmes como “O Invasor” (2002) ou o próprio “Que horas ela volta?” tratam disso. Ou seja, de figuras que entram no “centro” pelas margens e que, ao chegarem, simplesmente se instalam, como um vírus, e recusam “voltar”. Acho que isso é uma espécie de metáfora do Brasil contemporâneo.

Retomando a pergunta, é justamente nesta metáfora que reside a potência e a fragilidade dessa geração atual de jovens. Potência porque, claramente, eles e elas estão forçando limites, de modo que, com ou sem governo autoritário, essas pessoas não voltam mais à “senzala”, como se diz. Fragilidade porque numa sociedade racista, misógina, hierarquizada, violenta e ressentida como a que vivemos, essa “ousadia” das classes populares cobra um preço. E esse preço, como vemos claramente hoje, surge sob a forma da eleição de governos profundamente conservadores e do genocídio, em especial, da população jovem e negra, além do etnocídio e de outras formas de violência explícita.

IHU On-Line – A cidade de hoje ainda segrega os jovens, especialmente da periferia? Em que medida os ‘rolezinhos’ subverteram essa lógica de exclusão?

Guilhermo Aderaldo – Sem dúvida a segregação segue sendo uma marca característica das nossas cidades, mas a forma como ela se expressa espacial e socialmente mudou de maneira significativa, se tivermos como referências as décadas de 1980 e 1990 no Brasil, por exemplo. Isso porque, se até mais ou menos o fim da década de 1990 o padrão centro/periferia dizia respeito a universos mais claramente segregados, fato é que, com a expansão do consumo, o incremento de uma série de políticas sociais, o avanço tecnológico e a erosão da estrutura produtiva característica dos imprecisamente chamados “tempos modernos”, esse tipo de polarização (centro/periferia) tornou-se mais confuso e poroso.

Estudos como os que o cientista político Eduardo Marques vem coordenando no Centro de Estudos da Metrópole – CEM do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento – Cebrap têm mostrado, no caso de São Paulo, por exemplo, que se, por um lado, cresceu a exclusividade das áreas normalmente habitadas pelos mais ricos (esses sim segregados), por outro, o restante da cidade experimentou, nos últimos anos, um processo de profunda heterogeneização, que problematiza noções simplificadoras como a da “cidade partida”. Caricaturando um pouco, o fato é que, enquanto os “trabalhadores” de gerações anteriores circulavam em ônibus lotados das “periferias”, onde autoconstruíam suas casas, na direção do “centro”, onde trabalhavam, seus filhos e netos cruzam a cidade em seus próprios automóveis ou motocicletas, comprados em múltiplas prestações e com smartphones de última geração, por meio dos quais se comunicam com muitas pessoas simultaneamente e têm acesso a um conjunto imenso de informações.

Uma parcela desses jovens chega até a universidade e consome em lugares impensáveis antigamente para pessoas com a mesma origem social. Por outro lado, não podem contar com antigas garantias trabalhistas, são muito mais atingidos pela precarização que envolve a diluição da fronteira que separava o tempo do trabalho e o do não trabalho e acabam capturados, muitas vezes, pelo problemático discurso do “empreendedorismo”. Esse discurso corrompe formas de solidariedade coletiva, leva ao extremo determinados processos de individualização e aprofunda sentimentos de solidão e desajuste, ao atribuir aos sujeitos responsabilidades que estão para muito além de suas possibilidades, o que acarreta em formas de precarização subjetiva que, não raro, se desdobram em quadros muito graves de distúrbios psicológicos.

Rolezinhos

Ao mesmo tempo, esse alargamento das possibilidades de exercitar a própria presença nas cidades também gera espaço para formas muito criativas, tanto de lazer, quanto de participação política nos meios urbanos, como tenho procurado mostrar ao estudar toda uma nova gramática de ativismos contemporâneos. No caso dos rolezinhos, como vários colegas já demonstraram – por exemplo, Alexandre Barbosa Pereira e Teresa Caldeira, em São Paulo, ou Rosana Pinheiro-Machado, em Porto Alegre –, o que acontece é que se trata de um fenômeno muito fértil para entendermos tensões bastante contemporâneas de nossa atual conjuntura urbana. Não acho que a ideia de “subversão”, como aparece na sua formulação, se adeque muito bem a esse caso, já que se tratava de jovens que, no fundo, programavam esses encontros não exatamente para questionar qualquer lógica relacionada à sociedade de consumo mas, ao contrário, a intenção era participar ainda mais ativamente dela.

