O privilégio da servidão

Michael Löwy

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Fonte: Blog da Boitempo
Data original da publicação: 18/06/2018

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O conjunto da obra de Ricardo Antunes se distingue por uma rara qualidade: seu autor consegue combinar a pesquisa sociológica concreta, rigorosa e empiricamente fundamentada com um compromisso social intransigente, a saber, a tomada de partido pelos explorados e oprimidos. Isso vale também, obviamente, para seu novo livro ‘O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital‘ (Boitempo, 2018).

O conjunto de ensaios que o leitor tem agora à disposição é de uma extraordinária riqueza, da qual o título só abarca uma expressão parcial. Aqui, Antunes estuda não só o novo proletariado, dito “informal” ou “digital”, do setor de serviços – vítima de precariedade e reificação –, mas também a tendência geral de precarização e terceirização do trabalho no Brasil: a “devastação do trabalho”, promovida pelo capitalismo global, tanto na indústria como no agronegócio e nos serviços. Um processo com consequências dramáticas para os explorados – a “sociedade do adoecimento no trabalho” – e que se realiza, infelizmente, com a cumplicidade do “sindicalismo negocial”.

Como Antunes aponta, com razão, tais tendências já vêm se desenvolvendo há vários anos, sem que a política de conciliação de classes promovida pelas lideranças sindicais e pelos governos de recorte social-liberal mostre-se capaz de reverter a degradação das condições de vida e de trabalho dos “novos proletários”. Entretanto, a devastação do trabalho conhece um salto qualitativo, que Antunes define como uma verdadeira contrarrevolução social e política, levada a cabo pela Sagrada Aliança de banqueiros, latifundiários e políticos corruptos liderada por Michel Temer, no quadro de um verdadeiro Estado de exceção, no qual o espaço democrático se reduz dramaticamente.

A esperança de um novo rumo para a classe trabalhadora no Brasil reside no potencial de rebelião que revelaram os acontecimentos de junho de 2013 e nos germes de um sindicalismo de classe e de luta que se organizam na base. Só com a convergência dessas forças ainda fragmentárias e dispersas é que será possível, no futuro, a única saída autêntica para a crise capitalista: um novo modo de vida, isto é, o socialismo.

Cientista social marxista, Ricardo Antunes não esconde sua decidida opção socialista. Esse é o horizonte revolucionário que dá a essa brilhante pesquisa sociológica toda sua potência crítica e subversiva.

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Michael Löwy é sociólogo. Nascido no Brasil e formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de ‘Estrela da manhã: marxismo e surrealismo’ (2018) ‘Revolta e melancolia: o romantismo na contracorrente da modernidade’, ‘Walter Benjamin: aviso de incêndio’ (2005), ‘Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade’ (2009), ‘A teoria da revolução no jovem Marx’ (2012), ‘A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano’ (2014) e organizador de ‘Revoluções’ (2009) e ‘Capitalismo como religião’ (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo.

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