O que não deu certo e o valor simbólico do trabalho

o jovem viu-se compelido a aceitar uma colocação que de início lhe foi repulsiva, degradante, ainda que com profundas raízes nas tradições de seu povo e dotada de significativo simbolismo: ajudar a partir. Fotografia: Reprodução/IMdB

Lorena Holzmann

Dois episódios recente ocorridos em duas escolas privadas no Rio Grande do Sul – uma em Porto Alegre, outra em Novo Hamburgo – expressam, de maneira inequívoca, como o trabalho é avaliado em nossa sociedade.

Provavelmente, instados a representarem “aquilo que não deu certo” (as informações veiculadas em redes não precisam a proposta apresentadas aos alunos como orientação para a atividade, logo, não tratamos da ação das escolas e sim das respostas dos alunos), a garotada expressou seu entendimento por meio da representação de ocupações que consideraram responder àquela tarefa. Apresentaram-se como frentistas, garçons, empregadas domésticas, garis. Categorias ocupacionais em que se inserem no mundo do trabalho, quase sempre, pessoas com baixa escolaridade, com poucas possibilidades de escolher em que trabalhar e como sobreviver, e com escassa empregabilidade, quando tantas habilidades especiais são demandadas por um mercado de trabalho em rápida e profunda transformação. São o andar de baixo da hierarquia social de nossa realidade tão desigual.

Não eram alusões à vivência  dos jovens estudantes, filhos de  famílias em condições de pagar escola privada para seus filhos, supostamente com trajetórias profissionais  em ocupações  de prestígio e bem remuneradas, expressão do que “deu certo”. O que não se enquadra nessas condições é desprezível, desconsiderado, coisa que “não deu certo”.

O evento aludido não é uma expressão original desses jovens, desvinculada do meio social em que vivem. É a manifestação da consciência coletiva, das representações que a sociedade brasileira faz de si mesma, no caso, em relação ao trabalho. Num país com profundas raízes no escravismo, ainda persistente, embora transmutado em outras roupagens, e com uma forte tradição bacharelesca, quaisquer atividades próximas do esforço manual são privadas de prestígio e até de respeitabilidade e consideração. É a aversão nacional a trabalho que possa ter alguma identificação, ainda que distante, com trabalho de escravo, hoje traduzido no trabalho de pessoas de “baixa renda”.

A representação hierarquizada e diferentemente  valorizada do trabalho não é prerrogativa da sociedade brasileira. Ela pode ser considerada universal, mas as manifestações e os critérios que a presidem são profundamente distintos, arraigados nas tradições de cada povo e legitimados ao longo das gerações.

Pôster japonês do filme "A partida" (2008). Fotografia: Reprodução/IMdB
Pôster japonês do filme “A partida” (2008). Fotografia: Reprodução/IMdB

A Partida (Yojiro Takita, Japão, 2008) aborda este tema, no Japão. Um jovem músico de orquestra em Tóquio é demitido e retorna a sua aldeia natal com a esposa.  Encontra em um jornal um anúncio de emprego, no qual é informado que as tarefas a serem desempenhadas devem ajudar as pessoas a partirem. O jovem supõe tratar-se de uma agência de turismo, apresenta-se na pequena agência e é aceito para preencher a vaga oferecida, mas sem saber exatamente quais tarefas deve desempenhar. Descobre-as no primeiro dia de trabalho, quando acompanha o patrão em sua jornada:  é a preparação de cadáveres para os rituais fúnebres tradicionais na sociedade japonesa. De início repulsivas, o jovem vai desenvolvendo uma nova compreensão do significado de suas tarefas, a partir do compartilhamento com seu patrão de todo o cerimonial nelas contidos: respeito pelas pessoas mortas, por suas famílias e a devida discrição a sua intimidade, a reverência às tradições e à cultura japonesas. Para o jovem, um decisivo aprendizado que ele faz em silêncio.

Quando sua jovem esposa descobre qual era seu trabalho, horrorizada, impõe uma opção ao marido: manter-se naquele trabalho repulsivo ou ficar com ela, grávida do primeiro filho. Ele opta pelo trabalho, cujo significado profundo ele já compreendera. Ela volta para a casa dos pais. Um amigo de infância, com quem o jovem cruza na rua, repele-o e pergunta, com certa indignação: `Por que não ter um trabalho normal?”

O tema central deste filme é a trajetória do jovem músico, sua mulher, os amigos, tendo como pano de fundo o confronto entre tradições arraigadas na cultura japonesa e novas demandas, práticas e urgências da sociedade capitalista que a modela contemporaneamente. Uma trajetória descendente em termos de prestígio e consideração social.

