Dia 8 de março, por que paramos?

Ilustração: Flare

Cristina Pereira Vieceli

No dia oito de março, comemoramos o Dia Internacional da Mulher. É ainda recorrente, nessa data, recebermos parabéns e flores pelo “nosso dia” e, inclusive, cartões falando da importância da mulher, normalmente exaltando características femininas estereotipadas, reforçando o nosso carinho, amor incondicional, bem como a importância do nosso trabalho para a sociedade, apesar de permanecer pouco ou não remunerado e invisibilizado. 

Esse caráter vem sendo criticado pelo movimento feminista ao redor do mundo e ganhou força a partir de 2016, quando mulheres de vários países realizaram greves e marchas. A nova onda feminista, que emergiu nos últimos anos, busca resgatar as origens socialistas1 da data e, ainda mais, criticar o sistema produtivo inerentemente desigual, sexista e poluente.

O crescimento do movimento feminista nos movimentos sociais repercute também na academia com o avanço de estudos e novas linhas de pesquisa, a exemplo da Economia Feminista. Esta disciplina busca criticar o caráter androcêntrico da ciência econômica, que repercute na forma como o sistema produtivo é pensado, ou seja, voltado para o aumento do lucro e da financeirização, refletindo em recorrentes crises econômicas que repercutem principalmente na vida da população mais pobre, em especial das mulheres. Busca-se, dessa forma, uma mudança no paradigma econômico, para que o sistema produtivo seja voltado para as pessoas e para a garantia da reprodução da vida, e não para os mercados e geração de lucro.

A crítica ao sistema estruturado somente para 1% da população endinheirada, conforme o manifesto lançado em março de 2019, “Feminismo para 99%”, por Cinzia Arruzza, Tihi Bhattacharya e Nancy Fraser, foi tema também de filmes lançados no último ano que receberam diversas premiações. A exemplo disso, o filme mais premiado no Oscar de 2020, com quatro estatuetas, incluindo a de melhor filme, foi o sul-coreano Parasita, que demonstra as terríveis mazelas sociais e psicológicas de um sistema excludente e desigual, no qual as famílias pobres vivem de pequenos golpes, nos porões das endinheiradas. Outro exemplo marcante foi o filme Coringa, que critica duramente a forma como a saúde mental é tratada com violência e descaso pelo Estado a partir de políticas de cortes na saúde pública.

O manifesto feminista lançado em 2019, portanto, dialoga com as críticas ao sistema desigual, ao defender um feminismo voltado para mudanças radicais na sociedade, cujas contradições repercutem principalmente para as mulheres de classes sociais marginalizadas, mas também pensando na humanidade como espécie que vive dentro de um planeta que possui limites. Conforme o manifesto:

Vivemos uma crise da sociedade como um todo. Absolutamente não restrita ao setor financeiro, é ao mesmo tempo uma crise da economia, da ecologia, da política e do “cuidado”. Uma crise generalizada de toda uma forma de organização social, que está na base do capitalismo – em especial da forma brutalmente predatória do capitalismo que vivemos hoje: globalizado, financeirizado, neoliberal.2

Os efeitos desta abismal desigualdade social foi também matéria de um estudo publicado recentemente pela OXFAM3 e apresentado no Fórum de Davos. A pesquisa aponta que, em 2019, os bilionários do mundo somavam apenas 2.153 indivíduos que detinham mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas. De forma ilustrativa, o estudo assinala que se uma pessoa tivesse poupado US$10.000,00 por dia desde o início da construção das pirâmides do Egito, somaria apenas um quinto do total da fortuna média dos cinco bilionários mais ricos no mundo. Outro exemplo ilustrativo relacionado no relatório: os 22 homens mais ricos do mundo detêm mais da metade da riqueza do que todas as mulheres que vivem na África. O relatório calcula que, caso o trabalho doméstico, realizado principalmente por mulheres e meninas, fosse remunerado, valeria US$ 10,8 trilhões à economia. Esse trabalho, que soma 12,5 bilhões de horas diárias, principalmente das mulheres e meninas pobres, é usurpado pelo sistema produtivo e invisibilizado pela economia.

