Os países com maior diferença salarial entre imigrantes e locais

As trabalhadoras imigrantes enfrentam o que a OIT chama de uma penalidade dupla no salário: pagam o preço de ser mulher e de ser imigrante. Fotografia: Getty Images

Um imigrante em um país de alta renda tende a receber um salário menor que um trabalhador local — e essa diferença é ainda mais alarmante se a imigrante for uma mulher.

Os ganhos de um imigrante são, em média, 12,6% menores que os de um local, segundo relatório divulgado na segunda-feira (14/12) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT). Uma parte dessa diferença se deve a fatores objetivos, como escolaridade e experiência, mas o estudo indica a discriminação é “provavelmente uma das principais razões para uma disparidade tão grande”.

A diferença salarial de imigrantes e locais chega a superar 40% no Chipre e fica em torno de 30% em diversos outros países da Europa, como Portugal e Espanha.

Veja, a seguir, os 20 países com as maiores disparidades.

A OIT analisou 49 países e cerca de um quarto dos empregados assalariados em todo o mundo. Nesses países, segundo os responsáveis pelo estudo, estão quase metade de todos os migrantes internacionais e aproximadamente um terço dos trabalhadores migrantes em todo o mundo. O Brasil não está entre eles.

Em relação a estimativas anteriores, a diferença salarial aumentou em muitos países de renda alta, segundo a OIT. Entre os 20 países com maior disparidade, essa diferença cresceu em mais da metade deles em comparação com estimativas anteriores.

Mais difícil para as mulheres

As trabalhadoras imigrantes enfrentam o que a OIT chama de uma penalidade dupla no salário: pagam o preço de ser mulher e de ser imigrante.

A disparidade salarial entre homens locais e mulheres imigrantes em países de alta renda é de cerca de 21% por hora. Isso é maior do que a disparidade salarial entre homens e mulheres desses países, de cerca de 16%.

Parte dessa explicação está no fato de que as trabalhadoras imigrantes são mais de 70% do total de trabalhadores domésticos migrantes em todo o mundo.

A situação também é mais difícil para quem trabalha na área de cuidados (educação, saúde e serviço social), em que a maioria são mulheres.

O papel da discriminação

Os trabalhadores que migram para países de renda alta são mais propensos a ter atividades de baixa qualificação e baixa remuneração, que não correspondem aos seus níveis de educação e habilidades, segundo a OIT.

Mesmo imigrantes com educação superior têm menos probabilidade de conseguir empregos em categorias ocupacionais mais altas do que os trabalhadores locais. Isso ocorre, em parte, porque migrantes “provavelmente serão afetados pela incompatibilidade de competências e terão dificuldades em transferir suas competências e experiência entre os países”.

No entanto, mesmo com níveis semelhantes de educação, imigrantes em países de alta renda tendem a ganhar menos que seus pares na mesma categoria ocupacional.

E a OIT destaca que “uma parte significativa da disparidade salarial dos migrantes permanece inexplicada, mesmo quando as características dos trabalhadores, como educação, experiência, idade são levadas em consideração”.

Segundo o relatório, cerca de 10 pontos percentuais da disparidade média de 12,6% são “inexplicáveis ​​pelas características do mercado de trabalho dos trabalhadores migrantes e nacionais”. Isso aponta, segundo a OIT, para discriminação contra os imigrantes no quesito de remuneração.

A chefe do Departamento de Migração Laboral da OIT, Michelle Leighton, destacou que parte da diferença salarial pode ser explicada por discriminação.

“O relatório examina que parte da diferença salarial pode ser explicada por fatores objetivos, como educação, habilidades, experiência, mas onde isso não é uma explicação o relatório conclui que as principais razões para as disparidades podem ser causadas pela discriminação”, diz ela.

“Portanto, lidar com a discriminação e os preconceitos que estão profundamente enraizados no local de trabalho e em nossa sociedade é mais importante do que nunca.”

Combater essa disparidade, segundo Leighton, é importante para reduzir a desigualdade entre homens e mulheres, diferença de renda dentro das famílias e para combater a pobreza de forma geral. Isso exige, segundo ela, uma série de políticas, que incluem acordos coletivos e extensão de políticas sociais para trabalhadores informais.

Outra conclusão do relatório é que, em alguns países, mais de 60% dos trabalhadores imigrantes têm atividades informais, enquanto o percentual entre os locais é de aproximadamente 50%. Além disso, o emprego informal é maior entre as mulheres migrantes do que entre os homens.

Situação inversa em países de renda mais baixa

A situação nos países de baixa e média renda é, em geral, a inversa: os imigrantes tendem a ganhar cerca de 17% a mais do que os trabalhadores locais, segundo o relatório.

Essa inversão foi vista, por exemplo, no México, Bolívia, Albânia, Tanzânia, Namíbia, Bulgária, Serra Leoa, Romênia e Madagascar.

Isso se deve, segundo a OIT, à proporção significativa de trabalhadores expatriados temporários e altamente qualificados, que tendem a aumentar o salário médio dos trabalhadores migrantes.

“A história nos países de renda média e baixa é um pouco diferente. Lá, os migrantes com educação superior conseguem seus empregos em categorias ocupacionais mais altas e tendem a ganhar mais do que os locais nesses empregos. No entanto, os trabalhadores migrantes em ocupações de baixa qualificação geralmente ganham significativamente menos do que os locais”, disse Leighton.

Impacto da covid

Em relação à covid, o relatório da OIT aponta na mesma direção que estudos anteriores: a pandemia teve um impacto econômico e de saúde maior sobre os trabalhadores migrantes do que sobre o restante da população ativa.

“No início da crise de covid-19, dezenas de milhões de trabalhadores migrantes foram forçados a voltar para casa após perderem seus empregos”, diz o relatório, apontando que, em geral, os empregos de imigrantes são menos propícios ao teletrabalho em comparação com os de locais.

Ao mesmo tempo, muitos são trabalhadores da linha de frente que estão mais expostos ao vírus.

“A crise – sobre a qual ainda não temos um quadro completo – pode ampliar as diferenças no mercado de trabalho entre trabalhadores migrantes e nacionais, o que pode, por sua vez, aprofundar ainda mais as disparidades salariais dos migrantes”, conclui a OIT.

Fonte: BBC News Brasil
Texto: Laís Alegretti
Data original da publicação: 14/12/2020

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