Os enigmas do capitalismo na era da tecnologia

Os enigmas do capitalismo na era da tecnologia
Imagem: Shutterstock

O capital monetário concentrado nas grandes instituições financeiras apoderou-se da gestão empresarial.

Luiz Gonzaga Belluzzo

Fonte: Carta Capital
Data original da publicação: 09/04/2019

What is Wrong with Capitalism?, indagam os editores do Project Syndicate, site onde desfilam figuras do andar de cima da opinião econômica. Entre os escalados para desvendar os enigmas do capitalismo “errado” estão, entre outros, Joseph Stiglitz, Mariana Mazzucato, Yanis Varoufakis e Raghuran Rajan.

Diante de turma tão ilustre e respeitável, sinto algum constrangimento em divergir, senão das respostas, muitas instigantes, mas, sim, da pergunta: O que está Errado com o Capitalismo?

Ao responder que não há nada errado, assumo um risco nada desprezível. Essa foi a sensação que me perseguiu durante e após a leitura do best seller The Myth of Capitalism, de Jonathan Tepper. O autor encara a morte da concorrência perfeita como o epitáfio do verdadeiro (sic) capitalismo.

Em minha modesta opinião, depois de libertado das disciplinas e amarras sociais que o domesticaram nos Trinta Anos Gloriosos do imediato Pós-Guerra, o velho capitalismo reconciliou-se com sua natureza inquieta e criativa. Tão inquieta e criativa que rapidamente transmutou a concorrência perfeita em concorrência monopolista.

Livre, leve e solto em seu peculiar dinamismo, amparado em suas engrenagens tecnológicas e financeiras, o Velho Cap promoveu e promove a aceleração do tempo e o encolhimento do espaço. Esses fenômenos, gêmeos, podem ser observados na globalização, na financeirização e nos processos de produção da indústria 4.0.

A nova fase da digitalização da manufatura é conduzida pelo aumento do volume de dados, a ampliação do poder computacional e conectividade, a emergência de capacidades analíticas aplicada aos negócios, novas formas de interação entre homem e máquina e melhorias na transferência de instruções digitais para o mundo físico, como a robótica avançada e as impressoras 3D.

É intenso o movimento de automação baseado na utilização de redes de “máquinas inteligentes”. Nanotecnologia, neurociência, biotecnologia, novas formas de energia e novos materiais formam o bloco de inovações com enorme potencial de revolucionar outra vez as bases técnicas do capitalismo. Todos os métodos que nascem dessa base técnica não podem senão confirmar sua razão interna: são métodos de produção destinados a acelerar a produtividade social do trabalho e intensificar a rivalidade empresarial na busca da ocupação dos mercados.

Os avanços da inteligência artificial, da internet das coisas e da nanotecnologia, das novidades do 5G, associaram-se ao deslocamento espacial da grande empresa e acentuaram as assimetrias entre países, classes sociais e empresas. A globalização financeira e a deslocalização produtiva são filhos diletos da estratégia competitiva da grande empresa comandada pela fúria inovadora e concentradora dos mercados financeiros, em prejuízo da capacidade de regulação dos Estados Nacionais. Os movimentos competitivos das empresas financeirizadas que impulsionam as cadeias globais de valor executam a abstração da vida, fragilizando os espaços jurídico-políticos nacionais onde se abrigam os mortais cidadãos.

Os bancos e os fundos são a cola do sistema ao fazer 95% de toda a movimentação financeira: transações cambiais, hedge, pagamentos, transações comerciais, investimentos.

É uma ilusão imaginar que relações entre a economia real e a economia monetário-financeira são de oposição e exterioridade. São relações contraditórias, mas não opostas, inerentes à dinâmica do capitalismo em seu movimento de expansão, transformação e reprodução.

Aí estão inscritas como cláusulas pétreas a concentração e a centralização do controle do capital monetário em instituições de grande porte, cada vez mais interdependentes, que submetem ao seu domínio a produção e a distribuição da renda e da riqueza.

As tendências da dinâmica capitalista reafirmam sua “natureza” como modalidade histórica cujo propósito é a acumulação de riqueza abstrata, monetária. No livro Darkness by Design, publicado recentemente, Walter Mattli desvenda as relações de poder nos mercados financeiros: “Elas são centrais para explicar o funcionamento dos mercados, quer no sentido da política como meio de determinar ganhadores e perdedores, quer na acepção mais geral dos mercados como instituições essencialmente políticas, nas quais as relações de poder são fundamentais”.

O capital monetário concentrado nas grandes instituições financeiras apoderou-se da gestão empresarial, impondo práticas destinadas a aumentar a participação dos ativos financeiros na composição do patrimônio, inflar o valor desses ativos e conferir maior poder aos acionistas. A lógica da valorização dos estoques de riqueza financeira passou a comandar o movimento das “economias reais”.

Luiz Gonzaga Belluzzo é economista, professor e consultor editorial da Carta Capital.

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