Os trabalhos domésticos não remunerados repercutem no acesso das mulheres ao mercado de trabalho e aos melhores empregos. A exemplo disso, o relatório do Fórum Econômico Mundial, “Global Gender Gap Report 2020”4, aponta que existe uma correlação negativa entre as horas destinadas pelas mulheres aos trabalhos domésticos não remunerados e a sua participação no mercado de trabalho. Além disso, em nenhum país do mundo o tempo dedicado pelas mulheres e homens a essas atividades é equivalente. Mesmo nas economias nas quais a diferença de tempo dedicado aos trabalhos reprodutivos é menor, como por exemplo na Noruega, as mulheres despendem quase o dobro do que os homens. O indicador “Participação Econômica e Oportunidade”, mensurado pelo relatório, foi o único que apresentou regressão em relação ao relatório de 20185. Como consequência, o estudo prevê 257 anos para as mulheres alcançarem os homens neste indicador. No relatório anterior, a previsão era de 202 anos. 

Ou seja, parece que vivemos na fábula do burro e da cenoura, já que não irá existir mudanças na sociedade sem uma transformação radical na forma como ela é estruturada produtivamente. As mudanças devem perpassar por reformas tributárias progressivas que permitam o investimento massivo em sistemas nacionais de cuidados. Infelizmente, a concentração de renda está associada diretamente à de poder. A exemplo disso, segundo o mesmo relatório, o indicador “Empoderamento Político” – que mensura a participação política das mulheres em cargos executivos e legislativos – foi o que apresentou a pior disparidade: 0,25, sendo 1 a total igualdade. O Brasil é um dos piores países nesse quesito. O score médio total entre as quatro categorias no país é 0,691, o que nos coloca em 92o lugar entre 153 outras nações. Em relação à participação política, no entanto, estamos na posição 104, com um score de 0,133. 

Essa realidade tende a se agravar quando consideramos as mudanças climáticas. A exemplo disso, de acordo com o relatório da OXFAM, até 2025, 2,4 bilhões de pessoas no mundo poderão viver em áreas com acesso escasso à água. Em decorrência, aumentará ainda mais as horas destinadas aos trabalhos não remunerados pelas mulheres e meninas, já que elas são as principais responsáveis pela coleta de água. A questão ambiental deverá repercutir no aumento de refugiados, em catástrofes, alagamentos de territórios, extermínios de diversas espécies e populações, conforme a ativista de 16 anos, Greta Thunberg, no Encontro de Cúpula sobre Ação Climática:

Nós estamos vivenciando o começo de uma extinção em massa. E tudo o que vocês fazem é falar de dinheiro e de contos de fadas sobre um crescimento econômico eterno. Como vocês se atrevem? Por mais de 30 anos, a ciência tem sido muito clara. Como vocês se atrevem a continuar ignorando isto? E como se atrevem a vir aqui e dizer que estão fazendo o suficiente? Quando sabemos que as políticas e as soluções necessárias não são sequer vistas?

Assim como os trabalhos reprodutivos, a natureza é considerada um fator exógeno ao sistema econômico, haja vista que a sua exploração e degradação não é contabilizada no Sistema de Contas Nacional. Para as ecofeministas, nesse sentido, existe uma relação entre a exploração do trabalho das mulheres e a degradação do nosso planeta. 

O dia 8 de março, portanto, não é uma data para recebermos parabéns e flores, mas um dia que simboliza a luta das mulheres no mundo para que direitos como moradia decente, alimentação e a reprodução da vida não sejam tratados como privilégios. Para que a reprodução social e o trabalho não remunerado das mulheres e meninas, bem como o nosso planeta sejam centrais ao se pensar a economia. 

Notas

1 O dia 8 de março possui origem na marcha das mulheres russas contra a escassez de alimentos em 08 de março de 1917, essa marcha foi o estopim da Revolução Russa. (GONZÁLES, ANA ISABEL ÁLVARES, As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres, SempreViva Organização Feminista, Expressão Popular, 2010.

2 ARRUZZA, C., BHATTACHARYA, T., FRASER, N. Feminismo para os 99%, um manifesto. Boitempo, 2019.

3 OXFAM. Tempo de cuidar O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade. Jan. 2020. Disponível em: https://oxfam.org.br/justica-social-e-economica/forum-economico-de-davos/tempo-de-cuidar/

4 Disponível em: https://www.weforum.org/reports/gender-gap-2020-report-100-years-pay-equality

5 São considerados quatro indicadores no estudo: Participação Econômica e Oportunidade, Acesso à Educação, Saúde e Expectativa de Vida e Empoderamento Político.

Cristina Pereira Vieceli é economista, mestre e doutoranda em economia pela FCE/UFRGS, foi pesquisadora visitante do Centro de Pesquisas de Gênero na York University – Toronto. Atualmente é técnica licenciada do Dieese, bolsista do CNPQ, colunista do site DMT e integra o coletivo Movimento Economia Pró-Gente.

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