Executivos dos EUA ganham 331 vezes mais que um empregado médio

Uma sondagem divulgada na terceira semana de abril (13/04 a 19/04) pela maior federação sindical dos Estados Unidos conclui que os diretores executivos das principais empresas do país ganharam 331 vezes mais que o trabalhador médio em 2013.

Segundo o banco de dados 2014 Executive PayWatch, da Federação Americana do Trabalho e Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO, das suas siglas em inglês), os executivos de 350 empresas do país ganharam uma média de 11,7 milhões de dólares no ano passado, em comparação com o trabalhador médio, que recebeu 35.293 dólares.

Os mesmos chefes obtiveram, em média, um rendimento 774 vezes maior que os trabalhadores que receberam o salário mínimo federal por hora de 7,25 dólares, ou pouco mais de 15.000 dólares ao ano, segundo o banco de dados.

Outra investigação das principais 100 corporações dos EUA, divulgada pelo The New York Times, concluiu que a compensação média de um diretor dessas empresas no ano passado foi ainda superior: 13,9 milhões de dólares.

Esse relatório, o Equilar 100 CEO Pay Study, conclui que, em conjunto, esses altos executivos ganharam 1.500 milhões de dólares em 2013, um pouco mais que no ano anterior.

Como nos últimos anos, quem mais dinheiro recebeu foi Lawrence Ellison, diretor executivo da Oracle: 78,4 milhões de dólares. Os dois estudos, divulgados na altura em que dezenas de milhões de pessoas apresentam a sua declaração anual de impostos, jogam lenha ao acalorado debate sobre o aumento da desigualdade de rendimentos neste país.

O fenômeno saltou para o primeiro plano com o movimento Ocupy Wall Street de 2011. O presidente Barack Obama descreveu-o como “o desafio que define o nosso tempo”, quando inicia a campanha pelas eleições de meio do mandato.

O presidente tentou dar-lhe resposta aumentando o salário mínimo e ampliando os benefícios para os desempregados e o pagamento de horas extra aos trabalhadores federais, entre outras medidas. O fato de Obama mencionar a desigualdade e os perigos que ela acarreta o fez ganhar um verdadeiro apoio intelectual, e mesmo teológico, nos últimos meses. Numa revisão da sua tradicional ortodoxia neoliberal, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou no mês passado um estudo sobre os efeitos negativos da desigualdade no crescimento económico e na estabilidade política.

A diretora gerente do FMI, Christine Lagarde, advertiu que a desigualdade cria “uma economia da exclusão”, que ameaça “o precioso tecido que mantém unida a nossa sociedade”.

O papa Francisco também se pronunciou reiteradamente sobre os perigos que representa a desigualdade económica, por exemplo, numa reunião privada que no mês passado manteve com Obama no Vaticano.

O relatório “Global Risks” do Fórum Econômico Mundial, publicado em janeiro, sustenta que a marcada desigualdade de rendimentos será o maior risco para a estabilidade mundial na próxima década.

Entretanto, um novo estudo do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, que compara a desigualdade de hoje com a de finais do século XIX, recebe críticas favoráveis em praticamente todas as principais publicações. A obra baseia-se em dados de dezenas de países do Ocidente que remontam a dois séculos.

Piketty argumenta que são necessárias medidas radicais de redistribuição, como um “imposto mundial ao capital”, para reverter as atuais tendências para uma maior desigualdade. O autor esteve em Washington para dissertar diante de expoentes de vários centros de pensamento.

A decisão do Supremo Tribunal de Justiça, que no início deste mês ampliou os limites das contribuições que podem fazer os abastados aos partidos políticos e às campanhas eleitorais, faz temer a muitos que a democracia dos EUA vá a caminho de se converter numa plutocracia.

A diferença de 331 a um entre o que recebem os 350 diretores executivos e o trabalhador médio é coerente com a desigualdade salarial característica da última década.

Esta realidade contrasta drasticamente com a que existia após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Em 1950, por exemplo, os salários dos diretores das corporações eram 20 vezes maiores que os dos trabalhadores.

Em 1980, antes que o governo de Ronald Reagan (1981-1989) começasse a implementar as suas políticas económicas da “magia do mercado”, era preciso multiplicar por 42 o salário de um trabalhador para obter o de um alto executivo, segundo Sarah Anderson, veterana observadora das compensações do Instituto de Estudos Políticos de Washington.

“Não acho que ninguém, exceto, talvez, Larry Ellison, possa dizer que os gerentes de hoje são uma forma evoluída do homo sapiens em comparação com os seus predecessores de há 30 ou 60 anos”, ironizou Bart Naylor, promotor de políticas financeiras na organização Public Citizen.

“Os que criaram a indústria farmacêutica e a de alta tecnologia… eram altos executivos e não drenavam a economia do modo que o fazem os executivos de hoje”, disse à IPS.

“O mecanismo de recompensas aos executivos está arruinada”, acrescentou.

O que enfurece os sindicalistas é que muitas destas empresas sustentam que não podem se dar o luxo de aumentar os salários aos seus trabalhadores. “A Pay Watch chama a atenção sobre o enlouquecido nível de compensações dos diretores executivos, enquanto os trabalhadores que criam esses ganhos não conseguem receber o suficiente para cobrir as suas despesas básicas”, disse o presidente da AFL-CIO, Richard Trumka.

“Vejam os benefícios pela reforma do presidente da Yum Brands, dona da KFC, da Taco Bell e da Pizza Hut: mais de 232 milhões de dólares, com impostos diferidos”, disse Anderson.

“É obsceno para uma corporação que emprega mão de obra barata”, acrescentou.

Atualmente, o Congresso legislativo considera várias medidas para abordar o assunto, ainda que a maioria delas conte com a oposição dos republicanos, que são maioria na Câmara de Representantes.

Não obstante, um projeto tributário apresentado pelo presidente republicano do poderoso Comitê de Meios e Arbítrios dessa câmara pode pôr fim a uma clara injustiça, a que exime os executivos de pagar impostos pelos “honorários por desempenho” que recebem quando cumprem certas metas fixadas pela direção da empresa.

Além disso, a Comissão Nacional de Valores começa a aplicar uma norma pendente desde há tempo que exigirá às corporações que cotadas em bolsa que revelem os rendimentos dos seus diretores executivos, comparados aos seus empregados de tempo completo, parcial, temporário, tanto norte-americanos como estrangeiros.

[divide]

Fonte: Esquerda.Net, com IPS
Texto: Jim Lobe
Tradução: Luis Leiria
Data original da publicação: 18/04/2014

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *