Inteligência Artificial, ameaças e alternativas

Cheng Li

Fonte: Carta Social e do Trabalho, n. 34, p. 13-22, jul./dez. 2016.

Sumário: Introdução | O medo e a crise trazidos por uma mudança sem precedentes | Recebendo o salário sem fazer nada… uma nova forma de “comunismo”? | A maré escura apareceu na área da IA | Impacto da IA nos países em desenvolvimento: fim das “escadas rolantes” | Sugestões de leitura

O pânico introduzido pela primeira máquina a vapor em trabalhadores ingleses no século XVIII talvez seja de igual magnitude ao choque trazido pelo aplicativo Uber nos motoristas de táxi nas maiores cidades do mundo. A introdução de novas tecnologias costuma ter impactos sobre a estrutura ocupacional e as relações de trabalho.

Desde a Revolução Industrial, avanços no campo da ciência e tecnologia tiveram grande influência sobre o nível de emprego em setores específicos e em certas áreas geográficas, e em alguns casos houve extinção de algumas ocupações e criação de outras. Houve um declínio da porcentagem de camponeses no total da força de trabalho e um aumento dos operários e dos comerciários. Nos séculos XIX e XX, as revoluções científicas e tecnológicas – tais como a mecanização agrícola, os novos meios de comunicação, a transformação da matriz energética e a automação industrial – também provocaram mudanças nas relações de trabalho. Nas últimas décadas, houve um declínio do emprego no setor industrial e a força de trabalho passou a se concentrar no setor de serviços. As mudanças na divisão internacional do trabalho, inclusive em razão das cadeias produtivas globais e da terceirização em âmbito internacional, também provocaram impactos significativos sobre o emprego e as relações de trabalho.

Após acumular forças por sessenta anos, a inteligência artificial (IA) começou, recentemente, a desencadear efeitos concentrados, configurando uma revolução tecnológica que representa um divisor de águas entre o passado e o futuro. Este conceito evoluiu ao longo de seis décadas e está entrando agora numa fase de aplicação econômica totalmente nova. Ou seja, o surgimento de um novo paradigma tecnológico está próximo do ponto crítico. Partiu da construção do quadro teórico original, passou pelo desenvolvimento dos elementos chave em laboratório, alcançou capacidade operacional e finalmente atingiu o potencial de grande escala comercial. De 2010 a 2014, o investimento das empresas iniciais da IA aumentou mais de 20 vezes. A escala do mercado mundial para produtos com a aplicação da IA vai em breve ser 2.5 vezes maior do que os 8 bilhões de dólares referentes ao ano 2015. Num futuro não distante, a IA vai se popularizar como aconteceu com a rede de água e a rede de eletricidade no século XX.

O progresso da nova tecnologia injeta esperança nos homens e mulheres que se acham presos em trabalhos triviais e rotineiros, que agora veem surgir a aurora de uma “sociedade pós-capitalista”. Porém, o aparecimento da inteligência artificial, a automação do processo de trabalho e o uso crescente de robôs trazem outros efeitos sociais e trabalhistas que podem ser disruptivos. Conforme a teoria da Destruição Criativa de Schumpeter, a difusão da IA nas atividades de serviço deve gerar destruição de postos de trabalho em segmentos tradicionais, mas também pode estimular a criação de novos postos de trabalho nos segmentos mais dinamizados pelas inovações. Contudo, nada garante que o número dos empregos criados pela IA compensará os cargos destruídos e é provável que os estímulos positivos se concentrem em áreas geográficas específicas, enquanto os efeitos negativos serão generalizados. De fato, há muitas incertezas. Como será a forma predominante de trabalho no futuro próximo e o que acontecerá com os trabalhadores que não conseguirem se inserir na nova configuração econômica?

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Cheng Li é bacharel em Gestão de Recursos Humanos e Relações Industriais no Instituto de Relações Industriais (China); mestre no Instituo TATA de Ciências Sociais (Índia); mestre no Instituto de Economia da Unicamp.

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