Como combater as preferências políticas e econômicas do 0,1%

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Paul Krugman

[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Fonte: IHU On-Line, com El Captor
Tradução: Cepat
Data original da publicação: 30/06/2019[/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Há alguns dias, participei de uma conferência do Instituto de Política Econômica sobre a “desordem de riqueza excessiva”, os problemas e perigos criados pela concentração extrema de renda e riqueza na parte superior. Pediram-me que fizesse uma breve fala no início da conferência, centrando-me nas distorções políticas que a alta desigualdade cria e procurei colocar meus pensamentos em ordem.

Sendo assim, pensei que também deveria escrever esses pensamentos para uma difusão mais ampla. Ainda que o discurso popular se concentrou no “1%”, o que realmente está em discussão aqui é o papel do 0,1%, ou talvez do 0,01%, os verdadeiramente ricos, não os “400.000 dólares ao ano que recebe um broker de Wall Street”, ridicularizados no filme com o mesmo nome.

Este é um grupo de pessoas realmente pequeno, mas que exerce uma grande influência sobre a política. De onde provém esta influência? As pessoas costumam falar de contribuições de campanha, mas isso é só um canal. De fato, identificaria ao menos quatro formas em que os recursos financeiros do 0,1% distorcem as propriedades da política:

1. A corrupção crua. Gostamos de imaginar que o simples suborno de políticos não é um fator importante nos Estados Unidos, mas é quase certo que é muito mais importante do que gostamos de pensar.

2. A corrupção suave. O que quero dizer com isto é a diversidade de formas com as quais não é possível obter diretamente dinheiro dos políticos, funcionários do governo e pessoas com influência política, mas, sim, financeira ou indiretamente, por meio da promoção de políticas que servem aos interesses e preocupações dos ricos. Isto inclui a porta giratória entre o serviço público e o emprego no setor privado, as bolsas de reflexão e os honorários no circuito de conferências.

3. Contribuições de campanha. Sim, isto importa.

4. Definição de agenda. Por meio de uma diversidade de vias (a propriedade dos meios de comunicação, grupos de pressão ou a simples tendência a supor que ser rico também significa ser sábio), o 0,1% tem uma capacidade extraordinária em estabelecer a agenda de discussão política, em formas que podem estar fortemente em desacordo com uma avaliação razoável das prioridades e a opinião pública em geral.

De todos estes, quero me centrar no elemento 4, não porque seja necessariamente o mais importante. Como disse, suspeito que o elemento 1 é um assunto mais importante do que a maioria de nós pode imaginar. E, em particular, quero me centrar em um exemplo que para mim e para outros foi uma espécie de momento de radicalização, uma demonstração de que a riqueza extrema realmente degradou a capacidade de nosso sistema político em enfrentar problemas coletivos reais.

O exemplo que tenho em mente foi a extraordinária mudança na sabedoria convencional e nas prioridades políticas que ocorreram em 2010-2011, que longe de dar prioridade à redução do enorme sofrimento que ainda acontece, após a crise financeira de 2008, dirigiu-se a evitar um suposto risco de uma crise da dívida. Este episódio é relativo ao passado, mas tem sido extraordinário e impactante nesse momento, e pode ser um precursor da política no futuro próximo.

Falemos primeiro sobre as circunstâncias econômicas subjacentes. Em inícios de 2011, a taxa de desemprego nos Estados Unidos permanecia em 9% e o desemprego a longo prazo estava em níveis extraordinários, com mais de 6 milhões de estadunidenses permanecendo sem trabalho em um período de 6 meses ou mais. Era uma situação econômica feia, mas suas causas não eram um mistério.

A explosão da bolha da moradia e as tentativas subsequentes das famílias em reduzir sua dívida tinham provocado um grave déficit da demanda agregada. Apesar das taxas de juros muito baixas segundo os padrões históricos, as empresas não estavam dispostas a investir o suficiente para compensar o retrocesso experimentado nos lares.

A economia dos livros didáticos oferecia conselhos muito claros sobre o que fazer nestas circunstâncias. Este era exatamente o tipo de situação em que o gasto público ajudaria a economia, ao satisfazer a demanda que o setor privado não tinha.

