Na Tunísia, principal central sindical encarna oposição

Héla Yousfi

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Fonte: Le Monde Diplomatique Brasil, 05/11/2012.

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Resumo: Enquanto a insurreição segue na Síria, os governos de transição assumem os poderes no mundo árabe. Em todas as partes, ocorre uma afirmação dos islamitas, sobretudo da Irmandade Muçulmana. Na Tunísia, ela está representada no partido que lidera a coalizão, a Ennahda, e enfrenta a oposição da principal central sindical.

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Sumário: Tentativa de cooptação? | A luta pela autonomia | Notas

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Dez meses após a chegada do Ennahda ao poder, Sidi Bouzid, cidade onde começou a “revolução da dignidade”, voltou a ser palco de múltiplos movimentos reivindicatórios, os quais reúnem de agricultores a trabalhadores da construção civil e desempregados. A União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT) apoia essas ações. No dia 14 de agosto de 2012, ela convocou uma greve geral para reclamar medidas de desenvolvimento regional e exigir a libertação de jovens desempregados presos durante manifestações violentamente reprimidas pela polícia. Já o gabinete local do Ennahda convidou a central a se abster de qualquer compromisso político e preservar sua independência.

O confronto entre Ennahda e UGTT começou em 25 de fevereiro de 2012, com uma manifestação em Túnis, convocada pela central sindical, que reuniu cerca de 5 mil pessoas. Os manifestantes denunciavam o despejo de lixo, segundo eles, perpetrado por militantes do Ennahda diante das instalações sindicais ligadas ao movimento social dos funcionários municipais, uma das categorias mais carentes da Tunísia.

“Eles querem sufocar nossas vozes para decidir sozinhos nosso destino. Querem semear o medo em nosso coração para nos impedir de defender nossa causa e nossos direitos. Mas nós não vamos ceder, não vamos aceitar”, afirmou o secretário-geral da UGTT, Houcine Abassi. Para Noureddine Arbaoui, membro do escritório executivo do Ennahda, a UGTT é manipulada pelas forças do antigo regime decididas a obstruir a ação do governo.

O enfrentamento foi ao auge no dia 1º de maio de 2012, durante a manifestação que deveria lembrar os desafios sociais e econômicos da revolução. O lema “Trabalho, liberdade, dignidade” afogou-se numa cacofonia orquestrada, por um lado, pelos partidários do Ennahda, que gritavam “Com nossa alma e nosso sangue, nós o defenderemos, governo!”, e por outro por seus opositores, que retrucavam “Abaixo o governo da vergonha!”.

Essas escaramuças não são novidade, recorda Sami Souihli, secretário-geral do sindicato dos médicos: “A campanha contra a UGTT não começou com o Ennahda. A organização foi visada pelos governos de transição instaurados após a saída do [ex-presidente Zine al-Abidine] Ben Ali; ela tem sido sistematicamente acusada de ser responsável pela crise econômica e a anarquia no país. Querem dobrar a UGTT porque ela é o único contrapoder organizado”.

Com 517 mil membros, a principal força sindical da Tunísia foi por muito tempo a única. Concentrada no setor público, ela é composta de 24 sindicatos regionais, 19 organizações setoriais e 21 sindicatos de base. A UGTT reúne diversas tendências políticas e conta com membros de todas as regiões e de múltiplas categorias sociais – operários, funcionários públicos, médicos etc. Pedra angular do movimento nacional do período colonial, ela sempre desempenhou um papel central na vida política. Mais que um sindicato, assemelha-se a uma organização na qual as reivindicações sociais têm estado histórica e intimamente ligadas às palavras de ordem políticas e nacionais. Ao contrário do que ocorre em outros países árabes, ela sempre teve autonomia – maior ou menor, dependendo do período – em relação ao aparelho de Estado.

Desde a independência, em 1956, duas tendências coexistem em seu interior: uma, encarnada no que se costuma chamar de “burocracia sindical”, de submissão ao poder, e outra de resistência. Esta toma a dianteira em tempos de crise, controlando algumas federações, como as ligadas ao ensino e aos correios e telecomunicações, além de alguns sindicatos regionais ou locais. Ainda que a burocracia sindical mantenha certa ambivalência, muitos movimentos sociais encontraram apoio junto a federações e seções da UGTT. Apesar de suas deficiências – centralização do poder decisório e sub-representação das mulheres, do setor privado e de certas regiões, como o Sahel –, a UGTT teve papel decisivo nas greves, passeatas e manifestações que levaram à fuga do ditador e apoiou amplamente as ocupações da Praça Kasbah, que, em janeiro e fevereiro de 2011, levaram à queda dos dois primeiros governos de transição.

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Héla Yousfi é mestre de conferências da Universidade Paris-Dauphine. Autora de L’UGTT au couer de la revólution tunisienne (“A UGTT no coração da revolução tunisiana”), Éditions Mohammed Ali Hammi, Túnis, publicado em janeiro de 2013.

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