Greves paralisam Alemanha e Merkel propõe redução do poder dos sindicatos

A chanceler alemã Angela Merkel está propondo restrições ao poder dos sindicatos depois que as greves paralisaram a rede de transporte do país nos últimos meses.

Neste ano, as greves realizadas pelos pilotos da Deutsche Lufthansa AG provocaram o cancelamento de 5.800 voos, ao passo que diversas paralisações dos engenheiros da Deutsche Bahn AG interromperam o funcionamento dos trens. Agora, o governo de Merkel, numa proposta lançada nesta semana, está pressionando para restringir o papel de grupos trabalhistas menores nas negociações salariais.

“Estamos vendo que há uma tendência de pequenos sindicatos fazerem greves com grandes consequências, que afetam muita gente”, disse Merkel. “Tomamos uma decisão” para mudar a lei e limitar o poder coletivo de persuasão a um partido por empresa, disse ela.

Mesmo antes das greves deste ano, que incluíram a paralisação de funcionários da Amazon.com Inc., a agitação trabalhista no país vinha crescendo. Em 2013, a quantidade de empresas afetadas pelo meio de pressão se elevou para 1.384, a maior em duas décadas, de acordo com informações publicadas pela Secretaria Federal de Trabalho. Os sindicatos dizem que estão pressionando para obter ganhos salariais que compensem a estagnação da renda familiar, ao passo que as empresas argumentam que não têm dinheiro para pagar salários mais altos, pois a maior economia da Europa está às voltas com a recessão.

As greves “não ajudam, devido à fraqueza da economia”, disse Thomas Harjes, economista sênior para a Europa na Barclays Plc em Frankfurt. A Alemanha está “numa encruzilhada”, e o direito à greve deve ser exercido de modo proporcional e justo, disse ele.

Envolvimento limitado

O projeto de lei – elaborado pela ministra do Trabalho, Andrea Nahles, social-democrata e membra do sindicato IG Metall – não restringiria as greves como tal. Ao invés disso, sua proposta limitaria as negociações salariais futuras ao maior sindicado por cada grupo de trabalhadores, o que potencialmente restringiria o papel de organizações menores. O projeto também daria maior poder aos tribunais para intervir em disputas trabalhistas.

“Essa intervenção é contrária ao direito de fazer greve e, como tal, é inconstitucional”, disse nesta semana o Vereinigung Cockpit, que representa os pilotos da Lufthansa, a respeito da proposta de lei. Trata-se de “romper o poder dos sindicatos menores”.

O sindicato GDL, que ameaça com mais greves na ferrovia nacional, está metido numa batalha com o sindicato rival EVG para negociar em nome dos maquinistas. Ambos alegam ser o principal representante.

Abuso do direito

O GDL está abusando o direito à greve ao “colocar seus próprios interesses acima dos interesses de todo o pessoal que trabalha na ferrovia”,disse Kerstin Griese, social-democrata e presidente do conselho do comitê trabalhista do Parlamento. O GDL “não está fazendo greve pelo salário, é para disputar o poder com um sindicato rival”.

A quantidade de trabalhadores alemães que participou das paralisações em 2013 foi a maior em cinco anos, ao passo que o número de dias de trabalho perdidos foi o máximo em seis anos, de acordo com dados da Secretaria Federal de Trabalho. Os sindicatos argumentam que os aumentos são necessários porque os salários estão estagnados. Após o ajuste por inflação, a renda familiar não cresceu entre 2006 e 2012, de acordo com a Fundação Hans Böckler, uma organização afiliada à causa trabalhista.

A Lufthansa disse que as propostas do governo são um primeiro passo na direção certa. A companhia aérea foi atingida por diversas interrupções nos três últimos anos, incluindo greves de controladores de voo, funcionários de segurança, bombeiros, funcionários de limpeza e de bagagem.

“A lei da greve não foi criada para que os sindicatos pequenos pressionassem suas possíveis negociações até o limite”. Os maquinistas e os pilotos, que já têm uma situação melhor do que outros colegas que trabalham para a mesma empresa, deveriam poder negociar suas demandas “de modo justo, mas não às custas da população em geral”.

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Fonte: InfoMoney, com Bloomberg
Data original da publicação: 30/10/2014

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