“O capitalismo é a ameaça número um para a democracia hoje”. Entrevista com a cineasta Astra Taylor

O filme documental de Taylor “What is democracy?” (“O que é democracia?”, em tradução livre) é uma meditação sobre a ideia de governar por muitos, não por poucos. De onde veio essa ideia, quão perto estamos de a perceber nos dias de hoje e quais são os principais obstáculos que encontramos quando tentamos construir uma sociedade livre e igualitária?

O filme de Taylor aborda essas questões complexas, entremeando observações de intelectuais conhecidos como Cornel West, Silvia Federici e Wendy Brown com as perspectivas das pessoas comuns, incluindo estudantes do ensino médio, ativistas, trabalhadores de cooperativas, ex-encarcerados e refugiados. O filme evita prescrições abertas, mas aponta para a solidariedade e a luta de classes como meio de construir a democracia no mundo real.

Assista ao trailer (em inglês):

Taylor tem um livro de acompanhamento chamado “A democracia pode não existir, mas vamos sentir sua falta quando ela for embora”, que será lançado em maio de 2019. Seu filme chega a alguns cinemas neste mês. Meagan Day, uma das escritoras da equipe de Jacobin, falou com Taylor sobre democracia e tirania, cinema e organização, e capitalismo e socialismo.

Meagan Day: Em uma das cenas de abertura do filme, a filósofa Eleni Perdikouri diz que a questão fundamental que guia a obra de Platão e Aristóteles é a felicidade, como viver uma vida boa. Ao responder a essa questão, eles postularam que uma boa vida requer uma boa cidade, uma cidade caracterizada pela justiça e pela unidade. “Para Platão”, diz Perdikouri, “os fatores básicos que põem em perigo a unidade da cidade são a riqueza e sua contrapartida, a pobreza.”

Vamos começar daqui. Até que ponto a desigualdade econômica é um tema do seu filme sobre democracia e por quê?

Astra Taylor: O capitalismo é a ameaça número um para a democracia hoje. Claro que é a-histórico dizer que o capitalismo era o problema quando Platão estava escrevendo, porque o capitalismo como conhecemos não existia, mas o filme está tentando chamar a atenção para o fato de que a economia sempre foi fundamental para a luta democrática e a corrupção dos ideais democráticos.

Eu queria levar o espectador a um horizonte de tempo diferente. Isso pareceu importante para mim, dado o estado de nossa mídia e o fato de que estamos presos nesse presente constante, onde tudo é tão oportuno. Parte do que o filme faz é dizer “agora vamos dar uma olhada mais atemporal nas coisas”. Vamos olhar para os problemas recorrentes. Vamos voltar 2.500 anos em vez de apenas vinte e cinco minutos.

Quando fazemos isso, vemos que ainda assim a economia era central. Aristóteles foi muito claro sobre isso – e Platão concordou – que a democracia é o governo feito pelos pobres. Essa definição simples é algo que esquecemos e, embora o filme não use essa frase explicitamente, ela faz parte do subtexto de todo o projeto.

MD: Eu costumo pensar na democracia como regra da maioria, o que eu acho que é sinônimo de governo feito pelos pobres enquanto os pobres existam, já que a grande maioria das pessoas não é rica. Mas Cornel West complica isso no filme, argumentando que a democracia requer o equilíbrio entre a vontade da maioria e os direitos das minorias.

AT: Eu tive que levantar essa questão no documentário, porque o filme é descaradamente sobre o poder das pessoas, mas eu não queria sugerir que se todos nós apenas tomássemos decisões diretamente por assembleia geral tudo seria perfeito, pois eu não acredito nisso. Fiz parte de um número suficiente de experimentos ativistas fracassados que tentaram equiparar a democracia a um modelo simples de regra majoritária, o que me faz acreditar que nossa definição de democracia tem que ser mais complicada.

Dito isso, a tirania minoritária é na verdade um problema muito grande para a democracia – e a democracia americana em particular. Mas neste caso estamos falando de uma minoria de pessoas muito ricas.

Olhando para trás, para a história americana, a maioria dos fundadores da nação temia a maioria formada por pessoas pobres. Quando eles falavam sobre a proteção dos direitos das minorias, eles estavam falando sobre a proteção dos direitos de um minúsculo subconjunto de homens brancos ricos.

Nós expandimos essa ideia e agora, quando falamos sobre direitos das minorias, estamos falando de algo muito diferente do que eles estavam falando. Ao considerar a relação da democracia com os direitos das minorias, devemos ter bem claro que nem todas as minorias são iguais.

Isso é o que é tão engraçado sobre o Sr. Starbucks, Howard Schultz. Quando ele se opõe a ser chamado de bilionário, diz que quer ser chamado de “pessoa de posses”, ele está falando na linguagem de grupos de identidade sitiados. Mas os ricos não são uma minoria democrática que precisa ser protegida do governo da maioria.