Infelizmente, o apoio oferecido pela Lei de Recuperação e Reinvestimento dos Estados Unidos, o estímulo de Obama, que foi inadequado, mas ao menos amortizou os efeitos da depressão, alcançou seu ponto máximo em meados de 2010 e estava em processo de cair bruscamente. Sendo assim, o óbvio, segundo o movimento de Economia 101, teria sido implementar outra rodada significativa de estímulos. Além disso, o governo federal ainda podia obter empréstimos a longo prazo, com taxas de juros reais próximas a zero.

No entanto, ao longo de 2010, surgiu um consenso no mundo político e midiático de que, diante dos 9% de desemprego, os dois temas mais importantes deveriam ser… a redução do déficit e a “reforma dos direitos”, ou seja, os cortes na Seguridade Social e o ‘Medicare’.

E me refiro ao “consenso”. Como Ezra Klein destacou, “as regras de neutralidade jornalística não se aplicam quando se trata do déficit”. Citou, por exemplo, que Mike Allen perguntou a Alan Simpson e Erskine Bowles “se acreditavam que Obamafaria ‘o correto’ em relação aos direitos, dando a entender que ‘o correto’ significava claramente ‘cortar os direitos’. Então, de onde veio este consenso?

Para ser justos, o público em geral nunca aceitou a economia keynesiana. Pelo que sei, a maioria dos eleitores, se lhes é perguntado, sempre dirá que o déficit orçamentário deveria diminuir. Em novembro de 1936, justamente após a reeleição de FDR[Franklin Delano Roosevelt], foi perguntado aos eleitores se a nova administração deveria equilibrar o orçamento: 65% disse que sim, só 28% não. No entanto, os eleitores tendem a dar uma prioridade relativamente baixa aos déficits em comparação aos empregos e a economia. E favorecem em grande medida o gasto em saúde e Seguridade Social.

Mas, os ricos são diferentes de você e de mim. Em 2011, os cientistas políticos Benjamin Page, Larry Bartels e Jason Seawright examinaram a ideologia de um grupo de pessoas endinheiradas na região de Chicago. Encontraram diferenças notáveis entre as prioridades políticas deste grupo e as do público em geral. Os déficits orçamentários encabeçaram a lista de problemas que consideravam “muito importantes”, e um terceiro os considerava o problema “mais importante”.

Embora os entrevistados também tenham expressado sua preocupação pelo desemprego e a educação, “ficaram em um segundo e terceiro lugar entre as preocupações dos estadunidenses ricos”. E quando se tratava de direitos, as preferências políticas dos ricos ficaram claramente em desacordo com as do público em geral. Em grandes proporções, os eleitores em geral queriam ampliar o gasto em atenção médica e Seguridade Social. Em proporções quase também grandes, os ricos queriam reduzir o gasto nesses mesmos programas.

Qual foi a origem do consenso de sabedoria convencional que surgiu em 2010-2011? Um consenso tão esmagador, em razão do qual os principais jornalistas abandonaram as convenções de neutralidade das reportagens, e descreveram as políticas de austeridade como a “coisa correta” e evidente que devem ser efetivadas pelos políticos? O que ocorreu, essencialmente, foi que o establishment político e dos meios de comunicação transferiu à sociedade as preferências dos extremamente ricos.

Contudo, se 2011 foi um exemplo especialmente gráfico de como acontecem estas coisas, não foi o único. Em seu recente livro Billionaires and Stealth Politics, Page, Seawright e Matthew Lacombe destacam os efeitos duradouros da influência política plutocrática no debate da Seguridade Social: “Apesar do forte apoio entre a maioria dos estadunidenses para proteger e ampliar os benefícios da Seguridade Social, por exemplo, a intensa campanha de décadas de duração para reduzir ou privatizar aSeguridade Social, liderada pelo multimilionário Peter Peterson e seus aliados ricos, parece ter contribuído para frustrar qualquer possibilidade de expandir os benefícios da Seguridade Social. Ao contrário, os Estados Unidos se propuseram repetidamente (inclusive sob os presidentes democratas Clinton e Obama) a cortar benefícios como parte de uma ‘grande negociação’ bipartidarista em relação ao orçamento federal”.

