Imprensa, esfera pública e memória operária: Rio de Janeiro (1880-1920)

Laura Antunes Maciel

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Fonte: Revista de História (São Paulo), São Paulo, n. 175, p. 415-448, jul./dez. 2016.

Resumo: A experiência de trabalhadores com a imprensa na cidade do Rio de Janeiro constitui-se no interior do movimento de ampliação da cultura letrada, dos circuitos de comunicação social e das tensões que marcaram esse processo na passagem do século XIX para o XX. Este artigo mapeia a distribuição espacial desses periódicos e suas redações e analisa a atuação dos mesmos como espaços de organização e afirmação da presença pública dos trabalhadores na cidade. Destaca, no interior dessa imprensa, as iniciativas voltadas para a produção e coleta de testemunhos históricos procurando compreendê-las como estratégias de afirmação de identidades operárias e de legitimação de suas memórias e histórias.

Sumário: A imprensa trabalhadora: motivações e significados | Entre presente e passado: marcos e interpretações históricos | Inscrevendo memórias na cidade | Referências bibliográficas

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Capital do Império e depois da República, principal porto, centro financeiro, político e administrativo do país, o Rio de Janeiro passou por profundas mudanças sociais, econômicas e culturais, mantendo posição de destaque na vida pública brasileira ao longo do século XIX e grande parte do XX. Estudos diversos demonstraram a magnitude dessas alterações, principalmente na composição social da sua população, e a complexidade das relações e práticas sociais que aproximavam e opunham trabalhadores, escravizados ou livres, imigrantes ou nacionais, participantes ou não de movimentos políticos e sociais organizados, atuando em múltiplos ofícios com níveis diversos de especialização. No Rio de Janeiro de 1852 “64,5% dos trabalhadores empregados nos 1.013 estabelecimentos artesanais e industriais (…) eram escravos e os outros 35,5% eram trabalhadores livres, brasileiros e estrangeiros”. Vinte anos mais tarde, quando foi realizado o primeiro censo nacional, os habitantes da cidade somavam 270.000 pessoas e “os escravos eram apenas 10,2% dos artesãos e operários da cidade, enquanto os nacionais livres eram 49,0% e os estrangeiros 40,6%”.

Maior cidade brasileira em 1890, o Distrito Federal possuía 522.651 habitantes concentrando o maior contingente de negros e mulatos de todo o Sudeste brasileiro – cerca de 180 mil ou 34% da população. Reunia também um número expressivo de imigrantes pobres – 155.202 mil estrangeiros dos quais 106.461 eram portugueses –, a metade deles havia chegado à cidade ao longo da década de 1880. Compartilharam experiências das lutas sociais pela abolição da escravidão e a redefinição nas relações de trabalho, das mobilizações em prol do direito à livre organização, criação de formas associativas e espaços de sociabilidade, além das tentativas de unificar ações, reivindicações e protestos de trabalhadores na cidade. Heterogêneos em termos étnicos, culturais e nas suas formas de inserção no mundo do trabalho, os trabalhadores cariocas viviam às voltas com um mercado de trabalho competitivo e disputado, que mantinha desempregados ou subempregados 50% da população economicamente ativa no final dos anos 1880, enfrentavam longas jornadas e baixos salários, além de terem que lidar com a rigidez de normas e regulamentos no trabalho em oficinas e fábricas que visavam cercear sua liberdade de ação e organização.

Não é de estranhar, portanto, os frequentes comentários de lideranças e militantes sobre as dificuldades para construir uma unidade de pensamento e ação política entre os trabalhadores cariocas. Divididos em múltiplas formas de organização e luta, criadas a partir de meados do século XIX, possuíam orientações políticas plurais que sustentavam práticas sindicais “idênticas ou muito semelhantes”, incluindo perspectivas reformistas diversas “desde o socialismo reformista ao mais estreito trade-unionismo, passando por correntes que se arvoravam republicanas sociais ou corporativistas”, até o anarquismo revolucionário. Foi no interior dessas diferenças que os trabalhadores cariocas constituíram sua militância por meio do periodismo, uma experiência social extremamente importante e compartilhada pela maioria das categorias e organizações. Sem dúvida, a propaganda organizada e metódica por meio da imprensa foi uma estratégia de luta prioritária definida por sindicatos, ligas e sociedades de resistência criados por trabalhadores no Rio de Janeiro a partir de meados do século XIX, seguida pela impressão e distribuição de folhetos, cartazes, “as conferências, excursões de propaganda, representações teatrais e criação de bibliotecas”.

Em 1913, representantes das associações reunidos no Segundo Congresso Operário ampliaram o debate em torno da “conveniência da disseminação da imprensa operária”, das formas de sustentação e financiamento de seus jornais e revistas e a admissão, ou não, de jornalistas profissionais “no meio operário”. Considerando que “é pela imprensa que a classe capitalista firma a opinião pública em favor de seus interesses e das suas infames aspirações” e que “todas as [suas] torpes artimanhas e mistificações” [eram] “habilmente alinhavadas por profissionais da pena, que dela fazem comércio”, os delegados participantes naquele congresso decidiram que, “em face desta imprensa comercial”, as sociedades e sindicatos operários e os trabalhadores em geral deveriam se empenhar em criar “jornais de propaganda integralmente emancipadora” além de auxiliar os já existentes, e os que viessem a existir, de modo a formar nos trabalhadores “a verdadeira consciência e sólidas convicções”.

O número e a diversidade de periódicos localizados em arquivos e bibliotecas no Rio de Janeiro oferecem evidências significativas da grande adesão de trabalhadores a essas teses e da importância atribuída à palavra impressa para sua emancipação social e política. O reconhecimento dos periódicos mantidos por associações, partidos e grupos de trabalhadores revela uma significativa diversidade de sujeitos envolvidos com a redação, edição e distribuição de uma profusão de títulos e formatos que, em sua maioria, constituem coleções reduzidas, às vezes em precárias condições de preservação e acesso, sem referências documentais consolidadas. Constituem testemunhos importantes dos projetos e lutas de trabalhadores e, também, de suas opiniões e intervenções sobre as questões sociais mais amplas que os mobilizaram naquelas conjunturas. Gostaria de retomar neste artigo algumas questões em torno das múltiplas experiências de trabalhadores cariocas com o periodismo, um tema frequentemente mencionado, mas pouco analisado. Procuro relativizar análises que, ainda hoje, sustentam a existência de um iletramento generalizado entre os trabalhadores e de sua ausência nas lutas pela expansão da educação e dos circuitos da cultura letrada. Continuamente repetido e reelaborado, o argumento da escassez – ou ausência – de documentos textuais produzidos diretamente por trabalhadores que possam ser transformados em fontes de informações históricas tem justificado e legitimado, ainda hoje, a impossibilidade de construir narrativas e explicações históricas a partir de suas próprias perspectivas e pontos de vista. Justifica-se, dessa forma, a exclusão da maioria da população da história, em particular, daquela parcela que permaneceu à margem de movimentos e lutas sociais, ou que não possuía qualquer vínculo sindical.

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Laura Antunes Maciel é doutora em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP. Professora de História do Brasil no Instituto de História da Universidade Federal Fluminense.

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