Estudo do IE-Unicamp compara experiências econômicas internacionais no combate à crise

Imagem: Lightspring/Shutterstock

Enquanto no Brasil as políticas têm caráter difuso e são em volume insuficiente, na Alemanha, Argentina, França, Itália e Reino Unido, por exemplo, houve proibição de demissões e/ou os governos passaram a cobrir parte significativa do salário dos trabalhadores

Alex Palludeto, Newton Silva, Renan Araujo, Roberto Borghi e Vítor Alves

Fonte: Brasil Debate
Data original da publicação: 03/06/2020

Em estudo intitulado Política econômica em tempos de pandemia: experiências internacionais selecionadas, pesquisadores do Centro de Estudos de Relações Econômicas Internacionais (CERI), do Instituto de Economia da Unicamp, abordam as medidas econômicas já tomadas por alguns países no intuito de mitigar os efeitos econômicos negativos provocados pela pandemia da covid-19.

A pandemia atualmente em curso implica crises de duas naturezas: uma crise de saúde pública e uma crise econômica, ambas de proporções igualmente graves e sem paralelos na história mundial recente. Assim sendo, os autores avaliam que o enfrentamento de ambas as crises requer, fundamentalmente, a ação imediata dos Estados Nacionais, por serem os únicos capazes de promover e orientar medidas sanitárias e econômicas com a amplitude necessária para a resolução ou suavização dos impactos dessas crises.

No que se refere em particular à atual crise econômica, argumenta-se que esta pode ser dividida em dois períodos: um primeiro momento, com duração estimada entre 3 e 6 meses, correspondendo à fase mais aguda de transmissão do novo coronavírus, o que requer a tomada de medidas de distanciamento social e, consequentemente, a paralisação de uma série de atividades econômicas; e um segundo momento, de 6 meses a 2 anos, no qual, uma vez tendo-se conseguido conter a disseminação do vírus, o distanciamento social poderá ser gradativamente suspenso, e as atividades econômicas poderão ser gradualmente retomadas.

O estudo também aponta que em cada um desses prazos temporais um tipo específico de atuação econômica dos Estados faz-se necessário: no primeiro deles, os governos precisam adotar medidas emergenciais, visando, entre outras coisas, a garantir o poder aquisitivo das pessoas, a impedir a falência das empresas e a promover a estabilidade dos sistemas financeiros; já no segundo, os países precisarão contar com medidas para a recuperação econômica, a fim de que seus níveis de produção (PIB) e emprego retornem aos patamares desejáveis.

Atualmente, embora os países do mundo estejam em fases distintas da pandemia, ainda se encontram predominantemente no primeiro desses momentos. Assim sendo, são as políticas já adotadas nesse contexto que o estudo aborda, apresentando os casos de nove diferentes países: China, Estados Unidos, Espanha, França, Reino Unido, Itália, Alemanha, Argentina e Brasil.

Nesse sentido, mostra-se, por exemplo, que alguns países proibiram demissões e/ou passaram a cobrir parte significativa dos salários dos trabalhadores, tais como Alemanha, Argentina, França, Itália e Reino Unido; além disso, parte expressiva das políticas de proteção às empresas foi direcionada às pequenas e médias empresas, como se pode observar nos casos de Estados Unidos e China; por fim, também houve políticas de garantia de liquidez por meio dos bancos centrais, a exemplo do quantitative easing praticado por Estados Unidos, países da Zona do Euro e Reino Unido. Em alguns casos, o volume de recursos disponibilizados ultrapassa 15% dos PIBs dos países.

Os autores do estudo consideram que no caso brasileiro, apesar das medidas já anunciadas, as políticas assumem, em geral, um caráter difuso e, muitas vezes, em volume insuficiente diante das necessidades existentes no país. Exemplos disso são os apelos feitos pelo presidente Jair Bolsonaro para a suspensão das medidas de distanciamento social tomadas por estados e municípios num momento em que os números de casos e de mortes por covid-19 ainda são crescentes, além da dificuldade que o governo apresenta em pagar para o conjunto dos beneficiários o auxílio emergencial de 600 reais já aprovado.

Os autores também entendem como sendo falsa a dicotomia “salvar a saúde ou salvar a economia”, a qual é bastante difundida no debate corrente. Ao contrário disso, ponderam que tanto a saúde como a economia podem e devem ser salvas e que os enfrentamentos à crise de saúde pública e à crise econômica não são objetivos excludentes, mas complementares.

O distanciamento social adotado no início do processo de contágio e de maneira rigorosa, aliado a medidas econômicas de suporte a trabalhadores e empresas, pode assegurar que um menor número de pessoas venha a se infectar e morrer, ao passo que permite que as atividades econômicas sejam retomadas mais rapidamente.

Por fim, os autores enfatizam a necessidade de reflexões sobre as políticas futuras, já que a ação dos Estados Nacionais continuará sendo necessária no processo posterior de retomada econômica e de fortalecimento dos sistemas de proteção social. Nesse sentido, condenam a defesa que alguns economistas têm feito da adoção futura de medidas de austeridade fiscal, entendendo que estas poderão ter o poder de agravar e aprofundar a crise econômica.

O estudo completo encontra-se disponível para download aqui.

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