Diferentes ritmos da internacionalização sindical brasileira: uma análise dos setores metalúrgico e de telecomunicações

Maurício Rombaldi

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Fonte: Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 78, p. 535-552, set./dez. 2016.

Resumo: Nas duas últimas décadas do século XX, tanto no Brasil como no exterior, nos setores metalúrgico e de telecomunicações, intensificou-se a presença de empresas transnacionais, multiplicando-se os processos de reestruturação produtiva articulados globalmente. Este artigo analisa a internacionalização de organizações sindicais brasileiras desde os anos 1980 até 2010, partindo do sindicato dos metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, e do sindicato das telecomunicações de São Paulo, filiado à Força Sindical. Constatou-se que, nos anos 1980, as relações internacionais eram desenvolvidas fundamentalmente de fora para dentro do país e que, a partir dos anos 2000, os sindicatos nacionais passaram a ser protagonistas na arena global. Contudo, o desenvolvimento de práticas internacionais segue padrões distintos: contextos econômicos setoriais ou entre trajetórias organizacionais implicaram um processo de internacionalização composto por diferentes ritmos e intensidades. Enquanto para os metalúrgicos ele ocorreu de modo orgânico e paulatino, nas telecomunicações ele foi abrupto e reativo.

Sumário: Introdução | Métodos em xeque: novas potencialidades | Germinando práticas sindicais internacionais no Brasil | Internacionalização sindical nas telecomunicações | Internacionalização sindical nos metalúrgicos | Considerações finais | Referência

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Introdução

Potencialidade inédita, a internacionalização do sindicalismo contemporâneo está associada à dinâmica econômica e à capacidade organizacional dos trabalhadores. Em um contexto global, a reestruturação produtiva caracterizou-se pela intensa mobilidade do capital e pelo aumento da presença de empresas transnacionais (ETNs) espalhadas ao redor do planeta. No paradigma produtivo anterior, os sindicatos estavam habituados a negociar com interlocutores nacionais, sejam eles empresas ou governos. Confrontados com novos desafios, no caso dos sindicatos de trabalhadores de telecomunicações e metalurgia, as características internas de suas respectivas organizações e as especificidades econômicas setoriais provocaram distintos ritmos de internacionalização da militância.

A organização dos trabalhadores, no nível internacional, materializa-se em articulações e estratégias estabelecidas para além dos padrões de mobilização e negociação tradicionalmente direcionados para o nível local ou nacional. As ações sindicais internacionais são desenvolvidas de forma bilateral ou por meio de estruturas internacionais que podem ser classificadas em dois grupos principais. O primeiro deles refere-se às confederações sindicais internacionais, organizações que filiam internacionalmente as centrais sindicais nacionais. Em seguida, vêm as federações sindicais internacionais, entidades de caráter setorial, em que os filiados nacionais correspondem aos sindicatos, federações e confederações relacionadas a determinados setores econômicos. Entre os resultados alcançados por tais organizações, merece destaque a aproximação de sindicatos estabelecidos em diferentes países e o fortalecimento de negociações que acarretaram, por exemplo, o crescente número de Acordos Marco Internacionais (AMIs) junto a ETNs.

O presente artigo busca compreender como ocorreu a inserção de organizações sindicais brasileiras em espaços de militância internacional entre os anos 1980 e 2010. Para tanto, foram analisados dois sindicatos emblemáticos. O primeiro é o Sindicato dos Trabalhadores em Telecomunicações do Estado de São Paulo (SINTETEL), filiado à central Força Sindical (FS), único sindicato das telecomunicações diretamente filiado à federação sindical internacional que representa o setor no Brasil, o que demonstra sua proeminência no desenvolvimento de atividades sindicais internacionais. O segundo caso considerado é o do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (SMABC), ampliado na análise da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM) e, em certa medida, da central sindical a que ambos estão filiados, a Central Única dos Trabalhadores (CUT). Isso se deve ao fato de que a participação das lideranças das três entidades em espaços internacionais se mostrou articulada. Para a pesquisa, foram analisadas entrevistas realizadas junto a lideranças sindicais e documentação relativa ao tema da internacionalização sindical produzida pelas organizações estudadas ou pelas entidades internacionais a que estão filiadas.

A história do SMABC vincula-se às inovações sindicais brasileiras emergentes na passagem da década de 1970 para a década de 1980,6 que culminaram na formação da CUT e do Partido dos Trabalhadores, bem como, cabe sublinhar, a expressiva relevância desse sindicato no estabelecimento de redes sindicais internacionais no interior da central sindical.7 A seleção de um sindicato da Força Sindical (FS) se constituiu como um caminho provável na busca de contrastes, polarizações e aproximações no campo sindical,8 (Bourdieu, 1989, p.134) já que, fundada no ano de 1991, ela surgiu para o cenário político nacional explicitando uma suposta rejeição à polarização entre direita e esquerda, em que se mirava a CUT como vinculada a certo tipo de “radicalismo estéril” (Rodrigues; Cardoso, 1993, p. 21).

Nesse contexto, a comparação entre o SMABC e o SINTETEL se faz útil não apenas pelas vantagens de uma reflexão relacional em que se considera a comparação entre sindicatos de orientações políticas distintas, mas, também, pelo fato de que cada um dos dois setores tem se mostrado um lócus privilegiado para a análise das transformações vivenciadas no mundo do trabalho e os subsequentes desafios enfrentados pelas organizações sindicais. Autores como Castells (1999), por exemplo, têm defendido a tese de que vivenciamos a transição de uma sociedade industrial para outra, informacional, o que implicaria pensar que as telecomunicações significariam, hoje, aquilo que o setor automobilístico representou no passado.

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Maurício Rombaldi é doutor em sociologia. Professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Sob o enfoque da intersecção entre cultura e política, tem como linha de pesquisa análises sobre globalização, relações de trabalho e sindicalismo. Em especial, destacam-se estudos sobre a relação entre a internacionalização sindical e a regulação do trabalho nos níveis nacional e internacional, bem como sobre as práticas desempenhadas por agentes sociais durante os preparativos de megaeventos esportivos no Brasil e no exterior. Como experiência profissional, ressalta-se a coordenação de projetos voltados a organismos internacionais e à promoção de convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

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