Economia colaborativa: compartilhando… desigualdades

Economia colaborativa: compartilhando… desigualdades
Fotografia: Fernanda Carvalho/Fotos Públicas

Antonio David Cattani e Cecília Severo Guimarães

As bem-aventuranças

Três conceitos designam uma nova onda de negócios organizados de acordo com padrões institucionais inéditos. São eles: Economia do compartilhamento (Sharing Economy), Economia colaborativa e Economia criativa. Essas modalidades tentam ganhar espaço na esfera da produção e dos serviços valendo-se, sobretudo, das tecnologias da informação e tecnologias digitais. A palavra mítica que unifica e dá sentido a essas iniciativas é conectividade.

O padrão convencional e vigente há muito tempo é bem conhecido. Ele tem o nome de capitalismo e é constituído por três partes em permanente concorrência: a) empresas formais, controladas pelos donos do capital buscando maximizar seus lucros; b) trabalhadores submetidos a contratos assalariados e tentando melhor remuneração pelo seu esforço laboral e c) e consumidores tendendo obter vantagens na equação custo-benefício. Esse modelo tripartite, conflituoso e concorrencial, é movido pelas leis da acumulação capitalista levando à constituição de mega empresas, de conglomerados multinacionais com um poder econômico e político sobre indivíduos e estados.

Há várias décadas é possível observar os impactos da lógica concentracionista e como eles serão agravados nos próximos anos. O poder das grandes empresas está praticamente fora de controle. Os empregos estáveis, qualificados e bem remunerados estão sendo reduzidos a um número muito pequeno de profissionais. Uma massa de empreendedores dinâmicos encontra cada vez menos espaço para sobreviver na esfera empresarial e milhões de trabalhadores estão sendo relegados à precarização e aos subempregos.

Em face desse padrão, as novas formas institucionais aparentam ser uma promessa libertária. Elas se apresentam como “comunidades de negócios”, sem hierarquias, sem patrões e empregados, as relações e as trocas sendo baseadas na confiança e na comunhão de valores. Contra o individualismo egoísta, elas proclamam que não existe mais “eu” e “eles”, apenas “nós”. Mais do que uma nova forma de fazer negócios, aparenta ser a sociedade livre buscando construir comunidades nas quais todos são colaboradores movidos por uma causa comum.

As vantagens são múltiplas, a começar pela agilidade nas transações não mais emperradas pela burocracia e pelos controles estatais. Tudo parece funcionar na base da boa vontade de gente bem intencionada, preocupada em empoderar os indivíduos isolados e potencializando mercados de proximidade. É o desenvolvimento local dos pequenos, dos microempreendedores revelando talentos e capacidade de crescer em face das grandes e desumanas corporações e do Estado tido sempre como ineficiente.

Por fim, mas não menos importante, essas novas formas podem ser aplicadas a qualquer relação de serviços, a ambientes produtivos e circuitos comerciais dependendo da criatividade do proponente em criar um negócio com custo reduzido. As tecnologias digitais com seus mágicos aplicativos realizam as transações e se constituem em ferramentas de gestão, ágeis e racionais.

As mal-aventuranças

Se a Economia do compartilhamento e congêneres anima e mobiliza os “homens de boa vontade”, ao espírito científico cabe analisar a diferença entre intenções e fatos, entre promessas e realidade. Correndo o risco de desagradar pessoas bem intencionadas, analisaremos a seguir alguns elementos do processo em curso.

1. Quando se trata de mercado econômico capitalista de competitividade global, se é de graça, é porque você é o produto. Cria-se a ilusão de que estamos crescendo juntos, mas na realidade há alguém lucrando sub-repticiamente. Nunca antes a produção foi tão concentrada como é agora graças às tecnologias digitais. Facebook, Google, Amazon, compras online, interação em fóruns ou com robôs digitais: tudo isso produz informação, dados, metadados, treina inteligência artificial e os resultados são capturados por essas poucas grandes empresas.

2. O impacto causado pela expansão da economia de compartilhamento em diferentes setores tem sido devastador. Cidades turísticas como Barcelona, Amsterdam e Paris entraram em conflito direto com o Airbnb, chegando a proibir operações em regiões das cidades. Ironicamente, em busca da “experiência genuína de um morador do centro de Paris”, essa mesma atividade está corrompendo a cultura local. Além disso, criam-se bolhas imobiliárias, forçam-se despejos de inquilinos para assegurar rentáveis aluguéis de curta temporada, intensifica-se a gentrificação. No caso do Uber, observa-se de fato um aumento de carros circulando. Pesquisa realizada no Reino Unido indica que não se trata de carros a menos, mas sim de passageiros a menos no transporte público, de ciclistas e pedestres a menos.

3. Nesses negócios, todo o custo de manutenção, reprodução, segurança, ficam por conta do trabalhador, bem como os riscos. Estudos realizados em Nova Iorque e Paris, comparando a renda entre taxistas e motoristas Uber, contrariam o discurso corrente. Após retirar todo o custo de manutenção do automóvel, a renda final dos motoristas era equivalente e, às vezes, menor daquela dos taxistas convencionais, com a diferença de que os táxis são regulamentados pelos municípios, pagam taxas locais e, bem ou mal, são identificados pelo poder público. Para cadastro na plataforma, a Uber e outras não cobram nem mesmo que o carro seja assegurado.

