Esta pesquisa analisou se trabalhar a mais compensa para a carreira

Esta pesquisa analisou se trabalhar a mais compensa para a carreira
Trabalhadores em escritório, Londres, 2017. Fotografia: Toby Melville/Reuters

Trabalhar muito intensamente, ou trabalhar além da jornada, tende a fazer com que os funcionários fiquem mais cansados, e com uma qualidade de vida menor, o que pode piorar o resultado de seu trabalho.

Por outro lado, submeter-se a essas condições pode ter o efeito positivo de fazer com que o funcionário seja bem visto pelo empregador, obtendo recompensas.

Essas são as premissas do estudo “Implicações do esforço de trabalho e arbítrio para o bem-estar do trabalhador e resultados na carreira: uma pesquisa integrativa“, realizado por pesquisadores da Europe Business School e da City University of London. Eles buscaram identificar se vale mesmo a pena para o funcionário se submeter ao trabalho excessivo.

A análise foi feita a partir de questionários respondidos por 51.895 trabalhadores de 36 países europeus – ou seja, suas conclusões dizem respeito principalmente à realidade daquele continente. Segundo o jornal britânico Financial Times, a pesquisa está pronta para publicação na revista acadêmica Industrial and Labor Relations Review. O working paper coloca a questão da seguinte maneira:

“Trabalhar horas extras prolonga a exposição do trabalhador a fatores estressantes presentes no ambiente de trabalho e, por reduzir os períodos em que um trabalhador pode descansar, diminui sua habilidade de se recuperar entre os dias de trabalho. A intensidade de trabalho, por outro lado, reduz ou elimina os intervalos entre as tarefas durante os quais o corpo ou a mente podem descansar, reduzindo dessa forma a habilidade do funcionário de se recuperar durante o dia de trabalho”

Pesquisa ‘Implicações do esforço de trabalho e arbítrio para o bem-estar do trabalhador e resultados na carreira: uma pesquisa integrativa

O artigo cita outras pesquisas segundo as quais essas práticas têm um efeito negativo sobre a produtividade do trabalhador, que chega a ficar mais propenso a erros ou acidentes, o que pode prejudicar sua carreira.

Por outro lado, afirma o estudo, o trabalho excessivo pode fazer com que o funcionário pareça mais diligente aos olhos do empregador -mesmo se o resultado do trabalho for, de fato, pior. E isso pode levar a recompensas na carreira, como promoções e remuneração maior.

A pesquisa afirma que há, portanto, tanto motivos para acreditar que um esforço excessivo de trabalho seria negativo para a carreira, quanto motivos para acreditar que ele seria positivo. O objetivo foi determinar qual dos dois resultados é mais comum entre os trabalhadores europeus.

E a conclusão foi de que, na maioria das vezes, o excesso de trabalho corresponde a conquistas de carreira menores no que diz respeito a estabilidade, reconhecimento e perspectiva de crescimento.

A pesquisa também buscou analisar se esses resultados seriam influenciados pelo grau de arbítrio do funcionário sobre a própria rotina. No caso, “arbítrio” (“discretion”, no original em inglês) diz respeito à “liberdade de decidir como e onde levar o trabalho a cabo”, optando por trabalhar em casa, por exemplo. A conclusão se manteve – trabalhar em excesso, mesmo com flexibilidade, não foi bom para a carreira.

Os resultados devem, no entanto, ser observados com cautela: os dados sobre o grau de esforço, assim como sucesso, no trabalho foram obtidos a partir de autodeclaração sobre como o próprio funcionário enxerga sua situação. Não por um acompanhamento objetivo ao longo do tempo sobre quem começou a ganhar mais, foi promovido ou se manteve em uma carreira estável.

O próprio trabalho conclui afirmando que também é possível que os resultados tenham sido influenciados pelo fato de que trabalhadores com “um potencial de carreira limitado podem experienciar maior pressão para trabalhar duro, enquanto aqueles com maior potencial podem receber discrição mais prontamente”.

Ou seja, é possível que o excesso de trabalho não seja uma causa da limitação da carreira, mas um sinal de que os trabalhadores têm um potencial de carreira menor, por vários fatores, como nível de escolaridade ou a forma como são encarados pelo empregador.

Mesmo assim, o estudo ressalta que não foi capaz de obter dados indicando que esforço extremo se paga, e usa os resultados como argumento para questionar políticas públicas.

Como a pesquisa foi feita

O trabalho foi executado a partir da análise de microdados obtidos pelas duas últimas “Pesquisas de condições de trabalho europeias”, realizadas em 2010 e 2015 pela Eurofound, uma agência de pesquisa da União Europeia.

Ela se baseia, por sua vez, em questionários respondidos por 51.895 trabalhadores de 36 países europeus. Isso inclui desde aqueles com cargos de comando e salários altos àqueles com cargos e salários menores, de todos os setores econômicos.

