Países ricos crescem ao menor ritmo em três anos pelos riscos globais

Países ricos crescem ao menor ritmo em três anos pelos riscos globais
Guindastes de carga no porto de Hamburgo, Alemanha. Fotografia: Fabian Bimmer/Reuters

A economia mundial se detém. O FMI diminuiu em julho sua previsão de crescimento global para 3,2%. As tensões geopolíticas que assolam o planeta – principalmente, as comerciais – explicam essa parada que se alimenta com os países ricos. A OCDE anunciou na segunda-feira que o clube das 36 economias mais desenvolvidas avançou só 1,6% no segundo trimestre do ano em relação ao mesmo período de 2018. É a mais baixa porcentagem em três anos. Os países da OCDE têm febre, mas ela é especialmente alta na UE. Os piores dados vieram do Reino Unido e Alemanha, com grandes retrocessos do PIB trimestral.

Apesar de não significar uma grande surpresa – a maioria dos países já havia publicado seus dados de crescimento do segundo trimestre –, a estatística da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) serve para confirmar que os riscos geopolíticos sobre os quais especialistas e políticos alertam há mais de um ano se transformou em realidade. Isso ocorre porque os 36 países que formam o clube da OCDE avançaram entre abril e junho 1,6% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. É preciso voltar ao terceiro trimestre de 2016 para encontrar uma porcentagem tão baixa.

A Europa traz números ainda piores. A UE só conseguiu crescer no trimestre 1,3% interanual, enquanto a zona do euro ofereceu um magro 1,1%. Nos dois casos, essas porcentagens são as piores desde o final de 2013, quando o continente ainda sofria as consequências de sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial.

Os dados de um trimestre para o outro também não servem para trazer otimismo. Todos os grandes países registraram um crescimento inferior ao da primeira parte do ano. Assim, a OCDE passou de 0,6% a 0,5%, a porcentagem mais baixa desde o começo do ano passado. Os Estados Unidos, por sua vez, reduziram seu ritmo de 0,8% a 0,5%; e o Japão, de 0,7% a 0,4%.

Mas se destaca principalmente o retrocesso das duas grandes economias europeias: o Reino Unido – cujo PIB passou de crescer 0,5% no primeiro trimestre a cair 0,2% no segundo – e a Alemanha – de um aumento de 0,4% a uma queda de 0,1% –. Assim, a primeira e a segunda economia europeia estão a um passo da recessão, pelo menos técnica, ou seja, que o PIB caia dois trimestres consecutivos. O Instituto de Pesquisa Econômica de Munique (Ifo) apresentou na segunda-feira seu índice de confiança dos empresários alemães, que em agosto caiu a seu nível mais baixo desde novembro de 2012. “As empresas voltaram a estar muito menos satisfeitas com sua situação comercial. O pessimismo sobre os próximos meses também aumentou. Há cada vez mais indícios de uma recessão na Alemanha”, disse Clemens Fuest, presidente do Ifo. O Bundesbank também alertou sobre o crescente risco de recessão na grande potência europeia.

A quarta economia do euro não está muito melhor. Além de uma dívida pública de mais de 130% do PIB, a Itália leva uma estagnação preocupante: nos últimos cinco trimestres, só conseguiu avançar 0,1% em um, em outros dois ficou parada e em outros dois retrocedeu 0,1%.

Os três países mais afetados pelos novos ventos protecionistas são os que mais vivem de suas relações com o exterior. “Devido a sua dependência do setor exportador, a economia alemã se viu muito afetada pelo conflito comercial. Os problemas da Alemanha são o primeiro sinal para o restante da zona do euro, na qual o Reino Unido e a Itália também não estão longe de uma recessão. “No caso de a Alemanha cair na recessão, é muito provável que o restante da união monetária passe por um processo semelhante”, afirmou na semana passada Isabel Schnabel, professora de Economia Financeira na Universidade de Bonn e membro do comitê de sábios que assessora o Governo alemão.

“Complexo, turbulento”

Há tempos que a OCDE não apresentava dados tão decepcionantes. O medo a um outono repleto de problemas foi ouvido na semana passada em Jackson Hole (Wyoming, EUA), onde a nata das finanças internacionais se reuniu. Apesar de dizer que a economia norte-americana continua estando em relativa boa forma, o presidente da Reserva Federal (banco central), Jerome Powell, admitiu na sexta-feira que vê cada vez mais nuvens de tempestade. De Jackson Hole, enumerou a lista de problemas que essas semanas engordaram: anúncio de novas taxas alfandegárias; novas evidências de uma crise global, principalmente na Alemanha e China; riscos geopolíticos como a possibilidade de um Brexit sem acordo, as tensões em Hong Kong e a crise política na Itália; movimentos bruscos nos mercados, com volatilidade nas Bolsas e um mercado de dívida que emitem sinais que lembram crises anteriores… Em conjunto, Powell descreveu a fotografia do momento como “complexa, turbulenta”.

Fonte: El País Brasil
Texto: Luis Doncel
Data original da publicação: 27/08/2019

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