MD: Em uma cena do filme, Delaney Vandergrift, uma jovem negra que participou dos protestos da Black Lives Matter em Charlotte, descreve um homem branco ameaçando ela e seus colegas manifestantes com uma pistola.

É muito provável que esse homem não fosse membro da elite econômica. As pessoas que controlam o mundo com sua riqueza não ameaçam pessoalmente as pessoas com pistolas. Eles têm pouca razão ou ocasião para expressões espontâneas de violência como essa.

De onde vem essa divisão entre as pessoas que – seja racial ou não -, juntas, constituem a classe de sujeito, em termos gerais?

AT: Isso é bem verdade. Os mega-ricos e as pessoas no topo são capazes de exercer violência estrutural, em vez do tipo de violência direta que ela está descrevendo. Ou, quando se trata de violência direta, às vezes eles literalmente têm exércitos mercenários privados à sua disposição.

Logo antes dessa cena, eu tenho uma cena com o deputado estadual da Carolina do Norte, Mickey Michaux. Ele descreve as condições clássicas da escravidão, em que o dono da plantação colocava os capatazes contra o povo escravizado. Há uma dinâmica semelhante em jogo hoje. Estamos observando os grupos sociais da elite uns contra os outros criando condições de escassez, fazendo as pessoas lutarem por refugos.

Eu não sei se você assistiu aos créditos, mas eu me entreguei e coloquei um clipe do reverendo William Barber no final do filme, onde ele basicamente faz a chamada para a solidariedade. Para mim, isso é para que a esquerda existe, para criar condições nas quais as pessoas não se vêem principalmente em conflito umas com as outras mas, na verdade, unidas em conflito de classes com os que estão no topo.

E não podemos apenas fazer isso através dos nossos filmes ou através da nossa escrita. Nós realmente temos que fazer isso construindo estruturas e organizando. É aqui que também encontramos as limitações da mídia. O filme pode fazer uma espécie de argumento implícito de que estamos todos juntos nisso mas, na verdade, precisamos construir as condições para que as pessoas possam realmente sentir que isso é verdade.

MD: Um ponto que o filme tenta alcançar é que a democracia não se limita apenas à esfera política – ou melhor, que a esfera política se estende além do campo eleitoral.

Há uma cena em que visitamos uma cooperativa de trabalhadores na Carolina do Norte, dirigida principalmente por imigrantes guatemaltecos. “Somos donos do nosso trabalho”, diz Alfonso Gonzales, “e não temos um patrão.”

Um chefe é um ditador, emitindo ordens de cima e ameaçando com consequências graves a desobediência. Nós não precisamos de ditadores em nosso ambiente de trabalho mais do que precisamos no estado, certo? É possível construir locais de trabalho democráticos hoje?

AT: Sim, acho que é possível. Mas acho que existem todos os tipos de dilemas democráticos interessantes que acontecem quando democratizamos o local de trabalho. Livrar-se do chefe é apenas o começo, porque então temos que perguntar: qual é o relacionamento com a comunidade? Qual é o relacionamento com os consumidores? O que é tão triste sobre a atual ordem social é que muitas vezes não conseguimos nos aprofundar nessas ricas questões, porque ainda estamos lutando contra esses sistemas ridículos de dominação aberta e de exploração.

Essa cena não é o que eu esperava que fosse. Eu preparei as filmagens meses antes e não percebi que Donald Trump seria o vencedor das eleições, o que aconteceu no dia anterior ao início das filmagens. Eu planejei conversar com as pessoas na fábrica sobre todas essas questões complexas de governança cooperativa no local de trabalho. Mas descobri que, como os cooperados são todos imigrantes guatemaltecos, eles sentiam com todo o seu ser que tudo corria perigo.

Podemos construir instituições democráticas como as cooperativas de trabalhadores no capitalismo, mas elas tenderão a ser frágeis, porque as forças alinhadas contra nós são muito poderosas. Esta foi também a mensagem da cena com a vitória do Syriza na Grécia. O ponto é que você pode fazer tudo, você pode ocupar, você pode construir um partido, você pode ganhar poder, e então você ainda tem que lidar com mercados internacionais e escalas.

Essas cenas foram uma tentativa de equilibrar a esperança com o realismo. A cooperativa dos trabalhadores foi o micro-exemplo, a Grécia foi o macro-exemplo.

MD: Há uma cena no filme em que você e a estudiosa feminista marxista Silvia Federici estão juntas olhando para um mural do século XIV em Siena, na Itália. O mural é uma espécie de manual de instruções para oligarcas, o “faça e não faça” de um governo liderado por ricos mercadores. Uma das prescrições é que os líderes não devem ostentar sua riqueza, porque inspira inveja, o que pode criar problemas sociais.

Você poderia comparar isso com o que Platão argumentara muitos séculos antes: que seria o fato da riqueza, não um comportamento particular dos ricos, que criaria a corrupção. Isso realmente parece um analogia à divisão entre como liberais e socialistas falam hoje sobre política: os primeiros acreditam que a política é mais sobre boas maneiras, enquanto o segundo grupo acredita que é mais sobre realidades materiais.

AT: Sim, é verdade. Os socialistas dizem que a coisa é óbvia e não deve, de modo algum, ser indizível, o que significa que se você for um bilionário, essa riqueza vulgar não foi criada por você. É ultrajante, quer você esteja a ostentando ou não. E, no entanto, vivemos em uma cultura na qual por décadas essa observação esteve além do limite.

Siena foi feita para funcionar narrativamente para fundamentar a história na ascensão do capitalismo financeiro. É o lar do banco mais antigo ainda em funcionamento – o Banco de Siena foi fundado em 1472. Então, todos esses oligarcas que estavam tentando se conter, como você apontou, eram basicamente os predecessores dos banqueiros modernos. O capitalismo financeiro é uma forma de violência extrativa que sempre esteve envolvida em um manto de respeitabilidade.

É muito emocionante ver mais pessoas começando a dizer que ser um bilionário em uma sociedade onde as pessoas estão famintas é imoral, em vez de analisar os méritos ou deméritos de vários indivíduos mega-ricos, que é a tendência liberal. Isso é um progresso intelectual.

MD: O seu filme centra-se em parte na crise econômica e política grega de 2009 em diante. Um tema central dessa crise é a dívida, com a União Europeia exigindo que a Grécia imponha austeridade a seu povo para pagar suas dívidas aos bancos, e o povo grego exigindo que a dívida seja simplesmente cancelada e a austeridade perdida.

Mas essa ideia de que a dívida possa ser cancelada é interessante. Se isso é verdade, então o que é a dívida além de uma ficção e uma ferramenta de chantagem e coerção? A dívida é inerentemente antidemocrática?

AT: Inerentemente acho que não. Você pode fazer uma afirmação filosófica de que todos nós nascemos devedores do que veio antes. Você pode chamar essa dívida social, que precisa ser paga através de impostos, através da solidariedade, tornando o mundo habitável para aqueles que vêm depois de você.

Mas não há dúvida de que a dívida tem sido usada como uma ferramenta profundamente antidemocrática. Se você olhar para a era moderna e olhar para o modo como a dívida tem sido usada para reforçar o capitalismo e a supremacia branca, é um tanto surpreendente. Veja como a dívida foi usada como forma de punição para a revolução haitiana. Veja como a dívida foi usada para limitar a emancipação através da parceria rural nos Estados Unidos. Veja como foi usado para limitar a agenda progressiva das nações descolonizadas nos anos setenta.

Em um nível individual, a dívida envolve o futuro. É uma reivindicação sobre seus futuros salários, garantindo que você estará trabalhando o resto da sua vida para pagar seus empréstimos. Isso limita o escopo do que você pode fazer, o que é possível na vida. Ele se ata você e, desta forma, limita a sua liberdade.

Nós precisamos de crédito às vezes. O crédito é uma ferramenta que pode abrir possibilidades no momento, porque se você conseguir obter mais recursos poderá fazer mais, e isso pode beneficiá-lo como indivíduo ou beneficiar uma comunidade ou um país. Mas precisamos descobrir como seria o crédito socialmente produtivo em vez das formas predatórias, extrativas e dominadoras de endividamento que temos agora.

MD: Falando de capitalismo e liberdade, apenas alguns dias atrás Donald Trump avisou a toda a América que o socialismo garantiria “coerção, dominação e controle”. Ele estava reiterando esse tema popular da ideologia capitalista, de que o próprio capitalismo é sinônimo de liberdade e qualquer desafio à regra do lucro corroerá a democracia.

Bernie Sanders respondeu: “As pessoas não são verdadeiramente livres quando não têm condições de ir ao médico quando estão doentes… as pessoas não são verdadeiramente livres quando não podem pagar um lugar decente para viver”. Sanders disse muitas vezes que o socialismo significa democracia para ele.

Em jogo aqui estão duas concepções fundamentalmente diferentes de liberdade. No filme, Wendy Brown faz uma distinção entre liberdade (liberty) negativa ou positiva, ou liberdade (freedom) como o direito à “autodeterminação coletiva, em oposição ao direito de ser deixado sozinho”. Você pode expandir um pouco essas concepções concorrentes de liberdade?