No entanto, sem dúvida, o aspecto da “zoeira”, ou seja, a intenção de reforçar uma presença insurgente ou provocadora, também fazia parte da diversão dos jovens. Mas o interessante é que esse fenômeno e as reações a ele são capazes de tornar visível, justamente, o núcleo duro da cultura segregadora que organiza a diversidade urbana no Brasil e o modo como a noção de “periferia” se tornou mais complexa com o incremento das possibilidades de circulação e consumo das camadas menos privilegiadas. Assim, os rolezinhos demonstraram o fato de que a segregação centro periferia, que sempre garantiu uma certa distância entre os espaços de residência e de sociabilidade das diferentes classes sociais, se esgarçou, promovendo uma lógica ambígua em que, por um lado, formamos uma sociedade que está mais do que pronta para vender produtos aos mais pobres, mas que se mostra, por outro lado, absolutamente despreparada para incorporá-los, efetivamente, num modelo mais democrático e plural de cidadania.

IHU On-Line – Na primeira década dos anos 2000, vimos o crescimento de uma relativa democratização do ensino, o aumento do poder de consumo e até uma certa circulação das sociabilidades impactarem o modo de ser das juventudes. Mas, atualmente, num cenário de recessão e um estado de crises que tolhe direitos, como os jovens têm reagido?

Guilhermo Aderaldo – Há uma geração atual de jovens que, lamentavelmente, está pagando um preço altíssimo pelo pequeno movimento ascendente que os mais pobres fizeram durante a primeira década dos anos 2000, pois, de algum modo, a ascensão da extrema direita no país tem também algo a ver com isso. E hoje em dia, falar sobre esse custo “pago” por uma parcela da população mais jovem e menos privilegiada, pelo menos para mim, envolve um dilema não só epistêmico, mas, sobretudo, ético. Digo isso porque, enquanto conversamos sobre essas coisas e eu falo da segurança e conforto da minha casa, muitas pessoas com as quais convivi de forma muito intensa em minhas pesquisas estão, dramaticamente, lutando pelas suas vidas.

Para quem usa como matéria-prima do trabalho o próprio envolvimento com o cotidiano concreto de populações vulnerabilizadas, há uma afetação com a qual nem sempre é fácil lidar e que nos interpela em relação ao papel político do trabalho que fazemos, para além dos nossos currículos acadêmicos. Nunca foi tão difícil e, ao mesmo tempo, tão necessário produzir pesquisa científica e trabalhar com educação no Brasil, pelo menos para a minha geração. Pois, por um lado, precisamos seguir pesquisando e publicando, enquanto vemos a universidade e as agências de fomento à pesquisa sendo intencionalmente destruídas por uma agenda neoliberal extremamente perversa e, por outro lado, nos vemos obrigados a lidar com situações violentas que atravessam nosso “campo” e que nos atingem não só enquanto pesquisadores, mas na nossa condição pessoal mais íntima.

Para ser mais claro, trago um exemplo. Um tempo atrás, recebi a notícia do assassinato de um jovem interlocutor, com o qual interagi muito durante minha pesquisa de doutorado e cujas imagens que conservo na minha memória sempre remetem à alegria, à hospitalidade e a uma presença entusiasmada e potente. Desde que a morte desse jovem ocupou a minha consciência, me sinto um pouco responsável por contribuir com a promoção de uma cultura mais justa, que seja capaz de evidenciar o absurdo que existe por trás da banalização do verdadeiro genocídio que acomete pessoas como ele todos os dias no Brasil. Isso resume um pouco esse momento histórico que vivemos e que, não por acaso, tem na imagem da Marielle Franco, uma mulher jovem e negra cruelmente assassinada, o seu signo.