Os questionários mediram bem estar do trabalhador, conquistas relacionadas à carreira, nível de esforço no trabalho e arbítrio da seguinte maneira:

Bem estar

Trabalhadores foram questionados sobre a frequência com que se sentiam estressados, em uma escala de cinco pontos -0 para nunca e 4 para sempre. Também sobre se haviam sentido ou não fatiga em um período de 12 meses. E instados a preencher uma escala de quatro pontos para indicar seu nível de satisfação com o trabalho -0 para nada satisfeito e 3 para muito satisfeito.

Carreira

As conquistas na carreira também foram medidas, com uma escala de 5 pontos em que o trabalhador afirmava em que grau concordava com a assertiva de que seu empregador oferecia bons prospectos para que avançasse.

A variável ‘segurança’ foi medida com outra escala de cinco pontos sobre o quanto concordavam com a assertiva de que poderiam perder seu emprego nos próximos seis meses. Outra escala do tipo foi usada para medir o quanto se consideravam reconhecidos pelo seu trabalho.

Nível de esforço

Os funcionários foram questionados sobre a frequência com que precisavam empregar horas de seu tempo livre no trabalho, também usando uma escala – 0 para nunca e 4 para diariamente.

A intensidade do esforço foi medida a partir de uma escala em que respondiam quando precisavam trabalhar intensamente, com 0 representando nunca e 6 representando o tempo todo.

Arbítrio

Os trabalhadores foram questionados sobre se tinham ou não arbítrio para escolher a ordem das tarefas, seus métodos de trabalho e a velocidade da execução do trabalho. O grau de arbítrio sobre o cronograma de trabalho foi medido a partir de uma pergunta sobre se os trabalhadores poderiam determinar o horário de trabalho e os momentos em que podem realizar pausas.

Conclusões sobre esforço, arbítrio e carreira

O trabalho identificou que níveis maiores de esforço de trabalho se relacionam com um bem-estar menor. E também com perspectivas de carreira inferiores, na maioria dos casos.

Isso vale inclusive para as ocupações de nível mais alto em que, segundo o trabalho, “a ambiguidade em torno da avaliação da performance fortalece os resultados do esforço de trabalho visível, de uma forma plausível”.

Ou seja, os pesquisadores avaliam que, nesses cargos o resultado do trabalho é mais dificilmente mensurável. Por isso, trabalhar horas extras não remuneradas, ou trabalhar de forma intensa, podem ser meios especialmente efetivos de sinalizar compromisso e obter conquistas na carreira. O que, no entanto, não acontece no geral, segundo os resultados obtidos.

O artigo ressalta que trabalho intenso tende a corresponder a um nível ainda maior de resultados negativos em relação a conquistas de carreira do que a prática de trabalhar muitas horas extras. “Esses resultados se alinham a evidências anteriores sobre a relação negativa entre esforço de trabalho e bem estar do trabalhador [que pode levar a resultados piores].”

O segundo objetivo do estudo era avaliar se os resultados se alterariam nos casos em que os trabalhadores têm mais arbítrio sobre a forma como executam seu trabalho.

Os resultados indicam que o arbítrio atenua os resultados negativos do excesso de trabalho. Mesmo assim, o arbítrio foi incapaz de anular o efeito negativo relacionado a longas jornadas e a trabalho excessivamente intenso.

O desafio para as políticas públicas

A pesquisa reconhece que não é possível, apenas com os dados obtidos, determinar uma relação de causalidade entre trabalhar mais intensamente, e mais horas, e obter conquistas de carreira menores. Mas conclui que tampouco é impossível dizer que uma correlação do tipo não ocorra, e que não foram encontrados sinais de que o trabalho em excesso compensa.

Isso tem uma série de implicações, afirma o estudo. Ele destaca que governos de diversos países implementam limites para o número de horas trabalhadas.

E que países como França e Itália garantem a trabalhadores o direito de se desconectar do trabalho enquanto estão em casa, não respondendo a ligações ou e-mails, por exemplo. Na avaliação dos pesquisadores, é necessário dar um passo além, e pensar em medidas que limitem a intensidade do trabalho executado.

“Frequentemente, trabalhadores reclamam, assim como se gabam, do esforço excessivo de trabalho, talvez porque aceitem um bem-estar menor antecipando progresso na carreira. Nossos resultados podem ser um indício de que isso pode não se materializar. Se trabalhar horas além da jornada e a intensidade de trabalho representam problemas não só para o bem-estar, mas para conquistas de carreira, então empregados precisam se tornar mais cientes das limitações resultantes do esforço de trabalho excessivo”

Pesquisa ‘Implicações do esforço de trabalho e arbítrio para o bem-estar do trabalhador e resultados na carreira: uma pesquisa integrativa

Fonte: Nexo
Texto: André Cabette Fábio
Data original da publicação: 07/08/2018

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