Memórias em disputa: globalização, trabalho industrial e pautas sindicais (1990-2015)

Sérgio Paulo Morais

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Fonte: História & Perspectiva, Uberlândia, v. 29, n. 55, p. 211-240, jul./dez. 2016.

Resumo: A partir de apontamentos advindos de pesquisas teóricas e estudos realizados sobre trabalho operário no período 1990-2015, discutiremos como sindicatos nacionais, ou mesmo locais, são desafiados por tradições seletivas de memórias, empreendidas por empresas internacionais. Para tanto, nos utilizaremos de narrativas de sindicalistas, projetos de memória empresarial e indicações sobre redes internacionais de trabalhadores.

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Apresentação

Nos anos 1990, o governo brasileiro impôs um horizonte de possibilidades gerais para reformas de direitos trabalhistas, as quais se estenderam às décadas posteriores. Tais ações contribuíram para reconfiguração sindical e para a criação de “novos” trabalhadores, propensos a competições e ao individualismo (MELLO E SILVA, 2004). As modificações em políticas e em práticas sindicais se fizeram no interior de uma ambiguidade capitalista, cuja marca foi: combate inflacionário/estabilização monetária, frente a um brusco crescimento do desemprego (MARTINS; RODRIGUES, 1999).

O primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), presidente da República entre 1995 e 1998 e de 1999 a 2003, promoveu reformas em diversos setores sociais, de acordo com Martins e Rodrigues (1999):

[a] onda de ajustes estruturais, iniciada em 1990, com a política de abertura comercial, fez com que as empresas brasileiras, diante da necessidade de competir, acelerassem o processo de reestruturação produtiva. Ainda que ocorrendo de maneira diferenciada nos diferentes setores e ramos da economia, a introdução de inovações tecnológicas e as novas formas de organização do trabalho, marcadas pela ideia da flexibilização, agravam a crise do mercado de trabalho. Apesar de uma ligeira recuperação inicial do PIB, a partir de 1994 sua taxa entrou em declínio, caindo mais acentuadamente a partir de 1997. Isto traz, obviamente, consequências para o mercado de trabalho. (idem, 1999, p. 156)

Para Álvaro Bianchi (1996), o período e as práticas transformadoras foram decorrentes da prática e do dogmatismo neoliberal, caracterizado por reformas (Fiscal, Tributária e Patrimonial). As privatizações (ou Reformas Patrimoniais) ocorridas no primeiro governo FHC, financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDS), tiveram como eixo e, ao mesmo tempo, caráter publicitário, a “redução de déficit fiscal” (BIANCHI, 1996, p. 91); porém, abriram caminho para a “degradação do trabalho” (BERNARDO, 2009) e recompuseram a dinâmica de conflitos empregatícios (CARDOSO, 2003).

Um fato ocorrido em 1995 demarcou nova correlação de forças entre governo e a organização sindical de trabalhadores: a repressão à greve ocorrida em refinarias de petróleo (da Petrobrás). Diversos pesquisadores corroboram a tese de que tal fato principiou um período de mudanças para o movimento de trabalhadores, ao impor liminares jurídicas e ações repressivas em momentos de reivindicações ou de conflitos.

Tal acontecimento marcou incisivamente a memória operária, ainda realimentada em diversos suportes, entre eles, a imprensa sindical. Em documento de 2010, encontra-se o seguinte texto:

milhares de trabalhadores foram arbitrariamente demitidos, punidos e enfrentaram o Exército, que ocupou com tanques e metralhadoras as refinarias da Petrobrás. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) e seus sindicatos foram submetidos a multas milionárias por terem colocado em xeque os julgamentos viciados do TST, que decretou como abusiva uma greve legítima e dentro da legalidade. Além de ter impedida a privatização completa da Petrobrás, como queriam, a greve de maio de 95 despertou um movimento nacional de solidariedade e unidade de classe, fazendo ecoar por todo o país um brado que marcou para sempre a categoria: “Somos todos petroleiros”. (INFORME CUT NACIONAL, 07/05/2010).

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Sérgio Paulo Morais é Doutor em História Social, professor dos cursos de graduação e de pós-graduação do INHIS/UFU e da pós-graduação FACED/UFU. Apoiado pela CNPq.

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