Luta e resistência, mas sem romantização
Desenhei esse quadro porque acho fundamental reconhecermos a existência e a importância dessas resistências políticas protagonizadas por setores da juventude brasileira, mas é preciso também evitar sucumbir à romantização dessas resistências, como certas correntes ditas “progressistas” têm feito. Quando olhamos para a realidade cotidiana dessa juventude que está, de fato, lutando contra a violência de estado no front (favelas, periferias, ocupações, assentamentos etc.), é fundamental entendermos que não estamos falando de jovens brancos engajados em causas nas quais acreditam, simplesmente. Mas falamos de pessoas que não podem dar um passo sequer para fora das suas casas sem serem perseguidas e se preocuparem se voltarão vivas.

Fala-se muito de “direito à cidade” hoje em dia, certo? Mas o que é engraçado é que pouco se interpela sobre a dimensão prática dessa ideia. Eu, pessoalmente, acho que o “direito à cidade” reivindicado por um coletivo de luta antirracista formado por jovens negros moradores de uma favela, por exemplo, não necessariamente coincide com o “direito à cidade” defendido por um grupo de arquitetos brancos engajados com a construção de “mobiliário urbano” numa praça. São tensões que perpassam as formas de engajamento que tenho observado nos últimos anos.

Há, de fato, muitas iniciativas louváveis no campo das resistências políticas a esse cenário, que envolvem desde ações colaborativas de coletivos dedicados à comunicação popular/periférica, as quais recebem, organizam e disseminam informações sobre formas de opressão contra populações vulnerabilizadas nas favelas, como faz o coletivo Fala Akari, no Rio de Janeiro. É o caso também, por exemplo, de outros coletivos de comunicação periférica em São Paulo, Porto Alegre e outras cidades, até a organização de frentes de luta e organização solidária situadas em contextos localizados, como o Levante Popular da Juventude, as diferentes associações de mães de vítimas de violência do estado e diversos outros atores coletivos vêm produzindo, muitas vezes em parceria com coletivos culturais, saraus, ONGs etc.

Além disso, dessas experiências todas têm surgido novas lideranças, que têm se articulado em candidaturas políticas de novo perfil, como fica claro agora, nessas próximas eleições, que tiveram um número recorde de registro de candidaturas protagonizadas por mulheres negras, além de várias candidaturas coletivas. Enfim, são diversos exemplos que mostram que, debaixo desse tapete que constitui a atual crise brasileira, tem muita poeira se acumulando e acredito que uma hora virá para fora.

IHU On-Line – Como a pandemia e o isolamento social impactaram as juventudes? O que distancia e o que aproxima jovens de classe média e das periferias?

Guilhermo Aderaldo – De fato, o recorte de classe que você sinaliza na sua pergunta faz toda a diferença. Há um oceano que separa a realidade do jovem que joga videogame em seu quarto individual, num bairro de classe média enquanto espera sua pizza e a do jovem que traz essa pizza, enquanto é rastreado pelos algoritmos coordenados pelo aplicativo para o qual “trabalha”, sem qualquer reconhecimento formal e que, depois, se vê obrigado a retornar para uma casa minúscula e compartilhada com uma família extensa em alguma região periférica da cidade. Apesar disso, muito provavelmente, os dois compartilharão os efeitos nocivos de certas características mais gerais que assolam a condição juvenil no mundo contemporâneo.

Eu penso aqui em processos como a precarização do trabalho, a hiperdigitalização da vida e uma enorme dificuldade de fazer essa passagem ao que corresponderia, digamos, uma “vida adulta”, quando nos estabilizaríamos profissionalmente e nos emanciparíamos materialmente. Como coloca o antropólogo catalão Carles Feixa, a juventude, atualmente, parece ser um conceito que morreu do próprio êxito, pois, diferente do que acontecia antes, quando se tratava de uma etapa transitória e relativamente rápida que separava a infância da vida adulta, hoje em dia ela se alargou e se transformou na etapa mais permanente da vida.

