Ken Loach e sua crítica incompleta à uberização

Cena do filme “Você não estava aqui”. Fotografia: Zeitgeist films

Você não estava aqui retrata a precarização, expõe a servidão iludida do “empresário de si mesmo” e dá um passo a mais, ao questionar o sentido do trabalho. Seria melhor se lembrasse que as maiores vítimas são imigrantes e não brancos

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Fonte: Outras Palavras
Data original da publicação: 01/06/2020

Há uma inesquecível cena em “Tempos Modernos” na qual Charlie Chaplin aperta os parafusos em uma esteira. É um movimento ordenado e frenético, que Carlitos repete, ainda quando se afastava da linha de montagem. É uma cena curta, um fragmento pequeno de tempo no qual o genial inglês explode toda uma crítica à revolução industrial e aos métodos fordistas de produção.

Em “Você não estava aqui”, Ken Loach, diretor britânico simpático ao socialismo realista, tal como defendido pelo Labour Party, especialmente na década de 1970, tenta, mas não consegue, em pouco tempo, desconstruir a uberização, do mesmo modo que Chaplin desconstruiu o fordismo. “Você não estava aqui” é um filme que se arrasta. O motivo é nobre. O mote é necessário. Importante que a discussão seja levada para as salas de cinema. Mas o roteiro patina.

Creio que podia se esperar mais do progressismo inglês, ainda que confinado a um conservadorismo imobilizante. Os romances de Charles Dickens já revelavam uma Inglaterra marcada pela desigualdade. Berço da revolução industrial (lá havia carvão, lã e mão-de-obra barata, decorrente da política do cercamento das terras da zona rural) a Inglaterra conviveu com as mais brutais formas de exploração. Diziam os cronistas, que as camas jamais esfriavam nos dormitórios das fábricas inglesas…

A semana inglesa de trabalho (44 horas semanais) decorreu de um intenso movimento que propunha a divisão do dia em três partes: 8 horas para o trabalho (8 hours do work), 8 horas para o descanso e dedicação a outras atividades (8 hours to play), 8 horas para o sono (8 hours to sleep), que resultavam nas 24 horas diárias (24 hours a day). Na luta por essa disposição do tempo houve movimentos de destruição de fábricas e de máquinas. Refiro-me ao movimento cartista, e a inclusão definitiva da classe operária nas lutas sociais. A Inglaterra é a terra da luta pela liberdade de expressão (lembremo-nos de John Milton) e da primeira leva do feminismo (movimento sufragista).

Em “Você não estava aqui” a crítica é dirigida à chamada “uberização” do modo produtivo. No fordismo tinha-se a divisão do trabalho como forma ótima de exploração da mais-valia. No taylorismo que o antecedeu, pretendia-se uma otimização dos movimentos do operário, ainda que as tarefas não fossem objetivamente divididas. A partir da década de 1990 conheceu-se a “pejotização”, marcada por escandalosas formas de terceirização do trabalho. Na uberização, o modo criticado em “Você não estava aqui”, tem-se um deslocamento fictício da propriedade dos bens de produção. O operário, sem nenhuma forma de proteção ou assistência, é iludido, imaginando-se um empreendedor. Fabuliza. Acredita que é seu próprio patrão.

Essa situação de ficção é denunciada em “Você não estava aqui”. Insisto, a intenção é boa, porém o roteiro é cheio de clichês. Há horas em que uma denúncia séria tende a transformar-se em um dramalhão. O pai, Ricky (Kris Hitchen) desempregado, aposta todas as fichas como franqueado de uma companhia de entrega de volumes. A mãe, Abbie (Debbie Honeywood) lutadora e contemporizadora, é cuidadora de idosos carentes, doentes e alguns pouco benevolentes. O filho adolescente, Seb (Rhys Stone) é o problema e o pomo da discórdia. A filha mais nova, Liza (Katie Proctor) é o termômetro de estabilização de uma família devastada pela crise econômica. Realismo na medula.

O filme nos revela uma Londres que em nada se assemelha com a Londres das comédias românticas como “Noting Hill”, com Hugh Grant e Julia Roberts, sensação de 1999. Tem-se uma Londres, “dark”, lúgubre. O inglês, com forte sotaque cockney, é às vezes pouco compreensível. Há filas de hospital, o que descontrói a ingênua imagem de primeiro mundo das maravilhas. Há uma guarda de trânsito de algum modo transigente para os padrões britânicos. Há mal humorados que se recusam a receber pacotes. Há pichações por toda parte, e Seb, o filho, tem razões para pichar, inclusive as fotos da família.

Tocante como denúncia, “Você não estava aqui” é por vezes piegas nas tensões familiares. São brancos, ingleses, aparentemente integrados. Imagina-se a situação do imigrante ilegal e segregado. Muito pior. Talvez o espectador branco e remediado se identifique mais com Ricky do que com um indiano ou jamaicano. As cenas de maior tensão, quando Ricky é assaltado, por exemplo, sugerem uma imagem que hoje se reproduz no Brasil. Jovens que pedalam bicicletas, sem segurança ou seguro algum, entregando refeições, expostos a toda forma de degradação.

Dia desses, numa chuvosa noite de Brasília, vi um rapaz que empurrava uma bicicleta com o pneu furado, carregando nas costas as refeições que ainda precisava entregar. Não consegui reter sua expressão facial. Era início da noite. Creio, no entanto, que seu rosto deveria ser marcado pelas linhas que dividem as ilusões perdidas das desilusões vividas. Nesse ponto, e apenas nesse ponto, “Você não estava aqui” reverbera algum nível de universalidade. É testemunha de um absoluto retrocesso nas relações trabalhistas.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo-USP.

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