O que a quarta greve geral nos deixou

O que a quarta greve geral nos deixou
Fotografia: David Fernández/EFE

Enquanto cada vez é maior o número de vítimas das políticas de Cambiemos, o Governo está com o olhar ao norte e insiste em se manter dentro de uma bolha completamente alheia à realidade.

Álvaro Ruiz

Fonte: El Destape
Tradução: DMT
Data original da publicação: 29/09/2018

A inconcebível rapidez com que se analisam as repercussões sociais da antipopular política econômica adotada, junto ao negacionismo e frivolidade que distingue àqueles que ostentam as principais funções de governo, somente pode provocar um agravamento da crise na qual a aliança Cambiemos mergulhou a Argentina.

Milhares nas ruas

A expressão é literal em mais de um sentido, sem que em nenhum caso proporcione tranquilidade nem anuncie uma saída da crise isenta de graves conflitos.

Milhares são os que perderam seu emprego ao longo do ano e outros tantos são os que se prevê que perderão durante o que resta de 2018, tanto no setor público – segundo o que foi anunciado como fazendo parte do ajuste -, quanto no setor privado, o que coincide com as diferentes sondagens e consultas entre os empresários.

Milhares são os que caíram na pobreza e mendicância, cujas necessidades são tão básicas como para estabelecer uma emergência alimentária e sanitária, resultando em reclamações cotidianas expressas em mobilizações por todo o país.

Milhares os que já não conseguem realizar os pagamentos dos serviços públicos, a ponto de ter que começar a organizar piquetes nos bairros para impedir que as empresas prestadoras de serviços cortem o fornecimento de energia elétrica, gás e água.

Milhares os que protestam porque não conseguem ter acesso à habitação, os inquilinos impedidos de pagar os aumentos dos aluguéis e os iludidos com créditos hipotecários que, atualizados com índices que não possuem proporção alguma com seus rendimentos, alertam que perderão suas propriedades para as mãos dos bancos.

Milhares os aposentados e beneficiários da previdência social – inclusos os incapacitados – que se manifestam frente a ostensiva injustiça que representa o corte de seus magros recursos, resultado da Reforma da Previdência de 2017, a eliminação ou redução de prestações, a fraude emergente da Ley de Reparación Histórica e a liquefação do Fundo de Garantia de Sustentabilidade através de desvios ilegais.

Milhares, muitos milhares, centenas de milhares, são os que marcharam na semana passada a pedido de organizações sociais e sindicais, evidenciando o fracasso das medidas econômicas e a decisão firme de promover uma mudança no rumo que o Governo trata de impôr, ciente de que irá gerar um aprofundamento das situações já citadas.

Os ditos e os feitos

Com os olhos ao norte, entre bailes e outras atitudes servis verdadeiramente obscenas, os responsáveis do Governo nacional insistem em se manter dentro de uma redoma completamente alheia à realidade. Seguem sustentando que formam uma grande equipe, porém deixam que se continue enfraquecendo por sua própria incompetência e por se mostrarem solícitos com seus verdadeiros mandantes que comandam indissimuladamente os principais domínios estatais de decisão.

Não demonstram nenhum pudor por essas submissões, muito menos pelas mentiras com as quais conquistaram boa parte de seu eleitorado e que hoje estão em evidência com seus próprios ditos, estes que não resistem a arquivos em que qualquer um pode comprovar nos numerosos vídeos de campanha contidos nas redes sociais.

As previsões contidas na Lei Orçamentária não provêm de tempestades, mas nos atormentam, tanto pelo abandono explícito de áreas sensíveis que importam uma inexorável degradação das condições de vida de grande parte da população, quanto pela descontração com que se pretende sustentar indicadores econômicos (taxas de inflação, cotação do dólar, crescimento do PIB, reativação da economia, criação de emprego, redução da pobreza) que com somente ao olhar para Duvojne (ministro do tesouro do governo Macri) ninguém pode acreditar.

Sindicatos e organizações sociais

São todos trabalhadores – com ou sem emprego – e suas famílias os que encontram representação em ambos tipos de agrupamentos, uma questão que não estava clara nos anos 1990 e que levou a um distanciamento que reduziu a capacidade de resposta popular orgânica frente à supressão dos direitos fundamentais.

Ao mesmo tempo, se somou mais um fator à debilitação do movimento operário pela razão da necessária centralidade sindical na construção política de uma hegemonia dos trabalhadores, visando um processo de transformação virtuosa e inclusiva.

É certo que nem todos os setores sindicais sofreram de miopia similar, assim como também nem todos os dirigentes sindicais – muitos que hoje seguem firmes em seus cargos – tinham verdadeiro interesse em somar aos desocupados entre seus representados, nem em levantar dificuldades para os governantes, canalizando suas reclamações, nesta outra etapa de cru neoliberalismo.

Entretanto, além das atitudes – fruto do erro ou do horror – então observadas, não é possível apresentar, linearmente, discussões semelhantes entre aqueles e estes tempos. A experiência de luta dos mais vulneráveis, o nível de consciência adquirido da própria força, o empoderamento e interlocução obtidos entre 2003 e 2015, demonstram importantes diferenças que impedem renunciar às variadas formas em que se expressam os movimentos sociais e a transversalidade que refletem.

Ainda que não se confundam nem deixem de dar conta de representações autônomas, umas e outras se justapõem nas demandas centrais de direitos sociais básicos, coincidindo cada vez mais na implementação de ações conjuntas e na convicção de que as soluções são políticas, como também que sua concretização exige uma estratégia e um projeto comum que contemple sua participação com protagonismo.

Do sindical ao político

Nenhuma greve geral é sindical enquanto mera reivindicação setorial, pois suas motivações e propósitos superam grandemente os interesses dessa natureza.
Sempre é necessário uma reivindicação política, não somente por destinar-se a impulsionar ou enfrentar medidas do governo, como também pela demanda de um espaço específico no campo da Política que, sem dúvida, corresponde a trabalhadoras, trabalhadores e suas lideranças.

O notável o aumento do conflito social teve um impactante encaminhamento nos dias da greve. Na segunda-feira (24/09), com uma impressionante mobilização que reuniu na Plaza de Mayo – mas também em muitas outras cidades argentinas – uma ampla representação de setores sindicais e da economia popular. Na terça-feira (25/09), houve a paralisação total de atividades, às quais se somaram numerosas organizações de pequena e média empresa.

As declarações de funcionários tentando demonizar os organizadores, acompanhados pelos jornais que pretendiam forçar uma interpretação da eficácia da medida baseada em pressões que vulnerabilizavam a liberdade de trabalho, já não convencem mais ninguém.

Negar a razão de tanta e tão variada adesão à greve geral não muda uma realidade que hoje é evidente até para o mais desprevenido, tampouco apaga os focos de incêndio que se propagam e ameaçam um sobreaquecimento geral que não permitirá extingui-los. O Presidente, propenso a entregar peões, teve que sacrificar torres e bispos, mas segue sem entender o crítico que se mostra o jogo e que suas desajeitadas piruetas – que a ninguém diverte – o colocam cada vez mais fora do tabuleiro.

Outra vez houve greve devido a Macri. Nesta ocasião, enquanto dançava e procurava seduzir seus algozes, o que longe de indicar um sinal de potência demonstrou uma absoluta impotência para controlar um clamor popular inocultável e uma frivolidade comparável a de Maria Antonieta no alvorecer da Revolução Francesa.

Álvaro Ruiz é advogado trabalhista com experiência na assessoria de sindicatos.

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