Quando a mãe do amigo do jovem músico morre e ele assiste o ritual da preparação do corpo da mãe para as cerimônias fúnebres, tomando conhecimento da reverência e do respeito que o preside, o jovem compreende o trabalho de seu companheiro de infância e revisa suas concepções a respeito do trabalho dele. Também a esposa reconsidera a concepção que tinha do trabalho do marido e retorna à casa do casal.

o jovem viu-se compelido a aceitar uma colocação que de início lhe foi repulsiva, degradante, ainda que com profundas raízes nas tradições de seu povo e dotada de significativo simbolismo: ajudar a partir. Fotografia: Reprodução/IMdB
O jovem viu-se compelido a aceitar uma colocação que de início lhe foi repulsiva, degradante, ainda que com profundas raízes nas tradições de seu povo e dotada de significativo simbolismo: ajudar a partir. Fotografia: Reprodução/IMdB

Antes dessa compreensão, o trabalho do jovem músico poderia ser enquadrado na categoria “aquilo que não deu certo”. Diante das dificuldades de continuar sendo um músico de orquestra, tendo que responder às necessidades de manutenção da família e, com dificuldades de encontrar outra colocação no mercado de trabalho na pequena cidade natal, o jovem viu-se compelido a aceitar uma colocação que de início lhe foi repulsiva, degradante, ainda que com profundas raízes nas tradições de seu povo e dotada de significativo simbolismo: ajudar a partir. Para ele,  expressão de seu fracasso pessoal. Todos pareciam compartilhar o mesmo entendimento. Por que não ter um trabalho normal?

Em qualquer sociedade, trabalho normal pode ser considerado os que são revestidos de consideração e respeitabilidade, independente do valor útil que possam representar para o conjunto da população. “Valor útil” deve ser associado aos efeitos do trabalho para o bem estar e desenvolvimento material e cultural da coletividade. Essas características não regem nem presidem a hierarquização valorativa das ocupações nas sociedades contemporâneas. Aqui, a organização da produção de bens e serviços visa essencialmente a reprodução do capital, a cuja lógica se subordina. Atividades que geram riqueza, real ou fictícia, e que envolvem grandes interesses pecuniários, estão no topo da hierarquia, embora seus efeitos úteis possam ser insignificantes. A essas atividades estão associadas pessoas que deram certo, celebridades que frequentam páginas de jornais e capas de revistas de futilidades, por se destacarem nos esportes, no entretenimento, na moda, nas finanças, em torno dos quais  se articulam poderosos interesses econômicos. Atividades essenciais à manutenção da regularidade social podem ser desconsideradas diferentemente, em cada contexto específico, configurando, de modo também específico, coisas que não deram certo. Nelas se abrigam os que não tiveram competência para vencer na vida, por falta de atributos indispensáveis de inteligência, senso de oportunidade, capacidade de empreender, coragem para ousar no mundo competitivo em que vivemos. Tudo por suas próprias e exclusivas incompetências.

Esse é o ideário atualmente hegemônico, das concepções neoliberais sobre o indivíduo e a sociedade, de modo tão enraizado que estão sendo naturalizados. “É assim por que não pode ser diferente, e não pode ser diferente por que corresponde à ordem natural das coisas”, sem nenhuma reflexão crítica ou questionamento de sua validade.

A representação dos jovens estudantes gaúchos pode ser indicativo dessa naturalização.

Nenhum respeito ou consideração pelo grande conjunto de trabalhos e tarefas indispensáveis à coletividade. Os estudantes foram levadas a considerar os efeitos do não-trabalho de garis, frentistas, garçons, domésticas, e também de professores, enfermeiros, operários das indústrias, mineiros, pedreiros e tantos outros que, com seu trabalho, tornam possível e viável a vida de cada um e de todos? Se a grande repercussão de sua “brincadeira”  tiver tido o efeito de levá-los a refletir sobre o significado e a relevância de cada tarefa, por menor ou mais insignificante que possa parecer, para a  vida em comum, a “gafe” da garotada terá tido resultado positivo, e as escolas instadas a rever  sua orientação pedagógica e seu comprometimento com a realidade em que estão inseridas.

Aí, talvez, os jovens possam descobrir o significado de coisas que aparentemente “não deram certo” (mas que são fundamentais para a sociedade como um todo), assim como o jovem músico se transformou em alguém que passou a ajudar as pessoas a partirem.

Informações

Título: A partida
Ano: 2008
Duração: 130 min.
País: Japão
Diretor: Yôjirô Takita
Roteirista: Kundô Koyama
Elenco: Masahiro Motoki, Ryôko Hirosue, Tsutomu Yamazaki

Mais informaçõesIMDbWikipédia

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