AT: Eu queria que o filme atingisse os principais pontos da teoria política e que servisse como uma espécie de cartilha para pessoas que não pensaram nessas coisas, ou que não têm espaço para se envolver em reflexões filosóficas tão frequentemente quanto elas gostariam. Esta questão da liberdade (freedom) e liberdade (liberty) negativa ou positiva é realmente fundamental.

Quando comecei a filmar, dei a volta e perguntei às pessoas: “O que é democracia?” E eles normalmente diziam liberdade (freedom). Mas fiquei um pouco surpresa por ninguém ter dito nada sobre igualdade.

Essa ideia está tão viva em Rousseau e especialmente em Marx, que só é possível alcançar a liberdade garantindo a igualdade. Mas no nosso clima político, essa ideia está em grande parte fora dos limites. Eu sempre acreditei que a esquerda precisasse falar sobre liberdade, mas agora eu entendo melhor que precisamos infundir essa concepção de liberdade com uma atenção à igualdade.

A visão clichê do socialismo é que é esse nivelamento grosseiro, tornando as pessoas iguais, tornando-as todas iguais, todos drones. Em vez disso, acho que deveríamos falar sobre o socialismo como uma sociedade em que todos têm suas necessidades materiais satisfeitas e, por isso, também têm a capacidade de florescer como indivíduos, de serem criativos e de fazer escolhas sobre suas vidas. Essa capacidade de prosperidade está sendo suprimida agora por meio da exploração, da escassez e da política de divisão.

MD: Em uma das cenas finais de seu filme, Salam Magames, uma refugiada síria na Grécia, define a liberdade como “o direito ao trabalho, a uma boa vida… a ser educado, a ser empregado, ter um salário, ter responsabilidade, ter uma família”. Isso se aproxima de sua definição de liberdade, baseada na garantia das condições básicas necessárias para o florescimento humano.

Se concordarmos com a visão de liberdade de Salam, e aceitarmos que não é possível para algumas pessoas alcançar essa visão em seu país de origem, então elas não deveriam ser autorizadas a se mudar para onde possam satisfazer suas necessidades básicas? Como podemos reivindicar a representação da democracia, na Europa ou nos Estados Unidos, quando negamos às pessoas o direito de ter suas necessidades fundamentais satisfeitas porque elas nasceram no lugar errado?

AT: Eu acho que não podemos justificar isso. Há tantas pessoas que têm oportunidades negadas, e eu não quero dizer a oportunidade de perseguir o sonho americano, o que quer que seja, mas a oportunidade de dormir à noite sem ter medo de ser morto apenas com base no fato de que eles sejam nascido no lado errado do Egeu ou do Mediterrâneo ou do Rio Grande. Isso é totalmente imperdoável.

Quando a esquerda tenta abordar essa questão, acho que devemos afirmar que a democracia significa o direito de migrar. Mas também temos que enfatizar o direito não apenas de se mover, mas de ficar. Se os Estados Unidos não tivessem participado com um golpe na Guatemala, talvez todas essas vidas de milhões de pessoas não tivessem sido derrubadas, fazendo com que elas se mudassem. Outro sujeito do meu filme, Abid, não queria fugir do Afeganistão nem deixar a mãe no Paquistão. Salam odeia a Síria, mas isso é em parte porque ela a ama.

Devemos articular o direito à livre circulação, mas também o direito de estar enraizado, sem a ameaça de deslocamento. Como o capitalismo começou? Com cercado, forçando as pessoas a sair de suas terras, arrancando-as e lucrando com sua precariedade.

As pessoas têm o direito de cruzar fronteiras, mas precisamos ter uma conversa mais ampla sobre uma redistribuição global de riqueza e poder.

MD: Por que as pessoas simplesmente não se rebelam? Há uma cena no filme em que uma estudante de uma escola pública lhe explica que ela e seus colegas se uniriam e pediriam almoços melhores, mas têm medo das consequências. Isso não seria uma pista do por que as pessoas simplesmente não se unem e derrubam os mestres da sociedade?

AT: Por um lado, essa rebelião tem essa dimensão espontânea. Há pontos na história em que as pessoas simplesmente não aguentam mais e vão se revoltar. Mas para fazer uma mudança duradoura, a rebelião tem que ser organizada. Eu acho que a ausência de estruturas na esquerda é um fator importante de por que as pessoas não se unem e se revoltam.

Precisamos fazer o trabalho humilde de construir instituições fortes que possam permitir que as pessoas suportem as inevitáveis perdas e consequências da luta. A questão não é “Por que as pessoas não se rebelam?” Mas sim “O que podemos fazer para criar condições para que as pessoas possam se rebelar e não arruinar suas vidas fazendo isso?”

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Fonte: Jacobin
Tradução: DMT
Data original da publicação: 13/02/2019

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