Incertezas e precarização são os efeitos mais visíveis na saúde mental dos trabalhadores. Entrevista com Daniel Viana Abs da Cruz

Ilustração: Solarseven/Dreamstime

As transformações geradas pela Revolução 4.0 no mundo do trabalho não têm como consequência apenas a diminuição de postos de trabalho, mas também suscitam questões sobre a saúde mental tanto dos trabalhadores que já foram substituídos por máquinas, quanto daqueles que ainda nem ingressaram no mercado, como jovens e adolescentes. “Como se sente e se percebe um adolescente hoje ao acessar um mundo do trabalho que constantemente diz que só há espaço para vencedores, e que o vencedor é o mais veloz, o mais conectado, o mais empreendedor (com inglês fluente, conhecimento em finanças, e big data) e o mais hábil com suas emoções (suporta a tudo e a todos, com felicidade, gentileza e gratidão)? Como é para um adolescente perceber um mundo do trabalho que gera um imaginário de riqueza aos 20 anos, mas que muitas vezes só trabalhos precarizados, quando existem, consegue oferecer? Penso que essas questões precisam ser feitas para atendermos melhor nossa infância e adolescência hoje”, afirma o psicólogo Daniel Viana Abs da Cruz à IHU On-Line.

De acordo com ele, como o trabalho tem um papel central na vida dos indivíduos e um impacto sobre as demais esferas da vida, “alterações nas formas de trabalho, nas rotinas, nas garantias e direitos, nas relações afetivas e sociais produzidas, tendem a alterar a relação que se tem com a saúde física, com a perspectiva de futuro, com a família e amigos, com a segurança percebida no ambiente, com a comunidade de que se faz parte”. Todos esses elementos alterados, menciona, “afetam o bem-estar e a saúde mental” e geram sofrimento. Nos dias de hoje, assegura, “esse sofrimento pode ser facilmente reconhecido e nomeado como psicopatologias que circulam no contemporâneo, como a depressão e a ansiedade”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Cruz ressalta que junto com o progresso tecnológico é “imputado” ao trabalhador “o imaginário de que com muitos cursos e qualificações estará seguro em seu emprego”. Diante das transformações tecnológicas e no mundo do trabalho, o psicólogo sugere a adoção de uma postura mais positiva. “Ao invés de buscarmos o que falta de qualificação nos trabalhadores para ocuparem cargos e funções em empresas, incentivar e sustentar o que eles já possuem como habilidades e potencialidades constituídas”, diz.

Daniel Viana Abs da Cruz é graduado e mestre em Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e doutor na mesma área pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É coordenador do Grupo de Pesquisa Contextos Digitais e Desenvolvimento Humano e professor adjunto na Escola de Administração da UFRGS, na área de Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a chamada Revolução 4.0 tem impactado a saúde mental das pessoas e as relações sociais em geral?

Daniel Viana Abs da Cruz – É uma revolução caracterizada pela conexão e integração de tecnologias digitais com sistemas físicos de produção e que altera como vamos compreender o trabalho e dar-lhe sentido. Essas são peças-chave na saúde mental. Compreendo que é algo, apesar de anunciado por todos os meios, muito novo. Ainda estamos percebendo como o mundo do trabalho está se alterando e a forma como os trabalhadores estão reagindo às diferentes expectativas, exigências, pressões e regulações do tempo e da vida. A promessa dessa revolução é de um processo de trabalho segundo o qual, pela automatização, inteligência artificial e internet das coisas, prescinde de muito menos humanos para seu funcionamento.

As questões que esse futuro coloca, me parece, à saúde mental são: qual o papel que é possível a mim (trabalhador) nesse cenário? Tenho condições (qualificações) para existir nesse mundo do trabalho? Se não, há garantias ou direitos que me permitam sobreviver? Qual o custo desse trabalho à vida? Esta última pergunta se refere ao trabalho, quando aparece, que surge como oportunidade, mas se configura como precário, tanto nas condições da execução do trabalho quanto nas formas que produz a subjetividade do trabalhador. Essas incertezas e precarizações, a meu ver, se estabelecem atualmente como os efeitos mais visíveis na saúde mental dos trabalhadores.

IHU On-Line – Quais os impactos da chamada Revolução 4.0 nas relações de trabalho? Em que medida esses impactos afetam a saúde mental e o bem-estar dos trabalhadores?

