Monografia investiga declínio do trabalho doméstico como estratégia de sobrevivência

Monografia investiga declínio do trabalho doméstico como estratégia de sobrevivência
Patrícia Sampaio Cotta recebeu o prêmio do economista-chefe do BDMG, Otávio Camargo. Fotografia: Corecon/Divulgação

Os avanços no ensino público brasileiro e a ampliação da oferta de trabalho, observados de 2004 a 2014, são exemplos de fatores que engendraram uma nova forma de inserção de mulheres pobres na sociedade. Isso teve como efeito a redução da importância do emprego doméstico para as novas gerações, e a categoria acabou se tornando “envelhecida” após o período.

Esse é um dos aspectos discutidos na monografia Reconsiderando o emprego doméstico como estratégia de sobrevivência, defendida pela economista Patrícia Sampaio Cotta, como trabalho de conclusão do curso de Ciências Econômicas da UFMG. Em outubro, o estudo venceu o Prêmio Minas Economia, oferecido anualmente pelo Conselho Regional de Economia (Corecon) em parceria com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG).

Segundo dados do IBGE apurados pela autora, o perfil etário do emprego doméstico, em 2004, tinha configuração semelhante ao das demais categorias, com maior percentual de trabalhadoras na faixa dos 30 aos 44 anos. Em 2014, a maioria das empregadas tinha entre 45 e 54 anos. O número de domésticas com até 29 anos, por sua vez, caiu de 24% para 7% no intervalo.

A pesquisa revelou que as profissionais ficaram, em geral, mais escolarizadas. A porcentagem de domésticas negras analfabetas, por exemplo, que era da ordem de 24% em 2004, reduziu-se para 13,5%, em 2014. Sobre esse mesmo estrato, o índice das mulheres com ensino médio completo passou de 10% a 21% ao longo da década. “Seu poder de compra também evoluiu, acompanhando a valorização do salário mínimo”, acrescenta a pesquisadora.

Patrícia Sampaio explica que, em contexto de crise e retrocesso em direitos, o emprego doméstico costuma ser visto como um “colchão amortecedor” do desemprego, o que poderia conter o encolhimento da categoria frente às demais. “Ainda é cedo para dizer que as mudanças de perfil no emprego doméstico da última década foram perdidas. E, quanto às pesquisas que indicam o crescimento do número de domésticas por ‘falta de opção’, resta saber quem são as mulheres que recorrem à profissão em tempos adversos e em que medida isso impacta a mudança estrutural verificada nos últimos anos”, diz a economista.

Economia feminista

De acordo com a autora, o interesse pelo tema surgiu nos encontros do Grupo de Estudo em Economia Feminista, núcleo formado em 2016, na Face, por iniciativa de alunas da Unidade, tendo em vista uma carência observada em relação ao reconhecimento da teoria econômica feminista no Departamento. Patrícia Sampaio destaca o apoio de professoras, em especial da orientadora do seu estudo, Ana Maria Hermeto, para a realização de estudos econômicos numa perspectiva feminista e multidisciplinar.

A caracterização do ofício como majoritariamente feminino, segundo a economista, alinha-se à ideia socialmente construída de que a mulher é predisposta aos afazeres domésticos, de forma permanente e gratuita. “Esse quadro está relacionado à divisão sexual do trabalho, segundo a qual os trabalhos femininos são menos prestigiados do que os masculinos”, argumenta a autora.

O viés racial também é analisado no estudo. “Em muitos aspectos, o Brasil mal superou seu passado escravocrata”, diz Patrícia. Isso, em sua opinião, explica a maior concentração de mulheres negras na categoria. E mesmo entre as domésticas, o estudo mostrou que as mulheres negras aparecem em condições ainda mais desfavoráveis que as brancas.

Sob o ponto de vista do feminismo, a contratação de uma empregada doméstica é, na avaliação de Patrícia, exemplo “emblemático e contraditório”. “Num país de elevada desigualdade social, o emprego doméstico por um lado libera as mulheres de classe média e alta dos afazeres naturalizados femininos. Por outro, apoia-se no trabalho desvalorizado feito por mulheres pobres”, contrapõe.

Monografia: Reconsiderando o emprego doméstico como estratégia de sobrevivência da mulher pobre no Brasil
Autora: Patrícia Sampaio Cotta
Orientadora: Ana Maria Hermeto Camilo de Oliveira

Camila Márdila e Regina Casé em cena do filme 'Que horas ela volta?', que aborda os conflitos entre uma empregada doméstica e seus patrões
Camila Márdila e Regina Casé em cena do filme ‘Que horas ela volta?’, que aborda os conflitos entre uma empregada doméstica e seus patrões. Imagem: Globo Filmes

Fonte: UFMG
Data Original da publicação: 09/01/2018

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