Com o aumento na expectativa de vida, a crise das formas tradicionais de organização social do trabalho, a recessão econômica e todo o desmonte das políticas de previdência, é cada vez mais comum vermos pessoas de quarenta anos ou mais vivendo na casa dos pais, com grande dificuldade de recolocação no mercado de trabalho e que sequer sonham com uma aposentadoria. Tempos atrás, essas seriam características bastante típicas da condição juvenil. E a pandemia tende a agravar o sentimento de desajuste que esses processos geram, trazendo consequências que afetam a saúde física e mental, além de muitos outros riscos, que levam à evasão escolar, perda de trabalho e renda, crises familiares e tudo isso num cenário no qual, por razões óbvias, a própria sociabilidade passa a ser vigiada. Algo que, no Brasil, levanta um mundo de ambiguidades.

Se pode trabalhar, pode ir à praia

Esses dias mesmo vi vários amigos revoltadíssimos, publicando “textões” em redes sociais contra a lotação das praias no país em plena pandemia. De fato, à primeira vista é absurdo. Mas, se pensarmos no nosso país e em todo o negacionismo sustentado pelas próprias autoridades públicas, veremos a complexidade disso. Tenho certeza que muitas das pessoas que estavam nessas praias eram trabalhadores, que se veem obrigados a tomar transporte público todos os dias para irem ao trabalho, também em plena pandemia. É comum que essas pessoas pensem: “se tenho que ir trabalhar todos os dias, por que não posso sair para me divertir?”. E é uma interrogação legítima.

Essa situação nos permite pôr em perspectiva o modo como partilhamos uma cultura que criminaliza o uso do tempo livre e que negligencia outros abusos cometidos em nome da lógica produtiva do capitalismo. O corpo que “trabalha” (mesmo em funções não consideradas “essenciais”) está liberado para se colocar em risco, já o corpo que “se diverte” precisa ficar em casa. Há uma contradição aí e os jovens, em especial os mais pobres, são as maiores vítimas desse tipo de raciocínio.

IHU On-Line – O que impacta a concepção de política dos jovens? Quais suas reações diante do avanço de perspectivas mais conservadoras?

Guilhermo Aderaldo – Essa pergunta é interessante, porque ela parece partir de um pressuposto muito comum, que considera os jovens como sujeitos naturalmente inclinados à esquerda do espectro político, já que são eles os que irão pagar a conta das bobagens feitas pelas gerações que os precedem. Mas não podemos esquecer que há jovens profundamente conservadores e, inclusive, de ultradireita no Brasil atual e que hoje, diante do monopólio da arquitetura social monetizada das redes, ganharam um terreno e uma capacidade de influência jamais vistos.

Não podemos negligenciar a importância desses sujeitos na conformação de uma esfera pública profundamente cindida no atual cenário político brasileiro. Nesse sentido, acho que a polarização que vemos hoje no país impacta de muitas maneiras a concepção política dos mais jovens, mas o mais grave a meu ver é que, enquanto no caso da direita parece haver uma organização e uma conjuntura muito favoráveis – que os algoritmos reforçam com muita eficácia, na medida em que atuam aprofundando bolhas de opiniões pré-elaboradas e premiando polêmicas vazias que tendem a desqualificar debates públicos de enorme relevância – , para as esquerdas (num sentido mais amplo) o ambiente é péssimo, uma vez que a semântica em torno da qual sempre se organizaram tem sido eficazmente desmontada pela retórica do “empreendedorismo”.

Nesse contexto, portanto, entendo que é mais fácil destruir do que construir e com isso se cria um ecossistema muito favorável para o aprofundamento da manipulação de afetos como ódio de classe, medo e preconceitos diversos, que sempre foram o motor dessa direita ultraliberal, desde os seus primórdios, como a filósofa política Wendy Brown mostra tão bem neste último livro, “Nas ruínas do neoliberalismo” (São Paulo: Editora Politeia, 2019). Enfim, temo muito o que pode acontecer nos próximos anos no Brasil se seguirmos na atual direção e isso é o máximo que minha perplexidade permite dizer sobre essa questão agora.

IHU On-Line – Há uma percepção de lugar comum de que os jovens são nativos digitais e que lidam bem com as relações mediadas pela tecnologia. Mas, na prática dessa experiência de isolamento e pandemia, como tem sido a reação dos jovens? Como suas sociabilidades têm sido impactadas?