Daniel Viana Abs da Cruz – O bem-estar possui diferentes perspectivas e tradições de entendimento. A que temos trabalhado, chamada de bem-estar psicológico ou hedônico, valoriza, além de aspectos afetivos e emocionais, a satisfação que temos com diferentes âmbitos da nossa vida. No momento em que o trabalho é um desses aspectos e tem impacto sobre todos os outros âmbitos de vida, alterações nas formas de trabalho, nas rotinas, nas garantias e direitos, nas relações afetivas e sociais produzidas, tendem a alterar a relação que se tem com a saúde física, com a perspectiva de futuro, com a família e amigos, com a segurança percebida no ambiente, com a comunidade de que se faz parte. Todos esses elementos, já alterados, afetam o bem-estar e a saúde mental, com maior ou menor intensidade. Estamos falando de um conjunto de elementos que estão sendo alterados e que geram sofrimento. Esse sofrimento pode ser facilmente reconhecido e nomeado como psicopatologias que circulam no contemporâneo, como a depressão e a ansiedade.

IHU On-Line – Como esses contextos de sociedade em rede, mundos digitais, têm incidido sobre a formação de jovens? E como esses jovens passam a apreender o mundo do trabalho?

Daniel Viana Abs da Cruz – Entendo que apreendem o mundo do trabalho de uma forma diversa das gerações anteriores. E essa parece uma frase de fácil assimilação, mas na prática tem sido bastante difícil aos adultos compreender o quão diferente as gerações nativas digitais podem pensar, sentir e agir diferentemente das anteriores. A reação mais comum é usar os parâmetros já existentes para tentar compreender o que se passa com eles, porém não creio que funciona. Há um conjunto de esforços de pesquisadores em torno da infância e da adolescência que se posicionam de forma a criticar essa relação chamada de adultocêntrica. Nessa relação, que é a que temos nas teorias e práticas aprendidas e ensinadas corriqueiramente, os conhecimentos sobre a infância e adolescência, e por consequência as formas de se lidar com elas, são produzidos por adultos. Essa situação se agrava no contexto atual, tipicamente do digital, caracterizado pela produção de novas formas de compartilhamento de emoções, de relações sociais e de perspectivas de futuro. O acesso a informações insere debates no cotidiano da infância e adolescência que talvez de outras formas não existiriam, ensina a criticar, produz posicionamentos e faz enlaces emocionais para além das fronteiras geográficas da escola/parque/comunidade.

No entanto, coisas nem tão desejáveis ocorrem. Como se sente e se percebe um adolescente hoje ao acessar um mundo do trabalho que constantemente diz que só há espaço para vencedores, e que o vencedor é o mais veloz, o mais conectado, o mais empreendedor (com inglês fluente, conhecimento em finanças, e big data) e o mais hábil com suas emoções (suporta a tudo e a todos, com felicidade, gentileza e gratidão)? Como é para um adolescente perceber um mundo do trabalho que gera um imaginário de riqueza aos 20 anos, mas que muitas vezes só trabalhos precarizados, quando existem, consegue oferecer? Penso que essas questões precisam ser feitas para atendermos melhor nossa infância e adolescência hoje.

IHU On-Line – Entre os impactos da Revolução 4.0 no mundo do trabalho está a diminuição de postos de trabalho, através da automação. Que tipo de sofrimento psíquico é gerado nesses desempregados, vítimas da automatização?

Daniel Viana Abs da Cruz – Não estou seguro se há um sofrimento específico da condição de desempregado pela automatização. É uma boa questão para pesquisas futuras. O que acompanhamos é um sofrimento específico da condição de desempregado, fruto da relação de trabalho que existia, do comprometimento do trabalhador com o seu espaço de trabalho e do espaço que o trabalho ocupava e ocupa em sua vida. Na condição de desempregado, como indica Bauman na sua obra “Vidas Desperdiçadas”, o que ocorre é uma condição de redundância: há muitos iguais a mim. E esse esvaziamento do tempo e do sentido do trabalho é agravado quando o trabalhador não sabe as reais condições da sua demissão. Quando não é dito a ele o motivo, seja por qual razão, há um constante sofrimento.

IHU On-Line – Muitos profissionais são tensionados a investir na sua formação e qualificação para assegurar sua permanência no mundo do trabalho. Entretanto, em determinadas áreas, nem essa qualificação garante e empregabilidade (vide o exemplo dos porteiros, vigilantes que são substituídos por sistemas de câmera e circuitos de monitoramento). Entretanto, mesmo que todos os porteiros se qualifiquem para operar essas máquinas, não haverá postos de trabalho para todos. Quais os efeitos psicológicos dessa necessidade de constante formação? E como superar o desânimo de não encontrar emprego mesmo com investimento em qualificação?

