É preciso ir além da pauta da corporação

É preciso ir além da pauta da corporação

Charles Soveral
DMT

José Ricardo Ramalho é professor titular do Departamento de Sociologia e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com doutorado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado nas Universidades de Manchester e de Londres.

Ramalho afirma que é preciso pensar o movimento sindical integrado às demais demandas sociais para o que ele chama de ir além da pauta da corporação. Ele faz aqui, com exclusividade para o DMT, uma análise das mudanças no mundo do trabalho e dos desafios colocados para as organizações dos trabalhadores.

DMT – Com as mudanças decorrentes de novas tecnologias e da globalização como ficam os sindicatos e os trabalhadores neste cenário?

José Ricardo Ramalho – Quando se fala de sindicatos no Brasil temos que levar em conta a sua diversidade. Se pensarmos em termos de setores, como o setor industrial, também encontraremos muitas diferenças. Isso tudo deve ser considerado em uma análise mais cuidadosa sobre a ação sindical. Eu vejo interferência não apenas das novas tecnologias, como também das novas estratégias gerenciais. Em algumas empresas multinacionais de automóveis, por exemplo, parte de um setor importante no Brasil, o avanço tecnológico dentro da fábrica não é tão incisivo como as mudanças organizacionais. Eu diria que as dificuldades dos sindicatos estão muito mais relacionadas com as mudanças nas estratégias das gerências, nas relações de trabalho, do que, propriamente, em lidar com as novas tecnologias.

DMT – Os sindicatos não souberam adequar as suas práticas aos tempos atuais?

José Ricardo Ramalho – Os sindicatos, de certa forma, foram surpreendidos com as transformações ocorridas nos anos 70 e 80 na Europa, e que chegaram ao Brasil somente nos anos 90, especialmente com a abertura da economia brasileira para o mercado global. A partir dessa década as empresas passaram a se preocupar com o mercado internacional, e a buscar se adequar a um cenário de aumento da competitividade. Este processo implicou na introdução do que eu chamo de padrão flexível e que passou a definir as estratégias e a organização do trabalho. Os sindicatos estavam acostumados ao padrão fordista com uma estrutura produtiva verticalizada. A horizontalização da produção, característica nova, tornou as fábricas mais enxutas. Fábricas como as do ABC Paulista, por exemplo, que tinham 40 mil trabalhadores passaram a ter 10 ou 15 mil trabalhadores. Esse novo padrão ampliou o conceito conhecido como terceirização, que reduziu salários e direitos dos trabalhadores.

DMT – A terceirização foi propagandeada no Brasil como uma solução para a competitividade de nossas empresas no mercado global, atribuindo aos trabalhadores a carga de nossas deficiências?

José Ricardo Ramalho – A subcontratação no Brasil teve como meta a redução do custo da força de trabalho. Evidentemente que isto também repercutiu nos sindicatos, o que os obrigou a enfrentar a redução no emprego industrial. No período do fordismo, o sindicato construía um coletivo de trabalhadores com base em uma identidade de classe e em oposição e resistência às estratégias das gerências. Com a reestruturação produtiva, as empresas passaram a disputar com o sindicato a organização do coletivo. A empresa enxuta se organiza em células de produção e trabalho de time (modelo japonês) e esta noção de coletividade busca esvaziar a ideia de coletividade baseada na noção de classe. No caso dos bancários, por exemplo, a introdução de novas tecnologias representou concretamente a perda de postos de trabalho e eles sofreram também com a terceirização. Hoje, em muitas atividades realizadas pelo sistema bancário, o sindicato não consegue acesso e não consegue representar.

“Nosso país vive uma situação preocupante que é ter uma das mais altas taxas de rotatividade…”

DMT – Os sindicatos, com a reestruturação, ficaram numa posição defensiva?

José Ricardo Ramalho – Sim. A reestruturação levou a uma fragilização do emprego. A luta por salários ficou prejudicada pela necessidade de manutenção de emprego. E o nosso país, apesar de estar tecnicamente em um momento de pleno emprego, vive uma situação preocupante que é a de ter uma das mais altas taxas de rotatividade de trabalhadores do planeta. Isso está relacionado a uma força de trabalho com menos qualificação, o que também traz uma série de dificuldades para a ação dos sindicatos como, por exemplo, ter que representar categorias de trabalhadores que estão sempre mudando de emprego e não criam raízes.

