Corrida por importações na pandemia evidencia efeitos da desindustrialização no país

Fotografia: Michael Dantas/AFP

A pandemia do novo coronavírus escancarou algo que há tempos é realidade no Brasil: a desindustrialização da economia brasileira e a elevada dependência do mercado de importações de produtos industrializados. Com o tema “Qual o papel da industrialização em um Projeto Popular?”, uma roda de conversa promovida pelo Projeto Brasil Popular ouviu especialistas, que entraram em consenso de que a retomada do desenvolvimento do país está diretamente ligada a um projeto político.

Os analistas foram unânimes quanto ao fato de que, enquanto não houver uma decisão política para que o país deixe de ser, apenas, exportador de commodities, é inconcebível um real crescimento econômico. A argumentação defende a necessidade de um projeto atrelado às particularidades de cada região e também ao combate à miséria e as desigualdades.

O evento, transmitido pelo Youtube e Facebook ouviu Artur Araújo, da Fundação Perseu Abramo (FPA), Fausto Augusto Jr, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico (Dieese) e Rafael Marques do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID). 

Para Artur Araújo, o Brasil passa por um processo de desindustrialização precoce, que pode ser constatada pela grande queda da participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB).

Ele cita um estudo do economista Dani Rodrik, especializado em economia das indústrias, que considera natural a redução da participação da indústria quando as sociedades atingem a renda per capita de aproximadamente 20 mil dólares, o que não foi o caso do Brasil.

“O país começou a se desindustrializar quando a nossa renda per capita estava em 10 mil e 800 dólares, ou seja, não é aquele fenômeno clássico de crescimento do setor de serviços em relação a uma indústria que já está madura. Antes de chegar a uma sociedade de renda mais alta, passamos a nos desindustrializar. Isso afeta, inclusive, a capacidade de chegar a níveis de renda maiores”, analisa.

Segundo Araújo, a solução para a melhoria da qualidade de vida no Brasil passa pela reindustrialização. Contudo, o direcionamento do governo Bolsonaro comandado pelo Ministro da economia, Paulo Guedes deixa à cargo do mercado a decisão de criar sua própria mecânica e isso, explica o economista, não tem como objetivo uma sociedade mais igualitária. “É essencial que a indústria volte a ocupar o espaço na economia brasileira que ela já ocupoul”, resume. 

A pandemia e o acirramento das desigualdades 

Artur Araújo pontua que a pandemia trouxe um exemplo prático da desindustrialização: a corrida por itens de saúde como máscaras e respiradores pulmonares, que precisaram ser importados em massa, porque o país não tinha fábricas que as produzissem. 

“A despeito do fato de nós termos tecnologia, conhecimento e plantas que poderiam rapidamente ser adaptadas para produção de respiradores havia um problema brutal. Nós não éramos mais fabricantes das peças intermediárias. Isso revelou que a globalização mesmo que você tenha a capacidade de fazer a ponta da produção você tem uma dependência no meio das cadeia, isso significa que qualquer país que queira realmente se industrializar tem que pensar no conjunto da cadeia.” 

Fausto Augusto Jr, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico (DIEESE)  diz que não há como pensar em um projeto de desenvolvimento sem levar em conta os trabalhadores e o real compromisso econômico de melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ele concorda com Araújo ao afirmar que não há nenhum caso de industrialização ou reindustrialização que não tenha sido capitaneado por um projeto nacional. 

“A gente precisa de um projeto com os trabalhadores na base, um projeto que esteja minimamente comprometido com processo de distribuição de renda e não só distribuição de renda como uma questão social, mas também econômica. A gente sabe que a distribuição de renda é que vai potencializar 210 milhões de brasileiros, que também são consumidores. O Brasil é muito grande, desigual e não só do ponto de vista econômico, mas também das necessidades, organizações territoriais e da forma como você pensa uma região”.

Rafael Marques, do Instituto Trabalho, Indústria e Desenvolvimento (TID), por sua vez, destacou que se as contas governamentais na área da saúde, educação, nos gastos com infraestrutura fossem investidas em etapas de produção de bens intermediários, a realidade brasileira seria outra. “É preciso que esse processo dê conta também de acertar as contas com a população mais vulnerável e mais afetada pelo processo atualmente de decisão política econômica”. 

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Catarina Barbosa
Data original da publicação: 11/07/2020

Compartilhe

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *