Educados mas desempregados, no norte do Sri Lanka

A Província Norte do Sri Lanka, que ainda se recupera das consequências da guerra civil, teve motivos para comemorar quando foram anunciados em dezembro os resultados de um exame realizado em todo o país. Dos 16.604 estudantes que participaram da prova, 63,8% obtiveram qualificações necessárias para entrar em universidades nacionais de prestígio.

Trata-se de um desempenho espetacular para uma região açoitada por três décadas de um conflito sectário, que chegou ao fim em maio de 2009, quando as forças do governo derrotaram os separatistas Tigres para a Libertação da Pátria Tamil. Desde então, a Província realiza um grande esforço de recuperação.

“É um recorde nacional”, disse à IPS o secretário do Ministério de Educação provincial, Sivalingam Sathyaseelan. “Nessa região, o ensino sempre foi considerado uma escada para uma vida melhor, mesmo antes da guerra. Uma vez mais as pessoas parecem estar pensando assim”, acrescentou.

Entretanto, Sathyaseelan afirmou que uma boa educação nem sempre significa um bom emprego. “Há muitos formados desempregados. Aqui não há trabalho. Os diplomados têm que emigrar ou se contentar com trabalhos manuais e inclusive, às vezes, se convertem em pedreiros ou assistentes de pedreiro”, explicou.

O desemprego afeta cerca de 4% da população economicamente ativa do Sri Lanka, mas é excepcionalmente alto na Província Norte. Só há informação disponível em dois dos cinco distritos que formam a Província, e nos dois casos duplicam a taxa nacional de desemprego. Em Mannar chega a 8,1% e em Kilinochchi a 9,3%.

Alguns economistas alertam que, se fossem tomados parâmetros de cálculo mais rígidos, os índices seriam ainda maiores. Na Província Norte, “a taxa de desemprego poderia chegar a espantosos 32,8%”, afirmou à IPS o economista Muttukrishna Saravananthan, diretor do Instituto Point Petro para o Desenvolvimento, com sede na cidade de Jaffna, no norte.

O desemprego entre os que passaram no exame para entrar na universidade é alto. Segundo o Departamento de Censo e Estatísticas, cerca de 10% dos que completaram com êxito a prova continuam sem encontrar emprego. A falta de trabalho e de renda cria um círculo vicioso no norte. Especialistas dizem que muitos estudantes do secundário estão abandonando a escola para conseguir um trabalho.

Rupavathi Keetheswaran, agente do governo para o distrito de Kilinochchi, explicou que, ao terminar a ajuda de pós-guerra e diante da queda da renda, muitas famílias estão em difícil situação econômica, sobretudo as encabeçadas por mulheres ou com membros com incapacidade. Estima-se que na Província Norte aproximadamente 40 mil famílias são encabeçadas por mulheres.

Ramalingam Sivaparasgam, coordenador nacional da Organização Internacional do Trabalho, explicou à IPS que a crise estava levando muitos alunos secundaristas a abandonar os estudos. “A principal razão é a falta de meios de sustento. A responsabilidade de fazer dinheiro está recaindo nos filhos”, afirmou. E estes buscam trabalho principalmente na construção ou na agricultura. Os dois setores experimentaram um auge na Província devido aos esforços de reconstrução e à tradicional dependência da produção agrícola.

Sathyaseelan apontou que a falta de empregos, para quem tem diploma universitário ou para outras pessoas de nível educacional alto, desanima os jovens a continuarem na escola. “Quando os estudantes mais jovens veem outros lutando para conseguir trabalho, consideram que a educação não serve muito e querem abandonar os estudos”, ressaltou.

Analistas advertem que, apesar do investimento do governo para reabilitar a antiga zona de conflito, poucos benefícios chegam para os que mais sofreram: as mais de 460 mil pessoas que abandonaram suas casas por causa da guerra e agora regressam. Em meio a um desigual esforço de reconstrução, que segundo muitos especialistas deu mais atenção aos grandes projetos de infraestrutura do que à geração de emprego e renda, a educação é uma área onde todos, do governo às dezenas de milhares de repatriados, parecem estar mais ou menos satisfeitos.

Em uma pesquisa realizada pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, divulgada no ano passado, uma esmagadora maioria de refugiados de guerra que voltaram à Província Norte disse não ter queixas sobre o sistema educacional. A consulta, feita com 997 famílias, concluiu que “87% dos entrevistados estavam satisfeitos com a qualidade da educação”. Mas o ensino, um dos frutos da paz, não trouxe prosperidade à Província Norte. “Até agora não há nenhum plano de incentivo da parte do governo para que o setor privado invista e gere empregos no norte”, pontuou Saravananthan.

Um estudo do Centro Internacional para a Investigação em Violência Política e Terrorismo, da Escola S. Rajaratnam de Estudos Internacionais, na Universidade Tecnológica Nanyan, de Cingapura, concluiu que o governo do Sri Lanka deve fazer mais para ajudar sua população. O documento diz que o governo deve atender as necessidades dos cidadãos comuns na antiga zona de conflito, dominada pela comunidade tâmil, que constitui uma minoria neste país de maioria cingalesa.

“Isto incluiria não só atender temas como falta de meios de sustento e insegurança alimentar, como também examinar a participação local na implantação de programas de desenvolvimento, dar aconselhamento psicológico a vítimas da violência e recrutar um número suficiente de funcionários governamentais que falem tâmil”, diz o estudo.

Além disso, o documento recomenda projetos para gerar empregos no setor fabril, ajudar com fundos a agricultura e a pesca, e adotar planos para manter crianças e jovens nas escolas. Todas estas iniciativas ficaram para trás dos grandes esforços de criar infraestrutura na Província.

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Fonte: Envolverde, com IPS
Texto: Amantha Perera
Data original da publicação: 14/02/2014

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