Eleições no México: Andrés López Obrador e os sindicatos

Eleições no México: Andrés López Obrador e os sindicatos
Fotografia: Tetra Images/Getty Images

José Othón Quiroz Trejo

Tradução: DMT

Antes de iniciar o assunto, devo esclarecer que o México é um caso singular na América Latina em relação ao papel político dos sindicatos. O regime corporativo do Partido Revolucionario Institucional (PRI), que instituiu e depois aniquilou as demandas mais radicais da Revolução Mexicana, durante oito décadas se encarregou de acabar com qualquer tentativa de sindicalismo independente do Estado e do próprio PRI. Desde a década de 20 do século passado, atingiu a anarcosindicalista Central General de Trabajadores, encabeçada por operários têxteis e que agrupava o proletariado mais combativo da época. Para tal, a fração moderada da revolução chegou ao poder ao fim de um longo processo de lutas armadas internas (1910-1920); liderada por Álvaro Obregón e Plutarco Elias Calles, se aliou à Confederación Regional Obrero Revolucionaria, liderada por Luis N. Morones, pai do “charrismo” sindical – fenômeno semelhante ao “peleguismo” nos sindicatos brasileiros -, quem mais adiante foi premiado com a Secretaria de Indústria do governo seguinte.

Nos anos de 1958 e 1959, renasceu a inquietude operária de romper o pacto corporativo com o Estado e com as organizações empresariais. Os trabalhadores dos sindicatos nacionais de indústria, em sua maioria de empresas estatais e paraestatais, voltaram a tentar se tornar independentes, agora sob o comando dos Ferroviários. A greve foi reprimida pelo exército e encarceraram seu principal dirigente: Demetrio Vallejo. Mais adiante, durante 1968, o movimento estudantil teve entre suas petições democrático-radicais a liberdade de todos os presos políticos, entre os quais se encontrava Vallejo.

Também nesse ano se iniciou uma longa onda de greves e movimentos campesinos, urbanos-populares, estudantis e operários, estes últimos havendo conseguido as bandeiras dos ferroviários e reiniciando as lutas por um sindicalismo independente e democrático. O movimento foi de 1968 a 1983 e, novamente, Estado, empresários e dirigentes das centrais corporativas arremeteram contra o sindicalismo dissidente. Ao final da batalha, somente permaneceram vivos alguns sindicatos independentes, frações democráticas dentro dos sindicatos nacionais, como a Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE) e setores do sindicalismo corporativo que, frente à voracidade dos empresários neoliberais, voltaram a defender os direitos dos trabalhadores, como o Sindicato Nacional de Trabajadores Minero Metalúrgicos y Similares de la República Mexicana (SNTMMSRM).

Durante esse período também se reagruparam alguns sindicatos com posições confrontadas ao sindicalismo corporativista tradicional, como a Unión Nacional de Trabajadores (UNT) e o independente e democrático Frente Auténtico del Trabajo (FAT).

Feita essa introdução como contexto histórico-político, é possível entender e valorizar a relação explícita do SNTMMSRM e seu dirigente Napoleón Gómez Urrutia, da CNTE, da FAT e, ainda que não se expresse de modo aberto, de sindicatos da UNT com Andrés López Obrador (AMLO), candidato da coalizão encabeçada pelo partido Movimiento de Renovación Nacional (MORENA). Cada uma dessas alianças ou apoios mútuos tem suas razões particulares. No caso do SNTMMSRM, seu dirigente teve que sair do país devido ao pedido por um suposto déficit nas finanças do sindicato mineiro. A demanda fez com que houvesse uma facção opositora ao dirigente. O Secretário do Trabalho no governo do direitista Partido Acción Nacional (PAN) se posicionou contra o dirigente e do lado do empresário Jorge Larrea, contrariado pelas greves em minas de sua propriedade e pelos choques com o sindicato e familiares dos mortos em uma explosão na mineradora Pasta de Conchos, propriedade do empresário citado, onde foram sepultados 65 trabalhadores. O dirigente mineiro, autoexilado no Canadá, hoje é candidato a senador pelo partido MORENA.

A CNTE representa o setor de trabalhadores que recentemente se opôs à reforma educativa do PRI, a qual, como alguns analistas e pesquisadores apontaram, foi mais uma reforma trabalhista com o objetivo de desarticular as seções que formam parte dessa fração crítica dentro do sindicato nacional. Por outro lado, a radicalidade das ações desses professores tem muito a ver com a pobreza dos estados onde há mais presença da CNTE e que são: Oaxaca, Guerrero, Michoacán e Chiapas. O candidato presidencial prometeu que, se ganhar as eleições, sugerirá que se retroceda a reforma.

A relação entre o sindicato mineiro, a CNTE e AMLO é polêmica e politicamente incorreta para o regime neoliberal e seus poucos beneficiários. O sindicato mineiro entrou em vários conflitos com um dos seis homens mais ricos do México e do mundo, o citado Germán Larrea, que enriqueceu com as concessões mineiras que os governos neoliberais lhe outorgaram. O mesmo ocorre com outro multimilionário igualmente conservador, Alberto Bailléres, quem, fazendo eco a um comunicado de Larrea, se uniu ao chamado aos trabalhadores de suas respectivas empresas para que não votassem pelo AMLO.

Esses enfrentamentos demonstram que, apesar das cortinas de fumaça dos intelectuais e meios orgânicos do sistema, em países como os nossos, os conflitos de classe e a exploração extrema persistem; ainda que soterrados, junto à violência propiciada pela errônea estratégia para combater o narcotráfico, fazem parte do lado obscuro da modernidade neoliberal. O setor empresarial que está contra a AMLO é parte daquele que embolsa 116 bilhões de dólares anualmente, “isso significa que as 10 pessoas mais ricas do México acumulam a mesma riqueza que o 50% mais pobre do país”, segundo a Oxfam. Essas desproporcionadas riqueza empresariais contrastam com a pobreza extrema de 62 milhões de habitantes, em uma população total de 121 milhões.

Esse é o panorama de um país submerso no crime organizado, que em determinados momentos se vira contra jovens divergentes, como aconteceu com o desaparecimento de 43 estudantes de magistério em Guerrero.

Face a uma esquerda pulverizada, flutuante entre o EZLN – que tentou, sem êxito, lançar uma mulher indígena, María de Jesús Patricio González, como candidata independente – e o Partido de la Revolución Democrática – que se aliou à coalização direitista do PAN-; a coligação Juntos Haremos Historia, ao lado de uma sociedade farta da corrupção e impunidade governamentais, alguns líderes e representantes de diversos setores nacionalistas que se opõe ao desmantelamento da indústria petroleira, se apresenta como apoio à candidatura do AMLO e uma opção para tirar o PRI da presidência e derrotar o PAN, seu cúmplice por 18 anos e, assim, terminar com 36 anos de governos neoliberais.

José Othón Quiroz Trejo é professor do Departamento de Sociologia da Universidad Autónoma Metropolitana, México.

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