Coronavírus: trabalhadores da saúde lutam contra medo, riscos e falta de estrutura

Fotografia: Reuters

Por trás das máscaras, óculos, luvas e roupas dos profissionais que atuam na linha de frente da covid-19 nos hospitais, existe medo, insegurança, cansaço e tensão. Mas também a vontade de entender e ajudar a sociedade a passar pela epidemia em meio a uma mudança na rotina dentro e fora do trabalho.

Na semana em que o mundo celebra o Dia Internacional dos Trabalhadores, 1 de maio, o Brasil de Fato conversou com alguns profissionais de saúde sobre o cotidiano e os sentimentos expressos nos dados da pandemia – que já ultrapassa 78 mil casos no Brasil.

“O primeiro contato que eu tive com paciente com covid-19 eu passei muito mal à noite, eu tive mal estar. Por mais que esteja com a precaução, dá um medo e uma sensação muito horrível”, conta a médica infectologista Taciana Oliveira, que diariamente lidava com outras doenças infecciosas como Aids e meningite, mas nunca sentiu este receio. 

Ela trabalha no Hospital Emílio Ribas, uma das referências de atendimento no estado de São Paulo, onde, apesar do uso racional, não há falta de equipamentos de proteção individual ou falta de condições para os trabalhadores da unidade, segundo a médica. Mas mesmo assim estava em casa há 10 dias aguardando o teste da covid-19 por suspeita de infecção. 

O resultado foi negativo, mas o receio da especialista, infelizmente, é uma realidade para os profissionais de saúde.

Só na capital paulista, cidade com maior número de casos em todo o país, a Secretaria Municipal de Saúde informou que até o dia 26/04 havia 3.106 profissionais municipais da saúde afastados por conta do coronavírus, sendo 2.354 com síndrome gripal e 713 confirmados. O boletim ainda informa que 13 profissionais da saúde morreram devido a complicações da covid-19. 

Não há um levantamento nacional dos casos, mas a Associação Paulista de Medicina (APM) divulgou no dia 27 de abril uma pesquisa que aponta que, para os médicos, a falta de testes e EPIs como principais problemas no combate à pandemia. 

Em uma resposta com possibilidade de mais de uma escolha, 66% dos médicos disseram que a falta de testes é a principal deficiência encontrada. O restante se dividiu entre os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual): falta de máscaras (50%), proteção facial (38,5%), aventais (31%) e óculos (26%), entre outros. A entidade ouviu 2.312 médicos de todo o País entre os dias 9 e 17 de abril.

O clínico geral do Hospital Universitário Federal da Universidade Federal do Vale do São Francisco (HU-Univasf), em Petrolina (PE), Pedro Carvalho Diniz, também testou negativo para a doença, mas mostra preocupação com relação ao afastamento de profissionais em razão do contágio.

“O profissional de saúde que tem algum sintoma, que testa positivo, ele fica no mínimo 14 dias afastados. Então a gente está vivendo como profissional de saúde um risco de uma escassez de recursos humanos. E também a atenção pelo risco de infecção. A gente sabe que 40% dos trabalhadores da saúde se infectam. Então é um plantão muito tenso”, aponta.

Depois do resultado negativo e de um mês longe da família, ele pôde ver os filhos de 4 anos e 8 meses. “É um aprendizado constante e ao mesmo tempo é um chamado pra gente se encontrar enquanto profissional de saúde, que está cuidando não só de um indivíduo infectado, mas que está tentando cuidar de uma sociedade”, destaca.

Diniz atua no sertão do Rio São Francisco, onde o número de casos confirmados ainda está em torno de 50 pessoas e nenhum óbito. Ele destaca a mudança na rotina dos profissionais que atuam no enfrentamento à pandemia.

O cotidiano nosso como profissional de saúde mudou muito. São plantões muito diferentes do que a gente tem acostumado a dar. Diferente pela quantidade de precauções que a gente tem que ter, pelos EPIs. O processo de paramentação que é colocar os EPIs e retirar os EPIs dura praticamente uma hora. Por causa desses EPIs a gente não se conhece enquanto equipe. 

Isolamento

Diniz se tornou conhecido por meio de um vídeo que registra o momento em que ele e uma paciente, já no 18º dia de internação, dançam forró em plena Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ao som das palmas e canto dos outros profissionais da equipe, que entoaram o hino nordestino de Luiz Gonzaga, Asa Branca.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Diniz reflete sobre o grau de isolamento que os próprios EPIs trazem para a realidade dos profissionais que atuam durante a pandemia. Se não fosse a repercussão do vídeo, a paciente não iria reconhecê-lo, porque a vestimenta impede que seja possível ver o rosto dos profissionais de saúde e, inclusive, que a própria equipe se conheça. 