Guilhermo Aderaldo – As tecnologias digitais têm sido absolutamente decisivas na vida política não só do Brasil, mas do planeta. Basta vermos estes dois recentes documentários, “Privacidade hackeada” (2019) e “O dilema das redes” (2020), que fazem bastante sucesso na Netflix. Diferente do que conhecíamos no fim da década de 1990, quando falávamos de um espaço dito “virtual” e outro que poderíamos conceber como “real”, hoje em dia essa fronteira virtual/real já não parece mais fazer tanto sentido. Carles Feixa, autor catalão especialista no tema das juventudes, tem um livro recente chamado “Da geração @ à geração #” [De la Generación@ a la #Generación: La juventud en la era digital. Ned Ediciones, 2014], em que busca evidenciar justamente essa diferença entre um mundo conectado, ou seja, no qual se supõe que os sujeitos ainda podem se desconectar, e um mundo hiperconectado, que dificilmente permite essa desconexão.

Se pensarmos na realidade brasileira, muitos jovens mal sabem usar a internet para além da manipulação de aplicativos como WhatsApp, Instagram e Facebook, no entanto, isso não muda nem o modo como essas plataformas usarão os dados que eles transmitem através delas e nem a forma como eles estão inseridos numa cultura digital bastante contemporânea. O surgimento da web 2.0, ao transformar o antigo consumidor passivo em produtor ativo de informações, trouxe ao centro da cena a lógica do “perfil”, que basicamente converte a atenção numa mercadoria. Youtubers, por exemplo, se promovem pelo número de seguidores, mais do que pela qualidade do conteúdo que produzem. O real “produto” que vendem é o “self” que montam em seus perfis e a conquista de seguidores torna-se o grande objetivo dessa economia, na medida em que os algoritmos privilegiam o volume de interações. Com isso, quanto mais sensacionalismo houver, mais engajamento e mais alcance. É um ecossistema profundamente complexo e complicado para a saúde democrática.

Arquitetura política global e as juventudes
A internet, portanto, não é apenas uma ferramenta tecnológica que utilizamos e deixamos de utilizar, mas uma arquitetura política global que define a forma como nós vivemos e nos expressamos, queiramos ou não. Os jovens são particularmente atingidos por isso e, com a pandemia, há um desgaste emocional e um custo subjetivo imensos pelo fato de se verem obrigados a se retirar por meses da sociabilidade e dos principais espaços de interação cotidiana, onde, de alguma forma, tomavam contato com experiências fora da própria “bolha”.

Além disso, com a crise econômica e o avanço de uma agenda neoliberal selvagem, muitos perderam o emprego e, principalmente, a expectativa de imaginar futuros menos instáveis emocional e economicamente. Como diz a antropóloga mexicana Rossana Reguillo, há uma precarização subjetiva que consiste na enorme dificuldade que esses sujeitos têm para construir suas biografias nesse mundo. Mas há também muitas resistências, experimentações e novas modalidades de engajamento político e econômico que a meu ver constituem uma agenda de pesquisa muito promissora no período pós-pandemia.

IHU On-Line – E com relação à educação a distância, como essa ‘nova escola’ tem sido apreendida pelos estudantes?

Guilhermo Aderaldo – Não pesquisei essa questão, sobretudo no que toca à realidade escolar. Há pessoas muito mais preparadas para falar sobre isso, como o próprio Alexandre Barbosa Pereira, que já mencionei, que desenvolveu um doutorado sobre experiências escolares, mas tomando a partir de minha experiência muito particular como professor, posso dizer que há um tremendo desafio, tanto para quem ensina quanto para quem aprende nessas novas plataformas. Há uma dimensão da relação socioespacial da sala de aula, que é parte fundamental da produção do conhecimento e que se perde, há um cansaço muito maior, mas há, por outro lado, a potencialidade de uso de recursos de mídia que são muito mais complicados no espaço escolar e universitário.

Enfim, cada realidade é uma. Há lugares com mais estrutura e com um suporte mais cuidadoso em relação ao treinamento dos professores e há lugares mais precários, que usam as tecnologias para aprofundar ainda mais essas precariedades, como vemos nesses casos escandalosos envolvendo a demissão de professores nas universidades particulares. Não posso dizer muito mais, mas o que tenho refletido sobre isso é que acho que algumas coisas vieram para ficar. Então, se, por um lado, não podemos cair na romantização do ensino a distância, esquecendo todo um mundo de precariedades que isso potencialmente reforça, tampouco me parece produtivo negligenciar aspectos positivos que essas tecnologias trazem. Tenho feito lives, produzido podcasts e essas linguagens têm se demonstrado instrumentos pedagógicos extremamente válidos e potentes.

IHU On-Line – A pandemia acelerou uma série de transformações e processos já em curso. No meio de tudo isso, como fica a escola? O que projetar sobre a educação no pós-pandemia?

Guilhermo Aderaldo – Não tenho experiência com pesquisa em ambientes escolares, mas o que me arrisco a dizer é que fica cada dia mais nítida a necessidade que temos de elaborar um modelo de instituição e currículo escolar que seja completamente diferente do que vemos hoje. É preciso pensar com cuidado e responsabilidade para filtrar o que deve permanecer da cultura analógica tradicional e os limites do que devemos incorporar da comunicação e cultura digital para o ambiente escolar.

IHU On-Line – Nessa pandemia, o senhor acabou fazendo movimento de busca e aproximação com pessoas de seu círculo de pesquisa. Como foi essa experiência? O que mais o surpreendeu?

Guilhermo Aderaldo – De fato. Em minha tese de doutorado e depois, numa pesquisa de pós-doutorado, estudei um conjunto de experiências de engajamento e ativismo que têm se dado em torno de práticas comunicativas. Me esforcei, nesses trabalhos, para compreender o impacto que a relativa popularização do acesso às tecnologias de comunicação tem gerado sobre as formas de identificação, mobilidade e participação política, sobretudo entre populações jovens, direta ou indiretamente vinculadas a regiões marcadas por processos de precarização e/ou marginalização sociourbana, em diferentes metrópoles sul-americanas – já que essas pesquisas se concentraram em ao menos três metrópoles: São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Ao fazer pesquisas que exigem uma imersão profunda na realidade cotidiana das pessoas, é comum criarmos um envolvimento que se desdobra em algumas amizades bastante profundas. Assim, fiz muitos amigos nesse percurso e, claro que me preocupei quando soube da pandemia, inclusive, porque muitos desses amigos vivem de forma muito instável das atividades culturais que promovem, em lugares amplamente vulneráveis. Montei junto com algumas pessoas um grupo de WhatsApp, onde passamos a nos comunicar frequentemente. E o que me surpreendeu positivamente foi ver, por meio das informações que circulam no grupo, a enorme quantidade de iniciativas que esses sujeitos fizeram e seguem fazendo como forma de combate à pandemia e a todas as desigualdades que ela reforça. E isso vai de projetos de financiamento coletivo bem-sucedidos, que se desdobraram em materiais preciosos, a documentários, podcasts – exemplo é Quebrada Pod! – , lives, livros, campanhas de doação e várias experiências muito ricas.

Quando fiz minha tese, as tecnologias eram infinitamente inferiores ao que vemos hoje. Os jovens que seguiram atuando no campo da comunicação hoje em dia, além de cobrirem protestos e eventos em transmissões ao vivo, também têm ou alugam drones e fazem trabalhos impecáveis tecnicamente. Há uma geração de produtores culturais muito talentosos nas periferias e que se dedicam a produzir trabalhos extremamente potentes, apesar de viverem, muitas vezes, com bastante dificuldade, de projeto em projeto, edital em edital, nisso que a socióloga Lívia De Tommasi chama de “carreira correria”.

IHU On-Line – De que forma a periferia vem constituindo uma memória da pandemia?

Guilhermo Aderaldo – Nesses últimos tempos tomei contato com diversas iniciativas interessantíssimas nesse sentido. Sempre me impressiono com o profissionalismo e a capacidade criativa dos jovens produtores culturais e ativistas autodesignados “periféricos”. Há uma enorme diversidade de ações voltadas à construção de narrativas específicas sobre os efeitos da pandemia, desde vídeos documentários como, por exemplo, um recente chamado “Pandemia do sistema”, produzido pela diretora Naná Prudêncio, no qual temas como racismo, precarização no atendimento à saúde, desemprego e experiências de solidariedade vicinal são cruzados com a discussão sobre o impacto da pandemia, até ações voltadas à prática do chamado “jornalismo cidadão”, além de lives, podcasts. Isso tudo sem falar nas diversas candidaturas coletivas, que despontam aos montes agora, no período eleitoral.

