Crise volta a assombrar trabalhadores argentinos

As duas principais centrais sindicais argentinas, a Central dos Trabalhadores da Argentina (CTA) e a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), entraram em rota de colisão com o governo da presidenta Cristina Kirchner. As duas organizações de trabalhadores aceleraram o desgaste social ao se opor às medidas tributárias do governo que devem retirar dos trabalhadores assalariados algumas isenções fiscais e outros benefícios públicos.

Chamado de 20N, o mais recente protesto aconteceu pouco menos de duas semanas de outra expressiva manifestação popular, ocorrida no dia 8 de novembro, em que milhares de argentinos saíram às ruas em diversas cidades insatisfeitos com a mandatária da nação.

Os dois maiores representantes dos assalariados argentinos, CGT e CTA, contaram também com a participação da Federação Agrária Argentina (FAA). Foram feitos 160 pontos de bloqueios em todo país. Em Buenos Aires, as principais entradas da cidade foram ocupadas, enquanto que o transporte coletivo funcionou parcialmente. A principal demanda dos sindicatos é que a presidente não autorize o fim de benefício fiscal em vigência. Esta exceção tributária foi responsável pela redução do valor no imposto de renda pago pelos trabalhadores assalariados.

Diante da escassez de capital para manter o equilíbrio fiscal, o governo argentino está desde o início do ano cortando diversos subsídios diretos e indiretos para os cidadãos, como este em questão, para poupar recursos dos cofres públicos e arrecadar mais. Neste mesmo sentido, os preços de serviços e itens estratégicos para a economia foram descongelados e sofreram grande aumento, pressionando a inflação.

Os trabalhadores acabaram atingidos pelos dois processos (inflação e aumento da arrecadação fiscal), hoje eles estão pagando mais nas tarifas de transporte público, água, luz e etc., enquanto assistem a redução da assitência do Estado.

Com uma inflação não-oficial estimada em 25% ao ano, o poder de compra da classe média e baixa está em constante queda, algo evidente nas ruas do país. Se os cortes de incentivos forem concretizados pela Casa Rosada, o Estado recolherá para si mais dinheiro, e consequentemente, esfriará a inflação ao tirar de circulação parte do consumo individual mensal do trabalhador.

Por outro lado, dependendo do resultado da mobilização dessa terça-feira, Cristina corre o risco de ser obrigada a voltar atrás e manter os benefícios. Alguns sindicatos já avisaram que podem sustentar a greve por mais tempo, caso suas reivindicações não sejam acatadas. Nestas circunstâncias, o governo terá que procurar recursos financeiros em outra fonte.

Os panelaços e piquetes, atualmente mais frequentes, reativam na memória as dificuldades sofridas pela Argentina nos momentos que antecederam a crise de 2001, e que se desenvolveram desde então até 2003, ano em que Néstor Kirchner tomou posse pela primeira vez e estabilizou a nação, restaurando a ordem. Ninguém deseja que este triste cenário se repita. Esta é a sétima crise econômica que a Argentina enfrenta desde 1975. Desta vez, inclui um impopular controle do dólar, além dos temores de eventuais desvalorizações da moeda e confiscos bancários.

“Cristina Kirchner não quer dialogar com a oposição nem ouvir conselhos dos próprios peronistas. É quase um ‘autismo’ administrativo que está levando o país à crise”, diz um ex-ministro kirchnerista. Depois, faz uma nuance: “Este não é um precipício, tal como o de (Fernando) De la Rúa em 2001, mas é um baita barranco.”

A presidente está entre a espada e a parede, afirmam os economistas. Os empresários pedem que o governo desvalorize a moeda para recuperar a competitividade da economia. No entanto, embora esteja desesperada para aumentar o superávit comercial e contar com dólares para pagar a dívida pública, Cristina resiste à liberação do peso, já que isso implicaria em intensificar a escalada da inflação.

Os especialistas afirmam que a Casa Rosada improvisa as medidas econômicas, elaboradas por economistas novatos de “La Cámpora”, denominação da juventude kirchnerista. Mario Brodersohn, ex-secretário da Fazenda do governo de Raúl Alfonsín, sustenta que “a desorientação e a paralisia dominam a gestão econômica”.

Segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), a conta corrente da balança de pagamentos da Argentina teve déficit de US$ 552 milhões no primeiro trimestre. O déficit fiscal argentino, que em 2011 foi de US$ 6,8 bilhões, pode chegar a US$ 11 bilhões este ano. A dívida externa cresceu dos US$ 130 bilhões de 2011 para US$ 141,8 bilhões em março.