4. A proposta de muitos desses aplicativos é substituir sistemas regulatórios do Estado por sistemas de reputação dos aplicativos. Dessa forma, o profissional-parceiro fica refém da boa avaliação. Cria-se uma tensão entre as partes, pois a relação mistura elementos de convivialidade com transações comerciais: uma avaliação negativa provocada por uma experiência isolada faz alguém perder a possibilidade de trabalhar.

5. Quem é, de fato, afetado pelos empreendimentos da economia de compartilhamento não são os grandes, mas os pequenos e médios que tentam fazer um negócio seguindo normas reguladas pelo Estado. Airbnb não afeta a indústria hoteleira, mas sim os pequenos hotéis familiares, campings de hospedagem sazonal, albergues. Aplicativos diversos de entregas de comida (Deliveroo, UberEats, Ifood e outros) afetam diretamente as redes de restaurantes locais. São pequenos hotéis e restaurantes, mercadinhos de secos & molhados que são levados à falência.

6. Outro aspecto relevante: se acontece algum problema, de quem é a responsabilidade? Em casos de acidentes ocorridos em diferentes países, ou mesmo ainda mais graves, como roubos, sequestros e estupros, Uber e Airbnb se esquivaram da responsabilidade e se negaram a colaborar com autoridades para solucionar a situação, defendendo sua preciosa base de dados. Se algo acontece em um táxi, o município pode ser responsabilizado; em um hotel, o mesmo assume a culpa. Agora, no caso da economia de compartilhamento, a meta é lucro máximo com responsabilidade mínima. Pois a segurança tem um custo, que é dispensado nessas transações comerciais.

A análise crítica poderia ser menos severa no que tange à Economia Colaborativa e à Economia Criativa. Porém, ambas acabam sofrendo das mesmas mazelas. Ao mobilizar iniciativas e talentos de maneira isolada e frágil, acabam produzindo inovações tecnológicas e gerenciais logo recuperadas pelas corporações e acabam sob o domínio do grande capital. É o que podemos observar em várias frentes em relação ao Software Livre. O que deveria ser um movimento coletivo, verdadeiramente democrático e participativo, se transforma em empreendimentos coadjuvantes do sistema, depauperando trabalhadores e transferindo renda para segmentos minoritários.

Por trás do discurso moderno, o que temos é mais do mesmo velho capitalismo de sempre: captação de bens comuns para mercantilização e lucro privado. O que aparece como “novo” e original somente é possível após a desregulamentação em larga escala de direitos coletivos levando à precarização de milhões de empregos.

A considerar também o sucateamento da infraestrutura e dos serviços públicos que antes permitiam atender o conjunto da população. Os avanços não dizem respeito ao bem-estar coletivo, mas sim à maior concentração de renda e poder. Os mercados da economia de compartilhamento promovem a concentração de recursos que operam na contramão de uma economia diversificada e plural. Como é o caso da Aibnb, um número crescente de grandes empresas imobiliárias se encarrega do oferecimento de centenas de apartamentos ganhando com a intermediação sem riscos e sem realizar nenhum investimento direito.

Na busca por maximizar os lucros, minimizando os custos, as mega corporações encontram toda forma de burlar as fracas barreiras colocadas por leis nacionais e por sistemas tributários do Estado em rápido processo de deliquescência. Em menos de cinco anos, alguns poucos multimilionários acionistas dos sites de busca, promovendo a economia do “compartilhamento”, aumentaram suas fortunas em dezenas de bilhões de dólares graças à colaboração dos “motoristas parceiros”, dos “gentis anfitriões” e dos self-employees imaginando exercerem trabalho livre. Não bastasse essa exploração dissimulada em tempos de paraísos fiscais – ou melhor dizendo, de incivismo fiscal -, cabem as perguntas: onde os poderosos pagam Imposto de Renda? Onde eles aplicam os recursos arrecadados de milhões de “colaboradores”?

Como diz o multimilionário Richard Branson (fortuna de U$ 4.900 bilhões administrada em paraísos fiscais), “Don’t be afraid to do and fall over; it’s part of the learning process” (em tradução livre para o português, “Não tenha medo de fazer e fracassar; é parte do processo de aprendizado”).

Se a nova onda de negócios não for suficiente, sempre haverá outros modismos, (o mais recente é a Emotional Economy) propulsados como Start Up, Scale Up, World Up etc., estimulando a E-generation embalada por processos de coaching animados por gurus midiáticos.
Entre os 10.000 que tentam, um dará certo…

Antonio David Cattani é doutor pela Université de Paris I – Panthéon-Sorbonne. Atualmente é pesquisador e professor titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), pesquisador 1A do CNPq e Vice-presidente do Instituto Justiça Fiscal (IJF).

Cecília Severo Guimarães é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da mesma instituição e professora de Sociologia na plataforma de ensino a distância Me Salva!.

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