Cem anos de linha de montagem fordiana

Lorena Holzmann

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Há 100 anos atrás, em abril de 1913, Henry Ford fez instalar em sua montadora de automóveis, nos Estados Unidos, a cinta móvel, a qual, mantendo cada trabalhador no seu posto de trabalho, trazia até eles os componentes de cada conjunto funcional dos carros a serem montados.

A ideia não era original. Sistema semelhante era utilizado nos matadouros de Chicago e em algumas empresas americanas, desde o fim do século XIX. Ford adaptou-o à produção de automóveis.

Anteriormente, algumas inovações técnicas e organizacionais já estavam sendo feitas na montadora Ford que visavam elevar a produtividade, reduzir ou “economizar” o tempo de produção, diminuindo os custos e incrementando os ganhos. Destacam-se a maior divisão técnica do trabalho, a mecanização de todas as operações passíveis de serem mecanizadas, inovações que buscavam, também, superar as dificuldades com a mão de obra. No início da segunda década do século XX, esta era formada por uma maioria de imigrantes, oriundos de zonas rurais de países europeus, sem experiência de trabalho industrial e com conhecimento precário ou inexistente do idioma inglês. Eram incapazes de atender à demanda de qualificações requeridas para o desempenho de tarefas especializadas, até então executadas por mecânicos com alta qualificação. Com aquelas inovações, a produção passava a dispensar o emprego de grandes quantidades de trabalhadores qualificados, cujo aprendizado tendia a ser bastante longo. Essas condições eram entraves ao aumento da produção que pudesse satisfazer a demanda de um consumo em expansão.

Taylor já havia contribuído para minimizar estes problemas. A simplificação e rotinização do trabalho que implantou pela divisão do trabalho, maior separação entre concepção e execução, o ensino compulsório de uma única e, para ele, a melhor maneira de executar cada operação necessária para a produção de um produto, permitiu transformar uma pessoa qualquer em trabalhador industrial, segundo argumenta Braverman.

A esteira móvel introduzida por Ford, elemento central da linha de montagem, associada com a maior divisão técnica do trabalho, foi inicialmente implantada na montagem dos magnetos (geradores elétricos que fornecem a tensão necessária para produzir a faísca no motor), com resultados surpreendentes: de uma média de 35 a 40 unidades produzidas por um operário qualificado numa jornada de 9 horas diárias elevou-se para 1.335 unidades, produzidas por 14 operários (que executavam repetidamente tarefas parciais e simplificadas) durante uma jornada de 8 horas (Neffa). O mesmo sistema organizacional e técnico foi sendo implantado em todos os setores das montadoras Ford. O tempo de montagem do chassi dos carros era, em abril de 1914, apenas 1/6 do tempo gasto um ano antes. Foi o início da produção em massa (a que correspondeu o consumo em massa, fechando o circuito produção-consumo, viabilizado por Ford por meio da elevação dos salários), adotada por outros setores da produção industrial, nos Estados Unidos e no resto do mundo, vindo a se constituir no paradigma organizacional ao longo do século XX.

Qual a importância dessas inovações?

Como paradigma organizacional no chão de fábrica, representou um imenso avanço na racionalização do trabalho, na elevação da produção e da produtividade, além de aprofundar o controle do capital sobre o trabalho, “economizando o tempo”, intensificando o trabalho, tornando-o mais denso e, consequentemente, aumentando a exploração sobre os trabalhadores. O ritmo de trabalho passou a ser determinado pela aceleração da esteira móvel, independente da intervenção dos operários. Tempos modernos, de Charles Chaplin, é o ícone dessa realidade. Enfim, a submissão real e efetiva do trabalho ao capital.

Mas, independente dos propósitos, das ideias e da filosofia de Henry Ford, e até em oposição a elas, o paradigma fordista incorporou elementos não previstos por seu criador, como a participação dos trabalhadores nos ganhos de produtividade, por meio da ação de suas organizações representativas, os sindicatos; a intervenção do Estado regulador na economia e no desenvolvimento de sua atuação pela via de políticas sociais e trabalhistas que vieram a configurar o “Estado de bem-estar”, garantidor de benefícios à população, com diferentes configurações em cada contexto nacional, dependendo do poder de negociação e de barganha da classe trabalhadora em seu embate com o empresariado.

A combinação do paradigma produtivo de Ford e das proposições econômicas e políticas de Keynes (formuladas no contexto da grande depressão dos anos 1930) veio a conformar o arranjo institucional da sociedade capitalista desde o final da década de 1940 até os anos 1970, quando entra em crise. A reestruturação produtiva, a desregulamentação dos contratos de trabalho, a flexibilização das relações laborais, a reorganização dos processos de trabalho e de produção, o enxugamento do Estado, com suas políticas de cortes de gastos e de privatizações de serviços públicos, a liberação dos mercados têm sido resposta àquela crise. Segundo os estudiosos da contemporaneidade, inicia-se uma nova etapa na sociedade capitalista e no processo de acumulação do capital. Os resultados estão evidentes: a crise não foi solucionada. Ao contrário, ela agravou-se. E os maiores perdedores (ou os únicos) têm sido os trabalhadores.

Referências

Braverman, H. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

Holzmann, Lorena. Fordismo. In: Cattani, A. D.; Holzmann, L. Dicionário de Trabalho e Tecnologia. Porto Alegre: Tomo, 2012.

Keynes, J.M. Teoria geral do emprego, do juro e da moeda. São Paulo: Atlas, 1982.

Neffa, J. C. El de trabajo y la economía de tempo: contribución al análisis crítico de K. Marx, F. W. Taylor y H. Ford. Buenos Aires: Humanitas, 1989.

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Lorena Holzmann é socióloga, Doutora em Sociologia pela USP e professora titular do PPG Sociologia/UFRGS.

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