Capitalismo biocognitivo e trabalho: desafios à saúde e segurança

Elsa Cristine Bevian

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Fonte: Cadernos IHU ideias, São Leopoldo, ano 13, v. 13, n. 233, 2015.

Resumo: O capitalismo biocognitivo que estamos vivenciando afeta de forma significativa o mundo do trabalho, a saúde e a segurança dos trabalhadores. Relações de resistência são urgentes, pois os trabalhadores vivenciam situações contraditórias diante da pressão e do assédio moral que sofrem. O adoecimento físico e mental dos trabalhadores, vítimas das constantes reestruturações, precarização dos processos e relações nos ambientes de trabalho, geram preocupação, especialmente com o sofrimento causado. Este adoecimento é consequência da competição e concorrência mundial exacerbadas – todas as empresas querem produzir mais, lucrar mais, em menor tempo e com menor custo, exercendo pressão sobre os trabalhadores e as trabalhadoras para que produzam em ritmo alucinado, além dos seus limites físicos e mentais. É a mais-valia a qualquer custo, sem se importar com a dignidade dos trabalhadores. Esta condição humana de falta de liberdade afetou a construção da identidade social dos trabalhadores e, em termos históricos, alcança a potencialização da alienação no estágio atual do capitalismo. O fenômeno social do adoecimento dos trabalhadores aponta contradições e conflitos sociais, e, no caso das ciências humanas, que estão atentas a como os fatos se apresentam, por que e para que tornam-se questões interessantes para compreensão e explicação de fenômenos que se relacionam com os destinos dos trabalhadores na vida em coletividade.

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Há um fenômeno crescente de adoecimento físico e mental dos trabalhadores, vítimas das constantes reestruturações, precarização dos processos e relações nos ambientes de trabalho, gerando preocupação, especialmente com o sofrimento causado. O corpo sofre, unindo a subjetividade do perceber e a objetividade do exprimir, que se sujeita, violentando seu desejo e seu querer, para sobreviver. Os trabalhadores, muitas vezes, não podem ser, eles mesmos, humanos, precisam ser entes despersonalizados, coisas, objetos, seres sem emoção e razão – representam um personagem. Esta des-humanização do trabalho leva ao sofrimento patológico, através de doenças físicas e psíquicas, no sistema musculoesquelético, neurológico, na pele, no sistema digestivo, circulatório e em outros inúmeros diagnósticos.

A iniciativa e a criatividade são cerceadas pela maneira como é organizado e controlado o trabalho. Os gestos exigidos pelo trabalho são vazios de sentido e ocultam a possibilidade de mudar a situação. “A gestão é desenhada de forma a evitar espaços de manifestação dos afetos e dos sentimentos, negando a função reguladora da subjetividade no ato de trabalhar” (ABRAHÃO E SNELWAR, 2008).

O poder produz verdades e sujeição. É possível ao corpo uma outra realidade, ser e fazer diferente? É possível alguma saída neste capitalismo biocognitivo – definição terminológica do capitalismo contemporâneo, utilizada por Andrea Fumagalli, em que há a junção do capitalismo cognitivo com a bioeconomia – em que vivemos? Para Fumagalli, a “essência da economia política moderna” é a que foi muito bem expressada em A fábula das Abelhas, por Bernard Mandeville, em 1714:

Estabeleci como máximas, que devemos cumprir sempre, que os pobres sejam rigorosamente obrigados a trabalhar e que é prudente aliviar as necessidades deles, mas que é loucura eliminar tais necessidades […] A riqueza mais segura consiste numa multidão de pobres que trabalham.

Mandeville escreveu isso como fábula, que serve para descrever o que ele percebia como realidade do seu tempo – já no século XVIII! Por isso, diz Fumagalli, que é singular esta afirmação, ou seja, “não pode haver capitalismo sem haver pobres e trabalhadores… Sem eles não há vida moderna!”. Para Fumagalli, o “biocapitalismo cognitivo” contém como características:

a produção não se limita unicamente aos bens materiais; as mercadorias são algo cada vez mais intangível, dificilmente mensuráveis e quantificáveis, fruto das faculdades relacionais, afetivas e cognitivas dos seres humanos; a produção não se baseia num esquema homogêneo e estandardizado de organização do trabalho, mesmo prescindindo do tipo de bem que é produzido […]; a produção laboral modificou-se tanto quantitativa quanto qualitativamente […].

O trabalho, assim como é organizado hoje, não nos torna livres. As profundas transformações tecnológicas e produtivas dos últimos trinta anos mudaram o modo de trabalhar, exigindo cada vez mais o envolvimento das faculdades mentais e relacionais dos seres humanos.

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Elsa Cristine Bevian é é professora titular do Departamento de Direito pela Fundação Universidade Regional de Blumenau – FURB, onde leciona Direito do Trabalho e Direito Sindical e coordenadora do Grupo de Pesquisas Trabalho, Constituição e Globalização na mesma instituição. Possui doutorado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Durante o doutorado, passou pela Universidade Rovira i Virgili, em Tarragona, e pelo Instituto de Pesquisas Sociais (Institut für Sozialforschung), em Frankfurt. Sua Tese doutoral versa sobre “O Adoecimento dos Trabalhadores com a Globalização da Economia e Espaços Políticos de Resistência”. É mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí – Univali, possui graduação em Direito pela FURB.

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