Empregos verdes e sustentabilidade: tendências e desafios no Brasil

Valério Vitor Bonelli
Noêmia Lazzareschi

Fonte: Revista de Ciências Sociais, Fortaleza, v. 46, n. 1, p. 221-242, jan./jun. 2015.

Resumo: Nas últimas décadas, as conferências internacionais incorporaram a questão da sustentabilidade nos debates sobre desenvolvimento socioeconômico. Governos, universidades, agências multilaterais e empresas de consultoria técnica introduziram, em escala e extensão crescentes, considerações e propostas que refletem a preocupação com a preservação ambiental – “preocupação verde” – nos projetos de desenvolvimento e a democratização dos processos de tomada de decisão. Este artigo procura demonstrar que o compartilhamento de tecnologias e a adoção de métodos e técnicas de gestão ambiental permitem preservar a natureza e, ao mesmo tempo, gerar e manter milhões de empregos, os chamados empregos verdes, desmistificando a crença de que a sustentabilidade inibe o crescimento econômico e, em consequência, as oportunidades de alocação da força de trabalho nos mercados de trabalho.

Sumário: Introdução | Empregos verdes: classificação, crescimento e desenvolvimento | A geração de empregos verdes | Perfil dos empregos verdes no Brasil | Economia verde | Considerações finais | Bibliografia

Introdução

Se o século XX deve ser considerado o século do forte assalariamento da classe proletária graças aos milhões de empregos gerados pelo taylorismo/fordismo – empregos com alguma proteção do Estado devido à predominância das políticas de intervenção na economia, em quase todos os países industrializados do Ocidente –, o século XXI parece ser o século da forte redução do número de empregos e do surgimento de novas e precárias relações de trabalho, em virtude da difusão da nova lógica empresarial cujo fundamento é a diminuição dos custos de produção, com a utilização de sofisticadas tecnologias e uma verdadeira revolução nas técnicas de gerenciamento do processo de trabalho que intensificam o trabalho dos trabalhadores ainda necessários, e reduzem, drasticamente, novas contratações. Além disso, tal lógica organizacional desestrutura os mercados de trabalho, com a formação de redes empresariais nacionais e internacionais de produção, de distribuição, de clientes e de cooperação tecnológica, graças às tecnologias de informação e de comunicação. Estas transformam os processos de produção, com a introdução de computadores que permitem a flexibilidade dos processos de trabalho e dos padrões de consumo e, ao mesmo tempo, impõem a flexibilidade das relações de trabalho, expressa nos contratos temporários, na jornada parcial, no banco de horas, na terceirização, etc.

Assim, o século XXI defronta-se com o agravamento da situação dos trabalhadores no mercado de trabalho que, reestruturado, tem destruído muito mais do que gerado e mantido empregos para a grande parte da força de trabalho disponível, além de ter flexibilizado e, consequentemente, precarizado as relações de trabalho; depara-se, também, com o agravamento de questões relativas à preservação da natureza, diante da dispersão da produção industrial pelo mundo, num processo de exploração, quase sempre irresponsável, dos recursos naturais que poderá significar a impossibilidade de satisfação das necessidades das futuras gerações.

São duas questões intimamente relacionadas: a geração e a manutenção de empregos dependem do crescimento econômico, e este depende da capacidade de investimentos produtivos e da conquista de mercados sempre maiores, isto é, do aumento do consumo, que, por sua vez, costuma degradar o meio ambiente.

Nesse contexto, nos perguntamos: como preservar a natureza e, ao mesmo tempo, gerar e manter empregos? Eis a questão que desafia a humanidade na contemporaneidade.

As respostas a essa questão nos remetem aos conceitos de sustentabilidade e de responsabilidade social e se referem à elaboração de métodos e técnicas de gestão ambiental para reduzir e controlar os impactos das ações empresariais sobre o meio ambiente, desde a fase de concepção dos projetos até a eliminação efetiva dos resíduos por elas gerados, como também à criação dos chamados empregos verdes, duas iniciativas de resultados economicamente viáveis e socialmente necessários.

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Valério Vitor Bonelli é Doutor em Ciências sociais, pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Mestre em Controladoria e contabilidade estratégica, pela Fundação Álvares Penteado / Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (FECAP / FACESP). Professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Noêmia Lazzareschi é Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); Mestre em Ciências Sociais do Trabalho pelo Institut Supérieur du Travail da Université Catholique de Louvain (Bélgica).

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