O empreendedor de si mesmo e a flexibilização no mundo do trabalho

Attila Magno e Silva Barbosa

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Fonte: Revista de Sociologia e PolíticaCuritiba, v. 19, n. 38, p. 121-140, fev. 2011.

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Resumo: A existência social dos indivíduos, para muitos de seus intérpretes, pela via de discursos religiosos, de discursos políticos ou até mesmo pela via de algumas correntes do pensamento sociológico, parece não ser possível sem a existência de metanarrativas que lhes confira sentido. Este artigo tem como objetivo fazer uma discussão teórica sobre a construção discursiva do empreendedor de si mesmo como o indivíduo apto a enfrentar as rápidas e drásticas mudanças ocorridas no mundo do trabalho com o advento da flexibilização produtiva. Advogamos em favor da hipótese de que essa construção discursiva não apresenta um tipo de indivíduo potencialmente acessível a todos, pois ele pressupõe a construção de si mesmo sem os suportes de um projeto comum de sociedade. Em outras palavras, estamos diante de um tipo de indivíduo desvinculado de pertenças coletivas e desprovido de qualquer tipo de proteção social fornecida pelo Estado e, por isso, inviável de ser pensado como padrão universal de comportamento em uma sociedade que busca a diminuição das desigualdades sociais.

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Sumário: I. Introdução | II. O problema da perda ou não da centralidade do trabalho | III. Insegurança social e ontológica em tempos de flexibilização produtiva | IV. A reflexividade no mundo do trabalho em tempos de globalização | V. Conclusões

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I. Introdução

A existência social dos indivíduos, para muitos de seus intérpretes, pela via de discursos religiosos, de discursos políticos ou até mesmo pela via de algumas correntes do pensamento sociológico, parece não ser possível sem a existência de metanarrativas que lhes confira sentido. No primeiro caso, o fundamento dá-se por intermédio de determinadas situações transcendentes ao mundo material, já nos dois outros casos por intermédio de determinadas condições estruturais nas quais os indivíduos estão inseridos. Algumas metanarrativas conseguem manter sua vitalidade mesmo quando claramente se mostram incapazes de explicar de modo consistente e coerente a heterogeneidade de fatores que configuram as realidades sociais no atual estágio da modernidade.

Isso ocorre devido ao fato de que, se por um lado os indivíduos têm sua autonomia ampliada em relação às suas filiações coletivas – dimensão constitutiva da modernidade –, por outro, ocorre um recrudescimento de um tipo de individualização, esta gerada pela perda de referências coletivas, a partir das quais se torna possível a construção de estáveis trajetórias de vida, profissional e/ou pessoal. Tal situação configurou-se como uma decorrência do colapso do compromisso fordista e da crise do Estado do Bem-Estar Social; desde então, deu-se ensejo àquilo que o sociólogo francês Robert Castel chama de processo de desfiliação.

Segundo Castel (2003), o processo de desfiliação corresponde ao tipo de exclusão social produzida pela crise do projeto da sociedade salarial. Em uma linha de raciocínio muito próxima a essa, Paugam (1999) propõe o termo desqualificação social para caracterizar esse movimento de expulsão gradativa de contingentes cada vez mais numerosos de indivíduos para fora do mercado de trabalho.

Como consequência, temos a configuração de novas imagens proletárias produzidas pelas transformações das relações salariais em tempos de produção flexível, imagens que contribuem sobremaneira para o enfraquecimento da capacidade de mobilização coletiva da classe trabalhadora devido à miríade de identidades sociais possíveis que o atual estágio da modernidade capitalista oportuniza.

Nos dias atuais, a heterogeneidade da classe trabalhadora assume contornos bem mais abissais do que assumiu no período fordista. A obviedade dessa situação manifesta-se na convivência do contrato de trabalho por tempo indeterminado e de diversas modalidades de contratos atípicos de trabalho, configurados pela lógica da flexibilização produtiva; isto é, todos aqueles contratos que não se inscrevem na tradicional condição de assalariamento fordista, como, por exemplo, os contratos de trabalho temporário, de tempo parcial, de terceirização (subcontratação) e de aprendizagem (estagiários). Além do trabalho informal, que nos países da periferia capitalista, como é o caso do Brasil, há muito se faz presente e só recentemente passou a ser um estorvo para os países do capitalismo avançado.

O fomento das estratégias de flexibilização no mundo do trabalho processa-se em estreita consonância com as estratégias políticas de inspiração neoliberal, que veem no encolhimento de algumas funções do Estado uma exigência para o bom funcionamento dos mercados. Estes são entendidos como esferas adequadas para garantir o vigor e a saúde socioeconômica em tempos de globalização. Para os defensores dessa lógica, como Friedrich Hayek, Milton Friedman e Peter Drucker, liberdade de mercado significa agir sem as amarras impostas por demandas sociais coletivas que possam impedir a livre expansão dos mercados. Não por acaso as empresas visarem o enfraquecimento de possíveis focos de resistência que possam emergir da configuração de um coletivo de trabalhadores coeso e cônscio diante das novas e sofisticadas formas de exploração do trabalho. Estratégias de individualização emergem atreladas à construção de um tipo de trabalhador polivalente que esteja sempre disposto a desenvolver as habilidades e obter as qualificações tidas como adequadas às mudanças de interesses do capital, principalmente, do capital financeiro.

Com isso em mente, pretendemos fazer uma discussão teórica a respeito da construção discursiva da imagem do empreendedor de si mesmo como indivíduo apto às rápidas mudanças que se processam no âmbito de um mundo do trabalho intensamente afetado pela lógica da flexibilização produtiva. Advogamos em favor da hipótese de que a noção de indivíduo veiculada nessa imagem não apresenta efetivamente uma figura paradigmática capaz de ser vislumbrada como dotada de capacidade efetiva de construir a si mesmo nos limites de um projeto comum de sociedade, porque a condição de precariedade, decorrente da fragilização do projeto da sociedade salarial, espraia-se por todos os cantos da vida em sociedade, enfraquecendo os vínculos sociais entre os indivíduos.

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Attila Magno e Silva Barbosa é Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

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