DMT – A crise internacional, embora não tenha chegado ainda ao Brasil com toda a força, está revelando um cenário de dificuldades. Como as organizações de trabalhadores e os trabalhadores devem se preparar para um eventual momento de crise?

Ramalho – Nos últimos 10 anos houve avanços notáveis em termos salariais, inclusive com aumentos reais. E o que a crise na Europa está nos mostrando é que qualquer discussão sobre economia e desenvolvimento deve se pautar por uma lógica que leve em consideração o trabalho, a sociedade e não esteja voltada unicamente para a lógica do acionista. A lógica do acionista é responsável pela crise de 2008. Os sindicatos e os movimentos sociais devem estar atentos para que no Brasil não prevaleça apenas a lógica do lucro das empresas, deixando de lado as nossas questões sociais que já são muito graves. O Brasil avançou, nós sabemos, mas a desigualdade social continua a ser um dos nossos maiores problemas.

DMT – Como os sindicatos podem atuar diante desta realidade?

José Ricardo Ramalho – Os sindicatos precisam ir além de lutas voltadas apenas para uma pauta salarial. É preciso interagir com outros setores da sociedade e discutir questões para além da atividade da corporação. Os sindicatos têm que se preocupar com as questões urbanas, tem que se preocupar com a discussão sobre o melhor modelo de desenvolvimento para nós. Se fala tanto sobre desenvolvimento do Brasil, mas qual a opinião dos trabalhadores sobre este tema? Eu acredito que deva ser um tipo de desenvolvimento com trabalho decente, com respeito à legislação trabalhista. Esse movimento, já realizado por alguns sindicatos, deve predominar para que se possa garantir cidadania e direitos sociais. Buscar o que eu chamo de novos repertórios de ação pública e política.

DMT – E o trabalho decente, onde entra neste processo?

José Ricardo Ramalho – O debate sobre trabalho decente é muito importante para que essa luta se torne uma plataforma internacional. E que pode ser usado em cada país como referência básica para exigir respeito à legislação trabalhista, para combater os abusos e coisas terríveis como o trabalho escravo.

DMT – Se disse ao longo do tempo que o advento de novas tecnologias significaria, no médio e longo prazo, mais qualidade de vida aos trabalhadores. Na prática, vemos que as novas tecnologias fazem as pessoas trabalharem ainda mais. O que o senhor pensa sobre esta situação?

José Ricardo Ramalho – Uma das características do padrão flexível é o fato de que os trabalhadores estão sofrendo uma invasão do tempo do trabalho no tempo do não trabalho. A intensificação e a insegurança no trabalho movimentam um cenário de angústias e de perda de qualidade de vida. A tecnologia também ajuda a que se exerça um controle maior das empresas sobre os seus empregados. E no caso de profissionais que estão trabalhando por projeto, o fim do projeto significa o fim do emprego. Historicamente, o controle do trabalho era algo de controle físico, presencial, alguém olhando para você. Agora esses mecanismos não são mais necessários, porque através da tecnologia da informação é possível exercer controle do trabalhador em diferentes locais e horários.

DMT – Isso significa um controle psicológico?

José Ricardo Ramalho – A responsabilidade na linha de produção fordista, no que dizia respeito à qualificação do trabalhador, era da fábrica, que oferecia curso, treinamento. Hoje, para poder subir na empresa, melhorar a condição salarial, tem que buscar por sua própria conta a qualificação. O trabalhador passou a se sentir responsável pela sua qualificação. Houve uma inversão e a empresa passou a esperar do empregado um esforço pessoal para ser melhor qualificado. Isso ocorre em todas as categorias. O exemplo dos professores é bom para identificar essa invasão do trabalho na vida cotidiana. A gente trabalha direto sábado, domingo e férias. Há uma forte pressão por resultados. E as formas de resistência estão muito mais difíceis de identificar. Como contestar ordens emitidas por e-mail, por tarefas ou por produção?

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