“A covid é uma doença da solidão, o cuidado em UTI é solitário, principalmente, para os pacientes. Ele é solitário também para as equipes, porque a gente não tem contato. É uma doença que nos torna invisíveis enquanto pessoa ali naquele cuidado e a doença que, ao mesmo tempo, está revelando os invisíveis da sociedade, que não tem como acessar, por exemplo, um auxílio de R$ 600, porque não tem celular, internet, acesso a banco”, destaca o médico.

A médica Taciana Oliveira não via a hora de retornar ao trabalho. Ela pegou o início da pandemia mas, como especialista em cuidados paliativos, tratamento para amenizar a dor de pacientes que não tem mais chance de restabelecer a saúde, a maior dificuldade foi não permitir a entrada de familiares para visita tanto aos pacientes da covid-19 quanto das demais enfermidades atendidas no hospital. 

Quando eu peguei esse caso e eu não pude permitir a presença do filho para um pai de 80 anos que estava morrendo, me cortou o coração. Essa doença não causa só o sofrimento físico como ela também causa um sofrimento psicológico e espiritual absurdo, porque a pontinha que eu senti, que foi esse caso, eu já me senti péssima. 

O paciente veio a óbito devido à gravidade do quadro. Oliveira relata que, mesmo entendendo os riscos de contaminação da doença, se diz “arrependida” em relação a esse caso e ressalta a importância de encontrar caminhos para diminuir o isolamento do paciente como meios de tratamento à covid-19, nem que seja por aparelhos celulares.

Ela e a equipe do Hospital Emílio Ribas atuam na implementação de alternativas para encurtar o distanciamento da família sem aumentar o risco de contágio. 

O hospital passa agora por um processo de estruturação dos cuidados paliativos para atender os casos graves de pacientes afetados pela doença, mas a preparação também envolve uma adaptação no caso de agravamento da crise sanitária, caso o número de infectados passe a ser maior do que a capacidade de atendimento, como aconteceu na Itália e já acontece em Manaus (AM).

Nesse caso, haverá necessidade de avaliar as chances de recuperação das pessoas para escolha da utilização dos equipamentos de saúde que restam e a intensificação dos cuidados paliativos para aqueles que não tiverem chances de recuperação.

Riscos

Diferente do hospital paulista, onde Taciana atua, a realidade da Unidade Básica de Saúde (UBS) em Brasília em que o médico da família e comunidade, Eros Davi A. B. Souto Lacerda, trabalha há três semanas, é o racionamento e falta de testes.

“Temos tido uma certa dificuldade com entrega da paramentação que precisa e de certa forma a gente economiza os materiais que recebe. Vários colegas acabam comprando por conta própria, máscaras, pijamas, etc. É algo que a gente escuta de alguns colegas até do sistema privado de saúde, que parece que existe uma certa pressão na economia do material. Por exemplo, uma máscara descartável você deveria trocar a cada duas horas, quatro horas, isso não ocorre”, afirma Lacerda, que aponta que falta testagem para população e para os profissionais que tem contatos com os pacientes suspeitos da covid-19.

O risco e medo de contaminação fizeram com que o médico saísse da casa em que morava com a família, três pessoas do grupo de risco, para morar em um apartamento de aluguel sozinho. 

Eu preferi me isolar, porque eu não me sentia seguro de voltar pra casa todos os dias. E assim, trabalhando numa unidade básica de saúde, imagina um profissional que, por exemplo, do HRAN [Hospital Regional da Asa Norte de Brasília], que é a linha de frente, que todo dia ele só atende pacientes suspeitos, ele só lida com isso. Como que essa pessoa consegue se isolar? Alguns até alugaram temporários, porque se sentiam inseguros.

Inicialmente ele acreditava que não fosse lidar com casos suspeitos da doença, visto que na capital federal as pessoas com sintomas são encaminhadas para o HRAN. Mas no seu primeiro dia na unidade, o médico já teve contato com um caso atípico da doença, um jovem de 25 anos sem problemas de saúde com um quadro grave, que teve que ser direcionado para tratamento no hospital.

Há dois meses sem abraçar a mãe e avó para evitar a covid-19 na família, Lacerda considera que os sentimentos de insegurança estão na imprevisibilidade da doença, tanto por ser uma enfermidade nova e letal, quanto pelas decisões do governo federal diante da pandemia.

“A gente fica com aquela coisa atrás da cabeça, ‘nossa, se por acaso desenvolver essa doença,  vou entrar no 0,3% dos jovens que se safam ou vou desenvolver um quadro grave’. A gente tem esse impasse, mas não é algo que tem me paralisado. Vamos ver como as coisas se desenrolam com todos os desdobramentos que devem acontecer nos próximos dias com relação a flexibilização do isolamento”, reflete.

Segundo boletim divulgado pelo Governo do Distrito Federal (GDF), até terça-feira (28/04), o DF registrou 1.384 casos confirmados do novo coronavírus e 28 óbitos. Os pacientes recuperados somam 791. 

