Brasil tal como a economia mundial: sem impulsos de crescimento

Fotografia: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Em entrevista ao jornal Valor nos últimos dias de 2019, Martin Wolf, editor associado e comentarista chefe de Economia do Financial Times, declarou-se cético em relação à possibilidade de um crescimento um pouco maior da economia mundial nos próximos anos.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 06/01/2020

Em entrevista ao jornal Valor nos últimos dias de 2019, Martin Wolf, editor associado e comentarista chefe de Economia do Financial Times, declarou-se cético em relação à possibilidade de um crescimento um pouco maior da economia mundial nos próximos anos, em especial no período 2020-2021. Dado que a política monetária não tem mais muito espaço para produzir efeitos positivos, vista a proximidade das taxas de juros de seus níveis mínimos históricos mundo afora, restaria um apelo à combinação de dois caminhos, uma atuação mais decisiva da política fiscal e um avanço no processo de distribuição de renda que propiciasse estímulos ao consumo.

Wolf não acredita que haja esforços neste sentido por parte das grandes economias e, se considerarmos a desaceleração da China e as incertezas quanto ao Brexit e à questão comercial EUA-China, o ambiente não será favorável a investimentos de peso que possam lhe surpreender e reverter suas expectativas. Pelo contrário, a situação até se agravou nos últimos anos com o envelhecimento da população, piora da distribuição de renda e aumento das taxas de poupança.

Adaptando o debate para o Brasil, a situação é parecida. No que se refere ao tema do crescimento, a política econômica atual é quase passiva. No campo monetário deu sequência ao rebaixamento dos juros básicos, mas já chegou no limite, e à agenda de aumentar a competição no mercado de crédito. No entanto, recusa-se a sequer debater qualquer forma de incentivo pelo lado fiscal, uma questão que assumiu o caráter de dogma. E no que toca à distribuição de renda, a reversão é completa em relação ao passado recente, desmontando-se praticamente tudo que foi construído, como a política de valorização do salário mínimo e o ambiente de formalização das relações de trabalho. Desde a reforma trabalhista de Temer o que se vê é o avanço da informalidade e da subutilização da mão de obra, associados inevitavelmente à redução ou ao lento crescimento dos rendimentos.

Os sinais de elevação do índice de Gini já apareceram e tendem a se consolidar, perdendo-se a oportunidade de se trabalhar com os ganhos de escala que um mercado de massas poderia proporcionar. Para além de uma questão de justiça social ou de resgate de dívidas históricas da sociedade brasileira com suas camadas de baixa renda, o avanço da distribuição é uma forma reconhecida e testada de alavancar o crescimento. No caso brasileiro, em especial, bem testada e medida por vários trabalhos acadêmicos, tanto pelo efeito propensão a consumir dos mais pobres como pelo “efeito-cesta de consumo”, o primeiro proporcionando um multiplicador maior do PIB e o segundo, um incremento do emprego nos setores produtores de bens e serviços demandados pela base da pirâmide.

Abrindo mão de contar com estas políticas de estímulo ao crescimento da economia, seja a fiscal, seja a de redistribuição, a política econômica atual aposta suas fichas no avanço de reformas horizontais que criem um ambiente mais favorável aos negócios, como mais liberdade de empreender, reorganização tributária – bem menos que uma efetiva reforma tributária –, privatizações, desregulamentação crescente do mercado de trabalho e o já referido aumento da competição no mercado financeiro, dentre outras.

Tais orientações trarão resultados em termos de expansão da economia? Penso que sim, mas a questão importante não é esta. O que realmente interessa é a velocidade da recuperação – dado o fato lamentável de que ao final de 2020 ainda estaremos produzindo menos do que em 2014, antes da recessão –, que novo ritmo de crescimento seremos capazes de sustentar, e que tipo de crescimento ocorrerá, no sentido de beneficiar que setores e que parcela da sociedade. No cenário atual, nada indica que a recuperação será rápida, que haverá uma taxa sustentável de cerca de 3% a 4% anuais e, muito menos, que o padrão de expansão será não excludente das camadas de baixo da distribuição.

Portanto, com uma situação social bem pior do que a dos países centrais a que Martin Wolf se referia na entrevista do final do ano passado, nossa política econômica acabou por ficar parecida com a deles e vamos mais uma vez desperdiçar a oportunidade de contar com uma variável que a maioria dos países do mundo gostaria de ter, um amplo mercado consumidor capaz de gerar enormes economias de escala.

Flavio Fligenspan é professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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