Também me deparei com o incremento de uma outra modalidade de ativismo que já de algum tempo chama minha atenção, que são os ativismos contrageográficos. Há, por exemplo, práticas muito interessantes que se desdobram da multiplicação e relativa democratização do acesso a tecnologias de georreferenciamento, como Carto.com, Qgis, Mapas Coletivos, entre outras ferramentas, que permitem a pessoas comuns produzirem mapas bastante complexos, valendo-se do uso de bases de dados públicas e que trazem contranarrativas muito eficientes sobre os desdobramentos da pandemia nos territórios, as quais muitas vezes contradizem as narrativas dos mapeamentos oficiais. Alguns casos são o “Mapa Corona nas Periferias”, produzido pelo Instituto Marielle Franco, e os mapas produzidos pela equipe do Labcidade, da Faculdade de Arquitetura da USP, em parceria com coletivos de produtores culturais e movimentos sociais “periféricos” em São Paulo. Enfim, são muitas experiências que creio que irão repercutir ainda mais no futuro.

IHU On-Line – Gostaria que trouxesse aqui um pouco do projeto da Videoteca Popular. Como o videoativismo tem se configurado como uma linha de fuga aos jovens da periferia?

Guilhermo Aderaldo – Trata-se de um projeto idealizado e coordenado por um amigo chamado Daniel Fagundes, no YouTube. É algo relativamente simples. O que Daniel tem feito é digitalizar conteúdos de vídeos historicamente construídos por movimentos populares diversos e disponibilizá-los na plataforma para que fiquem acessíveis ao maior número de pessoas possível, conservando dessa maneira uma memória das lutas populares que também acaba sendo interessante para pensarmos na relação que as camadas menos privilegiadas desenvolveram historicamente com a linguagem audiovisual.

Na página da Videoteca o Daniel também tem feito lives com realizadores para discutir uma leva mais contemporânea de produções e os temas discutidos por elas. E eu organizei junto com ele para a videoteca um ciclo de debates chamado “Vídeo popular, videoativismo e outras imagens não cordiais do Brasil atual”, no qual discutimos temas políticos relacionados ao vídeo popular, com produtores de diferentes regiões do país.

Videoativismo

Sobre o videoativismo, se trata de uma prática absolutamente fundamental num país como o nosso, no qual os veículos de mídia são monopolizados pelas mesmas famílias e tendem a filtrar as informações conforme interesses corporativos e políticos específicos. Coletivos que se dedicam ao uso político de ferramentas audiovisuais, que se multiplicam a cada dia, têm sido responsáveis por processos muito eficazes de preservação da memória de personagens e processos políticos protagonizados por minorias representativas, além de denúncias e da articulação associativa de núcleos populares. É muito difícil pensar os movimentos políticos que ocorrem nas periferias hoje em dia sem levar em consideração essa dimensão, dos ativismos no campo comunicativo.

IHU On-Line – O que a experiência da pandemia deve legar a essa geração de jovens?

Guilhermo Aderaldo – Acho que nunca tivemos uma oportunidade tão perfeita para tomarmos consciência do nível absurdo de desigualdades que constitui a sociedade brasileira. E nunca tivemos um governo tão “didático” nesse sentido. As expectativas que tenho para um futuro próximo não são nada otimistas. Penso que veremos o recrudescimento de um campo de conflitos já bastante acirrado entre forças políticas ultraliberais, extrativistas e repressoras e uma juventude acuada, mas bastante resistente, informada e preparada. Acredito que estamos criando um ambiente fértil para a emergência de convulsões sociais, cujo desfecho é impossível prever.

IHU On-Line – Em artigo recente, o senhor destaca que no atual contexto é fundamental “aprender a escutar os jovens e a levar a sério o que eles têm a dizer”. Mas como fazer essa escuta e de que forma ela pode se tornar efetiva?