Daniel Viana Abs da Cruz – Parece-me que ao trabalhador é imputado o imaginário de que com muitos cursos e qualificações estará seguro em seu emprego. Sou crítico a esse discurso, justamente pelos efeitos de constante insatisfação e frustração gerados, pois baseia-se na falta de algo, que, mesmo que o consiga, não lhe garante o trabalho. No entanto, entendo que o cenário do mundo do trabalho está se alterando radicalmente e deveríamos adotar uma postura um pouco mais positiva: ao invés de buscarmos o que falta de qualificação nos trabalhadores para ocuparem cargos e funções em empresas, incentivar e sustentar o que eles já possuem como habilidades e potencialidades constituídas. O trabalho com comunidades, com cooperativas e associações é um bom espaço para criar e inventivamente sustentar novos espaços de trabalho frente a um mundo digitalizado. Invenção e criação é um potencial da nossa sociedade e pode ser muito mais investido do que a “falta” de algo que, mesmo que se tenha, não garante trabalho.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios para assegurar a saúde e bem-estar de trabalhadores do mundo digital?

Daniel Viana Abs da Cruz – Parece-me que os temas da atualidade são a velocidade, o uso do tempo, a privacidade, a segurança e as relações sociais e afetivas. Esses são desafios presentes no atual mundo digital pois fragilizam as condições humanas de sustentar uma vivência saudável e com bem-estar. Desses todos, o uso do tempo me parece o mais desafiador. Na crença de um mundo cada vez mais veloz, no qual todos correm e competem, e no qual já se nasce em ‘falta’, é desafiador conseguir abrir espaços na vida para ter tempos para criar, inventar, desfrutar, sentir e ainda trabalhar. E isto sem sentir que está em dívida ou em falta com alguém ou com o mundo.

IHU On-Line – A exclusão digital gera que tipo de sofrimento? Por quê? E como superá-lo?

Daniel Viana Abs da Cruz – Qualquer exclusão é geradora de sofrimento. A falta de acesso ao mundo digital representa hoje também o cerceamento de acesso a recursos para a afirmação cidadã, para a participação social, para o acesso à informação. Mas não só. Ter acesso a um mundo que não lhe faz sentido e não o representa também é um problema. A exclusão também se apresenta quando não vejo representados no mundo digital a comunidade, a cor, o jeito, os estilos de vida que povoam o mundo que vivo cotidianamente. A educação é ainda a melhor forma de operar e superar os processos de exclusão, como genialmente Paulo Freire nos indica. Qual a possibilidade de as comunidades e as favelas se verem no digital e existirem no digital? Não seria mais interessante e possível aprender e ter acesso a um mundo que lhe faz sentido e faz referências à sua cultura?

IHU On-Line – O Brasil atual possui um grande número de desempregados e um número ainda maior de desalentados. O que leva ao desalento? Quais os desafios para superar o sofrimento psíquico de desempregados e evitar que caiam nesse desalento?

Daniel Viana Abs da Cruz – Essa é uma questão de pesquisa a ser levada a sério, e de forma abrangente e sistêmica. Estamos com um número elevado de desempregados em desalento, que significa o abandono da procura de emprego. Para ser considerado desempregado, o trabalhador tem que estar fazendo pressão no mercado de trabalho em busca de emprego. Ao desistir da busca, entra na condição de desalento. Nessa condição, agrava-se o que no desemprego já é considerado fator de risco para diferentes desfechos de saúde, como depressão, ansiedade, adições de álcool e drogas etc. É um conjunto de condições que acompanham a situação de desalento, e por isso temos diferentes desafios nessa questão.

Penso que são questões que só podem ter alguma solução com o reinvestimento nas redes de apoio e suporte, para além das políticas de geração de emprego e renda. Não são problemas separados. É sintoma de uma condição de desamparo, não só de acesso ao trabalho, mas também de precarização das políticas de saúde e do desmantelamento das redes de proteção social. Não é uma questão passível de análise a nível individual, como uma fragilidade psíquica de um contingente específico de pessoas. Entendo que é uma fragilidade do tecido social e das políticas públicas que deveriam existir para o sustentar, e que se expressa nesse contingente em profundo desamparo e que é visibilizado pelo indicador de desalento.

Fonte: IHU On-Line
Texto: João Vitor Santos
Data original da publicação: 22/10/2019

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