“Os trabalhadores nas minas vivem situação análoga à escravidão”

“Nos últimos 14 anos, em que se man­tém no poder a mesma direção, os bené­ficos e direitos anteriores foram fragmen­tados. Muitos direitos foram vendidos”. Essa é a visão de Anízio Teixeira, que ar­ticula a primeira oposição sindical nos últimos 20 anos no Sindicato Metaba­se Carajás, no Pará, maior sindicato mi­neiro do país. Segundo ele, muitos acor­dos foram lesivos aos trabalhadores, uma afronta a CLT e a dignidade humana.

Nesta entrevista ao Brasil de Fato, Anízio Teixeira fala sobre os graves pro­blemas enfrentados pelos trabalhadores na região e sobre os desafios enfrentados pelos operários que se atreveram a fa­zer oposição ao sindicato. “Vivemos uma ditadura no sindicato. Nos últimos 10 anos, quem se atreveu a organizar qual­quer movimento de oposição foi demiti­do sumariamente”, afirma. Segundo ele, a expressão “oposição sindical” é tida co­mo uma afronta às políticas da Vale.

O Metabase Carajás é o maior sindi­cato mineiro do país. Com aproximada­mente 11.500 operários em sua base, dos quais aproximadamente 4 mil filiados, o Metabase vive um momento decisivo de sua história. Segundo Anízio Teixeira, ou o sindicato mantém-se sob os tacões de um pelego implacável que denun­cia e persegue trabalhadores, ou aposta na mudança do que alguns chamam dos ventos “da Primavera de Carajás” que se movimentam de dentro para fora das mi­nas, representada pela Chapa 2.

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Brasil de Fato – Qual é a situação dos trabalhadores nas minas na Região de Carajás hoje?

Anízio Teixeira – Nos últimos dez anos, temos vivido uma condição de de­cadência. Os ganhos reais não são “reais” e a cada dia os direitos básicos dos tra­balhadores estão sendo reduzidos, co­mo por exemplo as jornadas de trabalho de 44 horas semanais. No caso do com­plexo Carajás, as jornadas de trabalho se transformam em média de 12 a 14 horas dia. Um trabalhador sai para o trabalho às 3h30min da manhã e só retorna às 18 horas para o seu lar, quando realmente encerra sua jornada. O ganho com horas intineres/dia não passa de uma hora, em média, como compensação. Logo, é uma situação análoga à escravidão de acordo com entendimento da própria Organiza­ção Internacional do Trabalho (OIT).

Qual tem sido o papel do sindicato Metabase na região de Carajás em relação a esta situação?

A história de nosso sindicato tem 27 anos, de muitas lutas e conquistas. Mas nos últimos 14 anos em que se mantém no poder a mesma direção, os benéficos e direitos anteriores foram fragmentados. Muitos direitos foram vendidos. Acor­dos que foram lesivos aos trabalhadores, uma afronta à CLT e à dignidade huma­na. Exemplo disso são as horas intine­res que antes existia como valores maio­res, que foram reduzidas e retomadas em 2008 após uma Ação Civil Pública mo­vida pelo Ministério Público do Traba­lho, que só começou a ser paga em 2010. Pra ter uma ideia, o direito dos trabalha­dores nesta ação garantia pagamento de 96 meses retroativos das horas intneires, e o sindicato negociou para limitar-se a 42 meses. Um perca irreversível e vergo­nhosa para os trabalhadores.

O Brasil vive um ciclo de crescimento e expansão de exploração mineral que tem trazido grandes impactos para a Amazônia, o que isso tem a ver com a luta sindical?

Antes de implantar qualquer proje­to, seria de bom senso que as empresas minerárias chamassem as entidades de classes e as organizações da sociedade ci­vil para a elaboração de um planejamen­to que implicasse na preparação e capa­citação da mão de obra da região, pois se é verdade que pode haver impactos posi­tivos na economia é preciso medir esses impactos na sociedade em seu entorno, no meio ambiente, que no geral são ne­gativos. Então o sindicato deve estar pre­ocupado com a saúde, lazer, segurança, habitação, transporte e demais direitos sociais que dizem respeito à dignidade humana. Porque o trabalhador não mora nas minas, mora na comunidade.

Como está atualmente o processo eleitoral para a direção do Metabase?

Depois de a Comissão Eleitoral (indi­cada pela atual direção) ter rejeitada a chapa de oposição, entramos na Justi­ça, que, através de uma Ação Cautelar, garantiu o direito da Chapa 2 concorrer às eleições. Desta feita, a atual direção marcaria a data das novas eleições, o que até o presente momento não aconteceu. Diante dessa situação, a categoria, ansio­sa para participar do processo, tem pro­posto assembleias para a deliberar sobre a data das eleições, o que deve acontecer nos próximos dias.

Por que é tão difícil construír um movimento de oposição no Metabase?

Vivemos uma ditadura no sindicato. Nos últimos 10 anos, quem se atreveu a organizar qualquer movimento de opo­sição foi demitido sumariamente. A ex­pressão “oposição sindical” é tida como uma afronta às políticas da Vale. Foi o que tentaram fazer comigo e com outros companheiros da Chapa 2. Alguns foram coagidos a inclusive pedir a retirada de seus nomes da chapa.

Considerando a grande influência que a Vale tem sobre os sindicatos, é possível uma chapa feita pelos trabalhadores ganhar uma eleição como essa?

Acreditamos que sim. Porque os tra­balhadores estão dispostos a participar como fiscais do processo. 80% da cate­goria nunca votou para eleger uma dire­toria de seu sindicato. A categoria sabe­rá definir seu lado. A hora é agora. A ca­tegoria quer mudança, quer renovação. Então é Chapa 2.

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Fonte: Brasil de Fato
Entrevistadores: Jorge Neri e Gleerlei Andrade
Data original da publicação: 05/11/2014

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