Guilhermo Aderaldo – Quando disse isso, me referia a um cuidado analítico que, a meu ver, precisamos ter, de evitar adjetivações fáceis e o uso de categorias normativas que tendem a reduzir e descomplexificar os sujeitos e suas capacidades de reelaboração crítica do sentido de noções com as quais muitas vezes trabalhamos como se fossem autoevidentes. Quando um jovem interlocutor diz “periferia”, ele pode estar se referindo a algo muito diferente do que um deputado conservador ou o representante de uma ONG, ao acionarem a mesma palavra. Da mesma forma, quando o governador acusa um certo grupo de jovens de “vandalismo”, talvez, do ponto de vista desses mesmos jovens, a alcunha tenha mais sentido para definir um modelo econômico e urbanístico que os precariza.

O urbanismo hegemônico materializa, através de regras, conceitos e ordenamentos territoriais específicos, lógicas que regulam o acesso desigual aos espaços e que buscam responder às demandas de grupos dominantes. Nesse sentido, podemos pensar que a “cidade” é uma linguagem que visa impor os valores e lógicas de uns sobre os outros. Mas se a cidade é uma linguagem, os grupos subalternizados, principalmente os mais jovens, também desejam imprimir nela as marcas das suas vozes e expressões sensíveis.

E é justamente aí que práticas como grafitti, pichação, videoativismo, entre outras, se colocam, já que essas práticas são capazes de subverter as regras de visibilidade e invisibilidade engendradas pela arquitetura opressiva expressa, por exemplo, no que Teresa Caldeira chamou de “enclaves fortificados” e cujo símbolo máximo é o muro. Forçando a presença no shopping, pichando muros, produzindo e exibindo vídeos, mapas etc., portanto, esses sujeitos tentam desenvolver instrumentos que sejam capazes de ampliar a força simbólica de suas presenças, viabilizando, assim, a negação da subalternidade que perspectivas tutelares e adultocêntricas normalmente tentam lhes impor.

A emergência de “colocar o corpo na rua”

Se automatizamos os sentidos hegemônicos dessas classificações, portanto, silenciamos mais ainda os jovens, ao invés de nos esforçar para compreender o que eles, de fato, tentam nos dizer através de suas práticas, mesmo as mais provocativas e insurgentes. Para fazer essa escuta é preciso colocar o corpo na rua, como várias etnografias urbanas mostram. Alexandre Barbosa Pereira, por exemplo, no estudo que faz sobre a prática da pichação (ou pixação, com x, nos termos nativos) em São Paulo, mostra como a prática é convertida por seus adeptos – quase sempre jovens, negros e moradores de áreas periféricas – num dispositivo de reconhecimento, sociabilidade e memória, que se desdobra numa forma de se comunicar com uma cidade que os agride.

Essa abordagem nos permite entender com uma complexidade e uma abrangência muito maior todo um campo de conflitos que o simples emprego de noções normativas e acusatórias como “vandalismo” nos impedem de enxergar. E a eficácia dessa abordagem é absolutamente central, por exemplo, para o desenvolvimento de políticas públicas ou teorias urbanas que sejam realmente democráticas e justas, sobretudo, com a parcela menos privilegiada da juventude brasileira.

IHU On-Line – Como imagina que será a vida nas cidades, a mobilidade e as sociabilidades no pós-pandemia?

Guilhermo Aderaldo – Essa é uma pergunta difícil de responder e, como antropólogo, considero que as boas perguntas são justamente essas, que não permitem respostas automáticas, porque configuram verdadeiras agendas de pesquisa. Espero que volte a haver, num futuro próximo, respeito às comunidades acadêmicas e investimento à pesquisa e à educação para que possamos seguir tentando responder a esse tipo de indagação, com base em critérios técnicos e ferramentas analíticas atuais e confiáveis. Mas para isso, é preciso tratarmos bem também os nossos e as nossas “Jovens” pesquisadores e pesquisadoras.

Fonte: IHU On-Line
Texto: João Vitor Santos
Data original da publicação: 02/10/2020

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