Desemprego tecnológico: Ricardo, Marx e o caso da indústria de transformação brasileira (1990-2007)

Joaquim Miguel Couto
Maria de Fátima Garcia
Carlos Eduardo de Freitas
Rodolfo Cezar Silvestre

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Fonte: Economia e Sociedade, Campinas, v. 20, n. 2, p. 299-327, ago. 2011.

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Resumo: A questão do desemprego tecnológico preocupou a mente de dois dos maiores pensadores da ciência econômica: David Ricardo e Karl Marx. Ambos acreditaram que a introdução de novas máquinas poderia causar uma situação de desemprego crônico durante certo período de tempo. No entanto, esta era apenas uma possibilidade, que já havia ocorrido no capitalismo industrial inglês, mas que poderia ser evitada caso novos investimentos absorvessem a mão de obra dispensada pela introdução de nova maquinaria. O Brasil, por sua vez, passou, ao longo da década de 1990, por um período de reestruturação de seu parque industrial que, mediante a metodologia utilizada em nosso estudo, resultou na conclusão da existência do fenômeno do desemprego tecnológico durante boa parte da referida década.

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Sumário: Introdução | 1 O desemprego tecnológico em Ricardo | 2 O desemprego tecnológico em Marx | 3 O caso da indústria de transformação brasileira (1990-2007) | Conclusão | Notas | Referências bibliográficas

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Introdução

Grandes escritores ao longo dos séculos, principalmente de ficção científica, imaginaram um mundo em que as máquinas iriam substituir os trabalhadores no árduo esforço de produzir bens e serviços. Livres das obrigações produtivas, ou da maior parte delas, os homens teriam mais tempo para dedicar sua força e inteligência a atividades mais prazerosas, tornando a vida humana mais alegre e menos sofrida. Até mesmo Aristóteles, um dos maiores pensadores da humanidade, imaginou uma sociedade sem a necessidade de trabalho e, por consequência, sem a necessidade de escravos. Keynes (1999) chegou a imaginar o homem trabalhando apenas três horas por dia no ano de 2030.

No entanto, desde o século XVIII, os trabalhadores sentiram que o progresso do uso das máquinas não estava trazendo tanta felicidade assim. Demitidos pela introdução de máquinas modernas, os operários sem salários viraram mendigos nas grandes cidades europeias. O problema era o sistema econômico em que a nova maquinaria, poupadora de mão de obra, estava sendo inserida: o sistema capitalista. Neste sistema, o trabalhador trocado pela máquina não poderia dedicar o seu novo tempo livre às atividades prazerosas da vida, pois, sem o trabalho, os operários ficavam sem uma renda para comprar os meios necessários a sua subsistência e de sua família. O movimento luddita foi a consequência do mal que a maquinaria causou a grande número de trabalhadores ingleses na década de 1810.

Dois dos maiores economistas que já existiram, David Ricardo e Karl Marx, enxergaram o problema do desemprego tecnológico, mas entenderam que existia solução para o mesmo dentro do próprio sistema capitalista. Por outro lado, a revolução tecnológica da microeletrônica da década de 1970, e que chegou ao sistema produtivo do Brasil na década de 1990, trouxe o problema do desemprego para uma grande parcela dos trabalhadores da indústria de transformação brasileira. Estaríamos vivenciando o fenômeno do desemprego tecnológico em nosso país?

O objetivo deste artigo é responder esta pergunta. Para cumprir tal objetivo, dividimos o texto em três partes. Na primeira, trataremos do pensamento de David Ricardo sobre a maquinaria e sua relação com a classe trabalhadora. Na segunda parte, analisaremos as ideias de Karl Marx sobre o desemprego tecnológico expostas, principalmente, no capítulo XIII de O capital. A terceira parte, mais extensa, estudará a reestruturação produtiva ocorrida na indústria de transformação brasileira (1990-2007) e suas consequências sobre o volume de emprego, procurando explicitar a existência ou não do desemprego tecnológico.

No entanto, antes de iniciar os capítulos, temos que responder uma outra pergunta: o que é desemprego tecnológico? Seria a existência de operários demitidos por causa de uma nova máquina que foi introduzida na esfera produtiva de uma ou algumas empresas? Nada disso. A demissão não caracteriza a existência do desemprego tecnológico. A resposta mais correta é a seguinte: existe desemprego tecnológico quando o operário demitido pela introdução de uma nova máquina (ou tecnologia) no processo produtivo não encontra um novo trabalho num curto período de tempo. Caso o trabalhador demitido pela nova máquina encontre um novo emprego rapidamente numa outra empresa, ele não é um desempregado, logo não existe desemprego tecnológico porque não existe desemprego. O desemprego tecnológico só existe quando há desemprego e caso este desemprego tenha sido causado pela introdução de uma nova máquina ou tecnologia.

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Joaquim Miguel Couto é Professor do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR.

Maria de Fátima Garcia é Professora do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá.

Carlos Eduardo de Freitas é Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT/CUR/CE), Cuiabá, MT.

Rodolfo Cezar Silvestre é Bacharel em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR.

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