Horizonte nebuloso para a economia brasileira

Paulo Guedes com máscara durante coletiva de imprensa em 18/03. Fotografia: Adriano Machado/Reuters

Neste momento o Governo se vê mergulhado numa crise política e institucional sem precedentes, mas vai chegar o tempo de se preocupar com a retomada da economia e ela não vai se efetivar com o que foi formulado até aqui.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 01/06/2020

O Ministro da Economia costuma se manifestar de forma muito assertiva, como quem sabe bem o que está fazendo e como quem consegue enxergar com nitidez os caminhos positivos para a economia brasileira, desde que, é claro, se faça tudo de acordo com a sua visão de mundo, em especial a favor das chamadas reformas. Nos últimos dias, porém, houve uma certa inflexão no discurso, diante da divulgação dos números do PIB do primeiro trimestre do ano e diante do avanço da crise tríplice: sanitária, política e econômica.

Realmente, o ambiente no País é pra lá de conturbado nestas três áreas e fica cada vez mais difícil ter posições firmes, principalmente sobre o futuro, dado que aumentou muito o grau de incerteza. Não se sabe quase nada sobre a evolução da Covid-19, em especial pela ausência de testes em massa e pela falta de coordenação do Governo, e, em função disso, se desconhecem as consequências do isolamento parcial que temos praticado sobre a atividade econômica. Para piorar, o clima de constante conflito político-institucional traz mais instabilidade e só retardará ainda mais os planos de consumo das famílias e os planos de investimento das empresas num momento de retomada que algum dia vai chegar.

As informações sobre o desempenho da economia brasileira no primeiro trimestre de 2020 mostraram um resultado muito ruim e derrubaram a idéia defendida anteriormente pelo Ministro de que estávamos “decolando” no início do ano, quando teríamos sido abatidos pela pandemia. Ora, os efeitos práticos da pandemia na economia brasileira apareceram somente na segunda quinzena de março, portanto nos últimos quinze dias do primeiro trimestre que teve queda de produção de 1,5% em relação a tudo que se produziu no último trimestre de 2019. E lembre-se que os quatro trimestres do ano passado foram todos muito fracos, portanto nem apoiavam a idéia de algo que estivesse “decolando” nem conformavam uma base de comparação estatística robusta para justificar um resultado tão frágil neste início de 2020.

Diante dos números, o Ministro declarou que iria revisá-los para ver se sua hipótese inicial se sustentava ou se em janeiro e fevereiro já estávamos anêmicos. O fato é que estamos bem anêmicos desde 2015 e não havia nada que parecesse mudar este quadro em 2019 nem nada alvissareiro para os próximos anos. Pelo contrário, já há muitas projeções de consultorias nacionais e estrangeiras prevendo crescimento pífio para o Brasil para além da forte recessão de 2020. Só para não perdermos a referência histórica, neste primeiro trimestre de 2020 estamos produzindo 4,8% menos do que produzíamos no primeiro trimestre de 2014, antes do início da última recessão. Portanto, passados seis anos, temos um PIB menor que o de 2014 e tudo ainda vai piorar bastante com os efeitos negativos da pandemia.

Noutro aspecto o discurso do Ministro também foi menos enfático do que o de costume, chegando mesmo a propor uma espécie de trégua nas costumeiras disputas de opinião. Ele se referiu a deixar as pendengas de lado enquanto se atravessa este período especial de turbulência: “se brigar a bordo do barco, o barco naufraga” – lembra a fala do Presidente na reunião ministerial do dia 22 de abril, quando ele se referia ao iceberg. Este foi um apelo ao entendimento ou, pelo menos, à redução da tensão, ainda que somente durante o auge da crise. Está evidente que a desorganização do Governo e a crise política já produziram um dano significativo de perda de credibilidade do País no exterior, o que atrapalha e muito os planos para a economia. A imagem do Brasil está bem deteriorada não só no mercado financeiro internacional e nos organismos multilaterais, como diante das grandes empresas estrangeiras com capacidade de alocar aqui seus recursos produtivos. O estrago causado pela forma como se tem lidado com os recursos naturais, em especial na atividade agropecuária e na Amazônia, deixa o mundo em alerta e deve trazer muitos resultados negativos num futuro próximo, não só na área comercial.

Mesmo que diante de um ambiente tão deteriorado o Ministro se mostre menos assertivo e proponha uma trégua, a dimensão da crise não foi suficiente para uma mudança de visão da economia brasileira e de como é possível organizar uma retomada pós pandemia. Pelo contrário, o discurso sobre o futuro tem sido exatamente o mesmo do ano passado, o de que as (suas) reformas são condição necessária e suficiente para o crescimento. Assim, os projetos do Governo de reforma tributária, administrativa e do mercado de trabalho, além de privatizações em massa e revisão de marcos regulatórios em setores de infraestrutura abririam as portas para um futuro de expansão do emprego e da renda. Voltam também, com frequência, as idéias já derrotadas no legislativo da carteira de trabalho verde amarela e de uma nova CPMF.

O Governo reconhece a crise em sua forma tríplice, mas parece não compreender a mudança do ambiente pós pandemia, que vai impor novos parâmetros para a economia mundial e vai exigir uma velocidade de resposta de crescimento que as reformas não podem oferecer. Cabe perguntar até quando o Presidente, seu círculo político mais próximo e as grandes empresas brasileiras vão se satisfazer com propostas que não vão gerar resultados. A reunião ministerial de 22 de abril era para discutir uma alternativa de ação estatal para fazer a economia “pegar no tranco”, mas o Ministro da Economia a afastou sumariamente porque o investimento estatal, ainda que emergencial, está fora da sua cartilha. Neste momento o Governo se vê mergulhado numa crise política e institucional sem precedentes, mas vai chegar o tempo de se preocupar com a retomada da economia e ela não vai se efetivar com o que foi formulado até aqui.

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *