Empresas com discurso pró diversidade também discriminam minorias

Quando o assunto é diversidade nas empresas, a distância entre discurso e prática ainda é grande. Um estudo realizado nos Estados Unidos aponta que mesmo companhias que se posicionam como inclusivas discriminam candidatos de minorias raciais durante o processo de recrutamento.

Uma série de pesquisas de professores das universidades de Toronto e Stanford, descritos em um artigo publicado na “Administrative Science Quarterly Journal”, buscou identificar se há discriminação racial durante a seleção de candidatos para vagas de emprego. Os professores enviaram currículos falsos, baseados em documentos reais de profissionais recém formados na universidade, para 1.600 vagas de emprego anunciadas em grandes cidades americanas.

Em uma parcela deles, os currículos continham sinais de que o profissional era negro ou asiático – como nomes e sobrenomes considerados tradicionais e participação em organizações e grupos voltados para estudantes de determinadas raças. Nos outros currículos, a experiência profissional era a mesma, mas essas informações foram modificadas ou omitidas.

Metade das vagas selecionadas pelos professores eram de empresas que apresentaram discurso pró diversidade na sua comunicação institucional ou no próprio anúncio de vaga. Uma prática comum nos EUA é incluir, em anúncios de emprego, declarações de que a empresa “promove a diversidade e está comprometida com a construção de uma força de trabalho inclusiva” ou até que “minorias são encorajadas a se candidatar”.

No geral, no entanto, os currículos que indicavam a raça do candidato receberam menos respostas do que aqueles que omitiam essas informações. Currículos de profissionais negros receberam 2,5 vezes menos respostas do que o mesmo currículo considerado “neutro” do ponto de vista racial. No caso de profissionais com sobrenome asiático, a diferença foi um pouco menor.

Os professores desenvolveram o experimento após outras duas pesquisas com estudantes universitários de minorias raciais, na qual eles detalharam o que os professores chamam de “embranquecimento” dos currículos — a prática de os próprios candidatos omitirem informações que remetam à raça no material. Mais de um terço dos estudantes entrevistados disse que já agiu dessa forma, e dois terços disseram que conhecem pessoas — no geral, amigos ou parentes — que o fizeram. No entanto, os participantes disseram que não costumam esconder essas informações, ou fazem isso em menos escala, quando a empresa para a qual eles estão se candidatando aparenta ter estratégias de diversidade e inclusão.

Para a professora da Universidade de Toronto e autora do estudo Sonia Kang, as empresas que quiserem agir para impedir a discriminação precisam fazer mais do que apenas dizer que valorizam a diversidade. “Essas declarações criam uma falsa sensação de segurança, gerando uma ilusão de diversidade e prejudicando ainda mais os candidatos de minorias”, diz.

Nos EUA, outro estudo recente identificou que currículos de profissionais com deficiência também recebem menos respostas em processos seletivos quando essa informação está incluída.

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Fonte: Valor Econômico
Texto: Letícia Arcoverde
Data original da publicação: 29/03/2016

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