Intensidade do trabalho: questões conceituais e metodológicas

Sadi Dal Rosso
Ana Cláudia Moreira Cardoso

Fonte: Sociedade e Estado, Brasília, DF, v. 30, n. 3, p. 631-650, set./dez. 2015.

Resumo: O objeto deste artigo é a discussão de elementos conceituais e metodológicos envolvidos com o fenômeno da intensidade do trabalho. Pesquisas realizadas em diversos países mostram que a intensificação é um componente estruturante do trabalho na contemporaneidade e essa tendência tem a capacidade de se prolongar por tempo indefinido sob o paradigma da hegemonia neoliberal que continua a reger as relações econômicas mundiais. O mesmo consenso não prevalece em relação a definições conceituais do fenômeno, seus correspondentes pressupostos teóricos e suas implicações metodológicas. A análise desta falta de consenso constitui o objetivo principal deste artigo. Para atender a este objetivo, será realizada uma revisão da literatura sobre a formulação da teoria do valor trabalho e de pesquisas recentes sobre o tema. A discussão conceitual e metodológica ancora-se na prática de levantamento de informações por meio de surveys da European Working Conditions Survey (EWCS), cujos questionários e relatórios serão analisados no tocante à objetividade e subjetividade, à relação das práticas empíricas com pressupostos conceituais, entre outros. Este ensaio de crítica conceitual e metodológica tem em vista estabelecer parâmetros para pesquisas necessárias ao contexto brasileiro, dadas, especialmente, as implicações da intensificação laboral sobre as condições de saúde de quem trabalha.

Sumário: Introdução | Intensidade do trabalho na teoria do valor | O conceito de intensidade do trabalho segundo os European Working Conditions Surveys (EWCS) | Aspectos metodológicos da estratégia empírica de pesquisa sobre intensidade | Conclusão | Referências

Introdução

O cerne da discussão deste artigo está focado no alcance da conceituação e organização das práticas do estudo empírico do fenômeno da intensidade laboral. Pesquisas levadas a termo em diversos países são praticamente unânimes em fornecer evidências sobre a existência de um processo de crescente intensificação do trabalho contemporâneo. Surveys realizados nos países da União Europeia nos últimos vinte anos pela Fundação Europeia para o Desenvolvimento das Condições de Vida e de Trabalho posicionam-se de maneira categórica a respeito da tendência do fenômeno do grau da intensidade no contexto do trabalho contemporâneo.

A intensidade, tal como percebida pelos empregados, aumentou entre 1995 e 2000. Esta tendência não pode ser totalmente explicada pela disseminação de constrangimentos objetivos das cadências impostas pela organização do trabalho (Boisard et alii, 2003: 67).

No relatório de outro survey, conclui-se que “não há elementos para a hipótese de que a intensificação do trabalho tenha cessado ou que esteja diminuindo” (Burchell et alii, 2009: 59). Mais recentemente, outra vertente de análise reforça esta tese: “o trabalho ficou mais intenso, mas os trabalhadores labutam durante menos horas” (Parent-Thirion et alii, 2012: 128). A análise do survey de 2010 permite aos seus autores também afirmarem que os “riscos psicossociais provavelmente cresceram com o aumento da intensidade” (Parent-Thirion et alii, 2012: 129). Elevada a intensidade do trabalho, agravam-se a vulnerabilidade e os riscos para a saúde do trabalhador, não apenas no terreno físico como também no campo mental e psicológico:

Diferentes estudos não definem o conceito da intensidade do trabalho de forma similar. Contudo, algumas formulações são consistentes e não dependem da forma específica pela qual a intensidade é mensurada. Essa perspectiva sugere que a elevada intensidade laboral representa um alto custo. Em primeiro lugar, pode causar acidentes nos locais de trabalho; depois, está relacionada com condições de trabalho ruins, capazes de comprometer a saúde dos trabalhadores. Constrangimentos de cadência definidos na organização do trabalho estão associados à crescente probabilidade de os trabalhadores sofrerem reveses tanto em relação à saúde física como à sua integridade psicológica (Burchell et alii, 2009: 3 e 59).

Essas conclusões convergentes formuladas pela instituição possivelmente de maior respeitabilidade internacional na pesquisa das condições de trabalho não encontram consenso, como visto, quando se trata de conceber e tratar metodologicamente o conceito. O objetivo deste artigo consiste em analisar esta falta de consenso e procurar diminuir o hiato entre os diferentes entendimentos sobre a matéria. Para desenvolver o ensaio, lança-se mão, na primeira parte, de análise da literatura, em particular da formulação originária da teoria do valor trabalho, quando o conceito de intensidade ganhou espaço teórico significativo; e da literatura contemporânea composta de relatórios de pesquisa e artigos publicados.

A segunda parte do ensaio consiste em discutir decisões metodológicas tomadas para o estudo da intensidade do trabalho. A discussão assume como objeto a prática empírica definida para a realização dos já mencionados European Working Conditions Surveys (EWCS). Questionários e relatórios desses surveys serão alvo de análise crítica no que respeita à definição da noção de intensidade, bem como a teorização sobre seus determinantes e, consequentemente, em relação às decisões empíricas no tocante à forma das perguntas, às alternativas estabelecidas para as respostas dos entrevistados, à implicação de subjetividade ou objetividade, à abrangência exaustiva ou não das alternativas de respostas e itens semelhantes.

A leitura crítica que fazemos sobre o conceito de intensidade e sobre as decisões metodológicas para a pesquisa empírica contribui ainda para os estudos altamente necessários que podem ser levados a termo no ambiente laboral brasileiro, porquanto temos observado crescente interesse, notadamente por parte de jovens pesquisadores, em relação ao fenômeno da intensidade, tão antigo quanto a existência do trabalho e tão jovem quanto o desejo de pesquisadores em decifrá-lo.

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Sadi Dal Rosso é professor titular da Universidade de Brasília Brasil (UnB), Ph. D. (University of Texas at Austin).

Ana Cláudia Moreira Cardoso é pesquisadora do Departamento Intersindical de Estatística e de Estudos Socioeconômicos Brasil (Dieese), doutora (Universidade de São Paulo e Paris VIII).

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