O trabalho de cabeça para baixo

Parte predominante do trabalho intelectual está com os dias contados. Boa parte do trabalho em ação foi substituído pelo trabalho incorporado nas máquinas.

José Carlos Peliano

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Fonte: Carta Maior
Data original da publicação: 05/04/2014

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A utilização do trabalho humano nas sociedades modernas apresenta características distintas em muitos aspectos ao que ocorria em outras épocas da civilização. O trabalho em si, seu dispêndio de energia ou a chamada força de trabalho, pouco se alterou. Continua orientado para o fazer manual ou intelectual em última instância.

Por certo que o fazer manual teve alterações de acordo com a tecnologia conhecida. Hoje, por exemplo, quem fabrica ferraduras para cavalos não são mais os ferreiros com suas bigornas, embora em pequenas localidades isoladas é até possível que ainda existam, mas máquinas ferramentas com comando numérico ou não monitoradas por trabalhadores.

Da mesma maneira o trabalho intelectual sofreu variações. Se antes, em outro exemplo, um escriba tomava seu tempo anotando textos com pontas de penas e usando tintas extraídas de plantas, nos dias de hoje o computador armazena as informações para reproduzi-las por comando microeletrônico às impressoras.

Entre a bigorna e a máquina ferramenta, a caneta a ponta de pena e a impressora, pode-se descrever uma série de afazeres intermediários que são praticados hoje em dia aqui e ali. O uso da tecnologia fica a cargo das condições prevalecentes da produção social e da forma em que os detentores da tecnologia na produção a empregam para utilização pelo trabalho humano.

Assim, fazeres e afazeres vão dando o contorno do desempenho do trabalho nas várias formas de produção da sociedade. O que mais chama a atenção na longa história desse desenrolar da prática do trabalho é que as sociedades cada vez mais vão prescindindo do trabalho humano.

O ser humano aprendeu nos tempos antigos a dominar as culturas de plantações e a domesticar os animais para sustento próprio e de sua família. Instrumentos rudimentares ajudavam-no como que multiplicando sua força de trabalho e os usos e habilidades de seus braços. Sua mente era usada pouco porque amestrada ao desempenho diário e costumeiro de suas tarefas.

Mais tarde ele é enxotado das áreas rurais pelas posses e domínios dos senhores de terra e vem para os burgos, as primeiras e incipientes cidades. De início, para se sustentar procura trabalhar aqui e ali aprendendo ofícios nos grêmios artesanais. De ofícios e artes.

A evolução e espraiamento dessas tarefas e atividades vão dar tempos depois nas fábricas nascentes. Onde artesãos e aprendizes deixam de trabalhar com seus instrumentos e saberes adquiridos e vão enfileirar as rotinas e espaços fabris de trabalho a mando e desígnio dos donos das fábricas. A maior produção fabril mina a resistência dos grêmios, associações e guildas.

Nas condições fabris, o trabalho passa a ser pago ao trabalhador de fábrica pelo seu dispêndio da energia de seu trabalho, de sua força de trabalho, orientada aos interesses das fábricas.

A estória do trabalhador, portanto, pode ser assim resumidamente entendida. Ele que era rural, camponês, virou trabalhador artesanal, mestre ou aprendiz de ofício, que virou trabalhador fabril no começo, depois operário. Perde então de início seu trato rural, mais tarde seu saber e ofício do artesanato e por fim entra na fábrica apenas com sua disposição e necessidade de trabalhar.

Se seu trabalho rural era no início dos tempos uma mescla autônoma de saberes manual e intelectual, passa mais tarde no artesanato a uma mescla aprimorada e refinada dos mesmos saberes, para chegar em fase posterior à fábrica intensa e predominantemente voltada à aplicação do saber manual, mas não mais do trabalhador, mas da fábrica. Esta lhe ensina como trabalhar. Ele apenas segue as ordens e instruções.

Com a indústria, o trabalho fabril se agiganta, produz muito mais e deixa de operar ferramentas simples ou complexas para se embrenhar num mundo de equipamentos, máquinas e dispositivos mecânicos, elétricos, hidráulicos, entre outros, de toda ordem.

Continua o trabalhador de forma progressiva a usar mais intensamente sua força de trabalho e sua energia para a produção de mercadorias. Objetos de todos os tipos de uso voltados para o mercado. Não mais o produto rural voltado para a família, nem o artesanal voltado para determinados e conhecidos compradores, mas para consumidores invisíveis ao trabalhador do chão industrial.

O trabalho intelectual vai sendo delegado cada vez mais para grupos específicos de trabalhadores. Reduzidos grupos. A maioria continua voltada para a execução das atividades e operações manuais. Só que noutra característica da ordem capitalista: produção com trabalho mais e mais intenso a cargo de menos e menos trabalhadores.

A diluição do trabalho nas indústrias pelos postos e ilhas de produção leva a que a maquinaria se torne a dona do pedaço. Os trabalhadores, de fato, deixam de realizar diretamente seus trabalhos porque passam a usar os pesados e complexos artefatos que agora realizam as operações necessárias e programadas para a produção. Monitoram e fazem a manutenção, não mais trabalham com as mãos. A cabeça serve apenas para seguir instruções e usar os manuais de operação.

Mas a sanha e a voracidade do capital em retirar o máximo da força produtiva do trabalhador não para por aí. Os computadores e demais dispositivos e aparelhos eletrônicos chegaram no ambiente industrial já faz tempo, bem como os métodos e técnicas de eficiência, eficácia, qualidade e zero retrabalho. Esta parafernália eletroeletrônica armazena informações, a maioria delas antes saber exclusivo do trabalhador.

A história do trabalhador através dos tempos é uma dura história de perdas. Não só de seu dispêndio de energia de trabalho, cada vez mais trocada pela maquinaria (e a robótica), mas também na atualidade pela perda do uso de sua mente. Atividades e ações intelectuais também estão sendo gradativamente retiradas do ambiente de trabalho e dispensadas do uso pelo trabalhador em benefício das operações de complexos programas informacionais e computacionais.

Uma das últimas novidades conhecidas de tantas outras já em operação nos escritórios e chãos de indústria é uma plataforma de inteligência artificial. Ela é formada por vários programas cujo objetivo final é substituir trabalhadores na preparação, redação e distribuição de informes, análises e avaliações para a decisão das direções intermediárias e superiores das empresas.

A plataforma dispõe dos dados disponíveis e cria uma estrutura de narrativa padrão para satisfazer as expectativas das audiências específicas, ou no interior da empresa, ou no círculo externo. Usa de algoritmos complexos de inteligência artificial para extrair e organizar casos, fatos e informações especiais para transforma-los em relatos compreensíveis. Os dados são organizados pela própria plataforma artificial para responder questões importantes, fornecer sugestões de ação e proporcionar soluções precisas.

E aí minha gente, que tal a novidade? Ótima para o capital, péssima para o trabalho. Parte predominante do trabalho intelectual está com os dias contados. A produção capitalista levada a termo com a menor parcela possível do trabalho em atividade. Boa parte do trabalho em ação foi substituído pelo trabalho incorporado nas máquinas e nos sistemas. É o trabalho revirado de cabeça para baixo.

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José Carlos Peliano é economista.

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