Dados do Banco Central indicam que saíram da Argentina US$ 21,5 bilhões em 2011, 90% a mais que 2010. Para tentar controlar a inflação e a fuga de divisas, a presidente aplica um férreo – e inédito – controle sobre o dólar desde novembro passado. O controle intensificou a desconfiança dos argentinos sobre os rumos do governo Kirchner.

As medidas, segundo pesquisa da consultoria Management & Fit, foram condenadas por 59,8% dos entrevistados. O “corralito verde” só contou com o respaldo de 13,6%. O resto não tem opinião formada ou declara-se “nem a favor nem contra”.

As restrições estão colapsando as importações (que já estavam limitadas por uma série de barreiras comerciais) e as operações financeiras entre filiais e matrizes de multinacionais no exterior. De quebra, o controle sobre a moeda americana desatou o ressurgimento de um mercado paralelo do dólar, algo que não ocorria desde 1991. O controle sobre a “moeda do império” – tal como os militantes kirchneristas denominam o dólar – é criticado pelos próprios eleitores de Cristina. Do total de pessoas que condenam o “corralito verde”, 36,2% votaram pela reeleição da presidente em outubro.

Sem alternativas, o governo Kirchner realiza desde o ano passado uma persistente e lenta desvalorização da moeda. Dos 4 pesos de junho de 2011, o dólar está em 4,50 pesos atualmente. A ideia é implementar uma desvalorização controlada, para evitar o descontrole da inflação.

Os argentinos adultos ainda recordam com amargura que as desvalorizações do peso em 1988 e 1989, além de desatar a hiperinflação no fim do governo de Raúl Alfonsín, geraram inaudita inflação em dólares. O economista Ricardo Delgado, diretor da consultoria Analytica, acredita que a Argentina não sofrerá uma maxidesvalorização. “O governo não quer desvalorizações bruscas.” Segundo ele, “uma nova desvalorização implicaria na perda de capital político para o governo, pois dissolveria os salários”.

Desvalorização

O ex-secretário de Comércio Raúl Ochoa concorda. “Nem maxi, nem de tamanho médio, mas o que veremos é uma crescente, persistente e sutil desvalorização da moeda. Desvalorizar, na Argentina, é uma coisa muito traumática.”

Ele destaca que a Argentina não enfrenta problemas para o pagamento da divisa pública. “A curto prazo, o governo resolveu essa questão recorrendo ao caixa da Previdência, reestatizada há poucos anos. O problema externo não é esse, mas sim, o fato de que não virão investimentos suficientes para a Argentina.”

Diversos setores da economia argentina apresentam sinais de esfriamento acelerado. Esse é o caso da indústria automobilística, menina dos olhos do governo Kirchner. Segundo a Associação de Fabricantes de Automóveis da Argentina (Adefa), o setor registrou queda de 24,4% na produção em maio em comparação com o mesmo mês de 2011. As vendas para o mercado interno caíram 15%, enquanto as exportações (principalmente para o Brasil) desabaram 45%.

A produção industrial caiu 4,6% em maio em comparação com o mesmo mês do ano passado, conforme o Indec. Os analistas afirmam que a queda, em grande parte, é efeito das restrições às importações aplicadas pelo governo. Vários economistas independentes afirmam que o país pode mergulhar na recessão nos próximos meses. Ochoa sustenta que, no segundo semestre, a Argentina deve ter crescimento nulo ou levemente negativo. “Se a colheita vier abaixo do previsto, pode ficar mais complicado, entre outros fatores. Além disso, a Argentina dependerá muito do andamento da economia brasileira.”

“A economia crescerá 3% neste ano. Mas é preciso levar em conta que o cenário mundial é mutável. Por isso, é possível que o PIB argentino caia um pouco mais. No entanto, não vejo recessão”, afirma Delgado.

O próprio governo Kirchner, que em janeiro ufanava-se de estar “blindado” contra a crise mundial, agora admite a existência de problemas. “Com certeza não cresceremos com os índices que estávamos tendo”, disse a presidente Cristina Kirchner para um grupo de influentes empresários americanos no Conselho das Américas em Nova York há duas semanas. Esta foi a primeira vez que ela admitiu um horizonte de problemas, cenário que os economistas independentes alertam há vários anos.

Popularidade

A presidente Cristina Kirchner – que foi reeleita com 54,11% dos votos em outubro de 2011 – ostentava 64,1% de aprovação em dezembro. Nos primeiros dias de junho de 2012, essa proporção caiu para apenas 38,9%, segundo pesquisa da consultoria Management & Fit.

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Fontes: O Estado de S.Paulo e R7
Texto: Ariel Palacios, Fábio Cervone e Charles Soveral/DMT, com informações das agências AFP e Reuters

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