E aqui está a coisa: Embora não queiramos romantizar a sabedoria do homem comum, não há absolutamente nenhuma razão para acreditar que as preferências políticas dos ricos se baseiem em uma compreensão superior de como funciona o mundo. Ao contrário, os ricos estavam obcecados com a dívida e não estavam interessados no desemprego massivo em um momento em que os déficits não eram um problema, eram, de fato, parte da solução, ao passo que o desemprego, sim, era um problema.

E a crença generalizada entre os ricos de que devemos aumentar a idade da aposentadoria se baseia, literalmente, em não entender como vive a outra metade (ou, na realidade, não). Sim, a expectativa de vida aos 65 anos aumentou, mas de maneira indiscutível para a parte superior da distribuição de renda. Os estadunidenses menos ricos, que são justamente as pessoas que mais dependem da Seguridade Social, viram pouco aumento na expectativa de vida, razão pela qual não há justificativa para obrigá-los a trabalhar mais.

De onde vem as preferências dos ricos? Não é preciso ser um marxista vulgar para reconhecer um forte elemento de interesse de classe. O impulso à austeridade estava claramente relacionado ao desejo de reduzir o estado de impostos e transferências, que em todos os países avançados, inclusive nos Estados Unidos, é uma força importante para a redistribuição dos ricos aos cidadãos com renda mais baixa.

É possível ver os verdadeiros objetivos da austeridade de várias maneiras. Primeiro, em comparação com outros países avançados, os Estados Unidos têm impostos baixos e gasto social baixo, mas quase toda a energia dos falcões se dirigiu a demandas de gastos reduzidos, em vez de impostos mais altos.

Em segundo lugar, chama a atenção o nível de histeria pelo déficit, que escutamos agora, em comparação há sete anos. O déficit orçamentário de pleno emprego, agora, é quase tão grande como a mesma proporção sobre o PIB de inícios de 2012, quando o desemprego ainda estava acima dos 8%. Contudo, este déficit, ainda que muito menos justificado por considerações macroeconômicas, foi produzido pelos cortes de impostos e, de alguma maneira, os falcões do déficit estão muito tranquilos.

Sem dúvida, muitos ridos partidários dos cortes de impostos para si mesmos e dos cortes de benefícios e direitos para os outros conseguem se convencer de que isto é para o interesse de todos. As pessoas em geral são boas com esse tipo de autoengano. O fato é que os ricos, em média, pressionam para obter políticas com as quais possam se beneficiar, inclusive quando na maioria das vezes prejudicam a economia em seu conjunto. E a riqueza dos ricos é o que lhes permite conquistar grande parte de suas pretensões.

Então, quais as implicações de tudo o que foi dito até agora frente ao futuro? Primeiro, em curto prazo, tanto durante a eleição de 2020 como depois, será muito importante ficarmos atentos aos políticos centristas, como também aos meios de comunicação, e não lhes permitir que inaugurem outro 2011, considerando as preferências políticas do 0,1% como “o correto”, em vez de, digamos, o que deseja certa pequena classe de pessoas.

Há uma lista bastante longa de coisas que os progressistas recomendaram, recentemente, que os suspeitos habituais tentarão convencer a todos de que são ideias loucas que ninguém sério apoiaria como, por exemplo, uma taxa de imposto marginal máxima de 70%, um imposto à riqueza para grandes fortunas, cuidado infantil universal, gasto em infraestrutura financiado com o déficit.

Não preciso apoiar qualquer uma ou todas estas ideias políticas para reconhecer que não são uma loucura. De fato, estão apoiadas nas pesquisas de alguns dos principais especialistas em economia do mundo. Qualquer jornalista ou político centrista que as trate como evidentemente irresponsáveis, está perpetrando um 2011, internalizando as preocupações dos ricos e as tratando como se fossem fatos. Mas, embora a vigilância possa mitigar até que ponto os ricos podem definir a agenda da política, ao final, o grande capital encontrará um caminho, a não ser que haja menos dinheiro para começar. Portanto, reduzir a concentração extrema de renda e a riqueza não é só uma coisa desejável por razões sociais e econômicas. É também um passo necessário para um sistema político mais saudável.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]

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