Chile: outra revolta social contra o neoliberalismo e o establishment político. E agora?

Fotografia: Claudio Reyes/Getty Images

O que acontece ou pode acontecer nos próximos dias no Chile é imprevisível.

Cecilia Vergara Mattei

Fonte: Carta Maior, com CLAE
Tradução: Victor Farinelli
Data original da publicação: 21/10/2019

O que acontece ou pode acontecer nos próximos dias no Chile é imprevisível. A indignação com os resultados político-econômicos da ideologia neoliberal e o regime corrupto do piñerismo (com a cumplicidade da centro-esquerda) chegou ao fundo do poço. O povo chileno perdeu a paciência e iniciou o caminho da desobediência civil.

O Chile não tem registros de um período de resistência civil de natureza urbana tão massivo, sustentado e furioso. Uma mobilização que vem ocorrendo desde o dia 18 de outubro, após a promulgação do Estado de exceção e do toque de recolher.

“A cidade tornou-se uma expressão dos direitos sociais inexistentes em um país que representa a caricatura do manual do liberalismo mais ortodoxo. Relações sociais, devoluções de mercadorias; bens comuns privatizados; uma oligarquia cultural e raivosamente liberal na esfera econômica”, diz Andrés Figueroa.

O slogan do momento é “abaixo o Estado de exceção”. Hoje, no Chile, o medo não derrota mais os protestos. Em rede nacional, o presidente Piñera informa que apresentará uma proposta para “aliviar” o aumento da passagem, mas não haverá soluções mais profundas. Poucos imaginariam que o Chile seria o protagonista de uma revolta popular, mas o mal-estar das maiorias sociais se acumulava há longos anos, expressando-se parcialmente através de lutas desagregadas.

Após os protestos, não há partidos políticos ou organizações sociais mais ativas. De fato, a oposição institucional demorou para reagir, e o fez de forma fria, com uma crítica previsível às medidas do governo. Os funcionários do governo falam de tabelas nacionais de unidade, e de diálogo social, elementos que têm poucas chances de resolver, já que não carregam contradições irreconciliáveis.

A situação é grave: o povo de Santiago deixou claro que Sebastián Piñera, seu governo e seu programa falharam. Mas não apenas o presidente está envolvido na corrupção e nas mentiras, como também as Forças Armadas e os empresários ligados aos grandes partidos do sistema, que surgiram após a ditadura civil-militar de Augusto Pinochet.

A explosão social ainda é muito recente e espontânea, como sempre acontece no prelúdio das grandes transformações – como as da Venezuela de Carlos Andrés Pérez (Caracaço de 1989) ou da Argentina de 2001, que o levou o então presidente Fernando de la Rúa a fugir de helicóptero da Casa Rosada.

Agora, já não se trata somente dos estudantes, a quem devemos dedicar os mais altos níveis de reconhecimento. Para os trabalhadores e idosos talvez seja mais arriscado enfrentar as autoridades, por medo de perder o emprego e de ser reprimido por um estado policial que mostra o mesmo discurso e os mesmos poderes dissuasivos da última ditadura.

Não devemos esquecer que a Constituição de Pinochet, ainda vigente no Chile, garante privilégios e leis especiais às Forças Armadas, seguindo o modelo sugerido pelos Estados Unidos de uso desses efetivos em tarefas de segurança interna. Para isso, o Estado sim se permite gastar enormes recursos, e usar a desculpa de combater a delinquência, embora na prática, a ação seja só de reprimir os estudantes.

A reação popular em toda a cidade de Santiago acelerou a fragmentação da aliança Chile Vamos, o setor de direita que apoia Piñera e que mostrou suas fissuras discursivas ao reagir aos protestos.

Por sua parte, a oposição não possui um programa, está dividida e é rejeitada por trabalhadores e jovens. O partido socialista está envolvido em problemas de corrupção e foi acusado pela direita de vínculos com o tráfico de drogas; o Partido Comunista tenta reconstruir sua representação e raízes populares; o Partido Democrata Cristão se divide entre seus setores internos mais à direita e mais à esquerda, e não sabe dialogar com os partidos da terceira via progressista, unidos pela Frente Ampla.

O povo mostrou sua disposição política, superou o medo, mas falta a liderança revolucionária e a liderança de um líder carismático, segundo apontam os analistas.

A noite deste sábado, 19 de outubro, entrará para a história: milhares de cidadãos nas ruas, a polícia incapaz de lidar com a situação, Piñera convocando o Exército e a capital cheia de militares nas ruas.

Mais de 40 estações de metrô foram queimadas, houve saques e incêndios em supermercados e armazéns, barricadas nos bairros, incêndios em prédios de empresas elétricas e muitos ônibus, e até um ataque ao prédio do jornal El Mercurio, em Valparaíso, além de alguns bloqueios de estradas.

Em 48 horas, a cidade de Santiago foi literalmente ocupada e incendiada pelo movimento de desobediência civil, que começou com o protesto de estudantes do ensino médio contra o aumento da passagem de transporte urbano, algo muito semelhante à situação no Equador.

Além de Piñera, todo um sistema no qual se basearam todos os governos da transição da pós-ditadura civil-militar chilena, sustentados pela falsidade da democracia representativa, começam a enfrentar uma crise irreversível.

Os governos chilenos e a mídia hegemônica falam sobre o milagre econômico chileno, mas no país há uma das maiores brechas entre ricos e pobres que se pode observar no mundo. O Chile é uma das nações com maior concentração econômica, e a realidade da grande maioria da população é de salários e aposentadorias realmente vergonhosos.

O neoliberalismo chileno, o mais selvagem do mundo, começa a fazer água diante da crescente agitação social, quando um novo aumento nos preços dos combustíveis e a mobilização coletiva causou a ira de centenas de milhares de trabalhadores cujas rendas esquálidas não podem enfrentar nem o menor aumento no custo de vida.

Não há dúvidas de que a calma social imposta na pós-ditadura está chegando ao fim, e que o povo chileno está convencido de que somente com sua ação determinada nas ruas poderá ter suas demandas ouvidas e talvez efetivadas, uma vez que a classe política como um todo é corrupta, insensível e incapaz de atuar como representante e intermediário perante o Estado.

Cecilia Vergara Mattei é jornalista chilena, associada ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).

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