Entrevista: Brasil atingiu pior nível de investimento em 54 anos

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Em entrevista ao Jornal de Negócios, de Portugal, um influente veículo especializado em economia, Renildo Souza, professor da Universidade Federal da Bahia, militante destacado do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), falou sobre a conjuntura brasileira.

Ele diz que Bolsonaro vê os seus índices de aprovação cair ao mesmo ritmo que a economia enfraquece e o desemprego se agrava. Apesar das divisões no governo e no Congresso, Renildo Souza diz, nesta entrevista por escrito, que o apoio dos militares está de pedra e cal. “Os seu arroubos autoritários defrontam-se com o enfraquecimento político do governo”, afirma. “Mas ele não renunciará nem tem força para fazer um golpe de Estado.” A entrevista foi realizada por Manuel Esteves.

Independentemente de se concordar ou não com as suas ideias, que balanço é possível fazer dos primeiros seis meses de Bolsonaro?

As promessas de campanha do presidente não eram propriamente programáticas. Não há um governo normal para o cotejamento entre promessas, expectativas e realizações. Na campanha eleitoral, sua mensagem principal foi constituída pelos temas do combate à corrupção e à criminalidade, além do conservadorismo sobre moral, comportamento e costumes. O alvo do discurso era e continua sendo a esquerda, o PT e, particularmente, o ex-presidente Lula. Depois de eleito, passou a enfatizar, apesar do tom genérico, as propostas de reforma da previdência, privatizações e liberalização do mercado de trabalho, abolição das regras sobre a proteção do meio ambiente, abertura das terras indígenas para a exploração econômica.

Apesar da eleição sem programa claro, Bolsonaro, na campanha, prometeu, por exemplo, zerar o défice primário em 2019. As projeções hoje são de défice de R$139 bilhões para 2019, um nível maior do que os R$ 120,3 bilhões de 2018. O chamado Pacote Anticrime, elaborado pelo ministro da Justiça e Segurança Sérgio Moro, já foi considerada, pela comunidade jurídica, uma violação da legalidade penal e processual, além de afronta à Constituição e por isso já foi rejeitada por uma Comissão do Senado. As outras grandes propostas de Bolsonaro foram os decretos de armamento, também rejeitados pelo Congresso. A reforma da Previdência terminou centralizando todas as atenções.

De forma resumida, conseguiria elencar a grande vitória e grande derrota de Bolsonaro nestes seis meses?

A grande vitória não é propriamente do governo. A reforma da previdência está efetivamente avançando no Congresso, sob o patrocínio do centro e do centro-direita. A proposta do governo tinha como principal eixo a implantação do regime de capitalização. Os deputados, na Comissão Especial, suprimiram a proposta de capitalização, as duras restrições para a aposentadoria dos trabalhadores rurais e aboliram o esvaziamento do auxílio para idosos em situação de vulnerabilidade socioeconômica, dentre outras mudanças. A grande derrota do governo é uma composição entre o contínuo e rápido movimento de sua desaprovação na população e a persistente recessão e elevado desemprego.

Há uma degradação da democracia no Brasil?

Os arroubos autoritários de Bolsonaro defrontam-se com o franco enfraquecimento político do seu governo, em apenas seis meses. Mas ele não renunciará. Nem tem força para perpetrar um golpe de Estado. E a possibilidade de impeachment, que voltou a ser comentada por rele próprio, não tem respaldo nos meios políticos, ainda é uma incógnita.

Qual foi o impacto da divulgação de mensagens trocadas entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores da operação Lava-Jato?

É o mais importante e bombástico fato novo na política brasileira. Esta bomba deverá produzir três efeitos:1.aniquilar a força política e social do ministro Sérgio Moro; 2. Esmaecer a bandeira anticorrupção desfraldada pelo presidente e contraditar seu ataque ao PT; e 3. colocar em grandes dificuldades o Supremo Tribunal Federal, que deu cobertura aos desmandos e crimes da Lava-Jato.

Existe o risco de uma ruptura entre militares e Bolsonaro? Ou pelo contrário, estes podem assumir ainda mais poder dentro do governo?

Nem na ditadura militar, o governo teve tantos ministros e autoridades de alto escalão oriundos das Forças Armadas, como agora se apresenta o governo Bolsonaro. Por que isso? Aqui há uma comunhão de visões e interesses conservadores. O presidente depende do apoio dos militares para defender o governo tanto contra tentativas de sua deposição, quanto para intimidar a oposição e as instituições. Não é razoável esperar uma ruptura entre Bolsonaro e os militares, a não ser talvez que ocorra, no futuro, um desfecho contundente no caso de corrupção de Flávio Bolsonaro. O presidente já deixou claro que fica com o filho e que não entrega a cadeira presidencial para o vice, o general Humberto (Hamilton) Mourão.

De que setores econômicos vem maior apoio a Bolsonaro?

O mercado financeiro e o agronegócio são os principais apoios de Bolsonaro dentre os setores econômicos.

A economia ganhou ou perdeu com a chegada de Bolsonaro ao poder?

A economia continua perdendo. A taxa de desemprego é de 12,5%. Em dezembro de 2018, era 11,6%. O Banco Central divulgou os eu Relatório Trimestral de Inflação com projeção de 0,8% para o crescimento do PIB no corrente ano. Na pesquisa Focus do Banco Central, divulgada em 31 de dezembro de 2018, o mercado projetou o crescimento econômico de 2,55% em 2019. O investimento atingiu o menor peso no PIB(15,5%) em 54 anos e a perspectiva é de piora. O país conta com 80 mil empresas fechadas e destruição de 411 mil postos de trabalho. Os investimentos em infraestrutura são hoje apenas 1,7% do PIB. O otimismo transformou-se em decepção. Portanto, o problema do governo Bolsonaro é mais complexo do que as suas gritantes falhas de governabilidade e articulação política.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_empty_space][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]Fonte: Vermelho
Data original da publicação: 01/07/2019[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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