Uma nota técnica de pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e infectologistas divulgada na segunda-feira (27/04), aponta que o total de mortes pela doença até o final do ano pode chegar a 6 mil pessoas caso haja um relaxamento total das medidas de contenção. Em dois cenários com medidas de relaxamento próximas do atual, um pouco mais flexíveis, o número de mortes estimados foram 800 e 2.500. 

O médico da família e comunidade faz um apelo à população para adotar a prudência em relação à pandemia independente de posicionamentos políticos.

“Se você tem dúvidas de quem está certo e quem está errado. Você talvez tentasse ser um pouco mais conservador. Então não leve muito por A ou B, não polarize muito as coisas. Vê a coisa de um ponto de vista mais racional, se você vai aderir a determinada recomendação ou não. Eu diria você como ser humano, não como apoiador de fulano ou ciclano, mas seja prudente”, recomenda.

Comunidade

O também médico da família, João Antônio de Almeira, atua em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) na periferia de Fortaleza (CE) no bairro Maura Brasil. Conhecida como “Oitão”, a região é uma mais pobres da capital cearense, o que acentua ainda mais a gravidade e risco de contágio da epidemia.

A cidade é o epicentro do novo coronavírus no estado, que é o segundo em número de casos do país. Até terça-feira (28/04), conforme a plataforma IntegraSUS, foram registrados 417 óbitos e  6.985 diagnósticos positivos para o SARS-CoV-2, vírus da doença.

“Na minha unidade são 5 mil pessoas inscritas, até agora a gente tem um caso confirmado. Mas a gente sabe que isso não é a realidade, porque nem todos estão fazendo o exame. Mesmo as pessoas que a gente encaminha para Unidade de Pronto Atendimento (UPA) eles acabam não fazendo”, explica Almeira, que afirma que no seu local de trabalho há menos casos do que em outras favelas da região.

Segundo o médico, quem mais tem sentido a falta de EPIs são os agentes de saúde e os agentes de endemias, que trabalham na rua em contato direto com a população.

Antes da pandemia, no dia a dia do trabalho, não havia necessidade constante de usar máscara, luvas, viseira ou óculos. Almeira aponta que a  dificuldade maior na UBS em que trabalha é a mudança dos hábitos dele e demais profissionais da equipe com relação à paramentação necessária, mas afirma que os profissionais tem se “cobrado” e estão se adaptando à situação.

“Eu vejo que nesse momento de pandemia fica tudo mais intenso, acaba exigindo mais dos profissionais de saúde, exigindo mais das pessoas. Gera todo um cenário de medo, do desconhecido e a mídia a todo momento divulgando dados de contaminação e de mortos. Então é um espaço dentro da comunidade, que nós enquanto profissionais de saúde, a gente se vê como mais uma pessoa para ajudar esse sofrimento da população”, pontua o médico.

Ele integra o Mais Médicos de Fortaleza e nesse momento de pandemia tem atuado com outros profissionais do programa também na informação das pessoas da comunidade, que tem pouco acesso aos recursos de educação em saúde, quando não estão a mercê de notícias falsas.

A partir das relações estabelecidas com o bairro anteriormente a pandemia, o grupo tem feito ações além do expediente de trabalho para informar a população sobre a doença. Por meio de grupos no Whatsapp com lideranças religiosas, famílias, professores e atuação nos territórios, a UBS tem conseguido resultado positivo na articulação para vencer a covid-19.

Para Almeira é dessa aproximação que vem o “conforto mental e espírito fortalecido” do trabalho cotidiano.

Eu me sinto muito útil socialmente, o papel enquanto médico e militante do SUS. Eu me sinto protegido com essa convivência e desse feedback que a gente tem da população, do carinho. A gente sabe que corre o risco de ser contaminado também, mas a gente está fazendo o nosso papel, estamos usando EPIs. É um risco, mas é um risco que a gente corre sabendo que a gente está fazendo o melhor para nossa comunidade 

O médico da família se formou em medicina em Cuba, onde, segundo ele, o profissional de saúde recebe uma educação mais humanitária voltada para a valorização da vida e da comunidade, e destaca que essa pandemia reforça os recortes da sociedade em relação às questões de raça, gênero e classe.

Para ele a resolução do novo coronavírus está também dentro dos territórios, seja nas favelas, nos assentamentos de trabalhadores rurais, quilombolas, indígenas e suas lideranças.

“Essas comunidades é que devem ser os principais cientistas, ou se somar como cientistas, com médicas e médicos e outros profissionais. A saída contra essa pandemia para obter melhores resultados seria essa unidade desses vários personagens políticos e de organizações que estão surgindo agora, muitos são novos”, acentua ele, que se reúne com profissionais de saúde de todo o país na Rede de Médicos e Médicas Populares.

Fonte: Brasil de Fato
Texto: Marina Duarte de Souza
Data original da publicação: 29/04/2020

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