Austeridade mergulha a Grécia numa crise humanitária

A Organização Comunista da Grécia (KOE), que integra a coligação de esquerda Syriza, apresenta uma compilação de dados que espelha a crise humanitária que a Grécia atravessa atualmente, e que resulta da política de austeridade imposta pelo executivo grego e pela troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional).

Quase três anos após o pedido de intervenção externa, e a implementação de fortes medidas de austeridade, que se traduziram na redução de salários e pensões, em demissões em massa no serviço público, em cortes acentuados em áreas como a saúde, a educação e a seguridade social, a Grécia vive o sexto ano de recessão. Em 2009, o PIB grego chegava a 231,1 bilhões de euros. Para 2013, o governo prevê, numa perspectiva bastante “otimista”, um PIB de 183 bilhões de euros, o que, em comparação com 2008, representa uma queda de 24%.

De acordo com a própria Comissão Europeia (CE), entre 2009 e 2011, as famílias gregas perderam 17% do seu rendimento real, enquanto em países como a Irlanda e a Espanha as perdas de rendimento fixaram-se em 5% e 8%, respectivamente. A maioria dos trabalhadores gregos, tanto do setor privado como do setor público, assim como os aposentados, perderam entre 30% a 50% do seu rendimento durante estes três anos. Muitos gregos sujeitam-se atualmente a trabalhar por valores abaixo do salário mínimo (586 euros), sem quaisquer garantias contratuais e até mesmo sem qualquer tipo de ordenado, na esperança de receber algum dia pelo menos uma parte dos salários devidos.

Ao mesmo tempo em que veem o seu rendimento diminuir abruptamente, as famílias gregas são confrontadas com um verdadeiro assalto fiscal. Os trabalhadores considerados independentes e as pequenas e médias empresas estarão, em 2013, sujeitos a um aumento de impostos que chega aos 420%. As reduções de impostos para famílias com crianças foram eliminadas, ao mesmo tempo em que as grandes multinacionais e os proprietários de navios são praticamente isentos de impostos.

O governo de Antonis Samaras implementou ainda uma série interminável de impostos “extraordinários”, na forma de imposto de habitação social e de imposto de solidariedade fiscal, sendo que todas as receitas resultantes da sua aplicação são utilizadas para a “recapitalização do sistema bancário” e para o pagamento de juros da dívida. Enquanto que as famílias pobres que não podem pagar estes impostos são punidas pelo governo grego, que chega a cortar o fornecimento de energia elétrica nas suas casas, as grandes empresas desfrutam de reduções ou até mesmo de isenções deste tipo de taxação.

A taxa de desemprego na Grécia subiu de 9,5% em 2009, para 12,5% em 2010, e para 17,7% em 2011, chegando, em outubro de 2012, a cerca de 27%. Entre os 1.300.000 desempregados contabilizados nas estatísticas oficiais gregas, menos de 200.000 têm acesso a qualquer tipo de auxílio de desemprego.

A porcentagem de pessoas que estão vivendo em condições de pobreza passou, por sua vez, de 12,1% em 2000, para 16,3% em 2010, e disparou para 22,9% em 2011, ano em que ainda existiam inúmeros serviços e prestações sociais que, entretanto, foram extintos. Em 2012, as organizações humanitárias estimam que a taxa de pobreza tenha aumentado ainda mais, tendo em vista a piora das condições de vida da população.

Os cortes orçamentais no setor da saúde, que determinaram o fechamento de vários hospitais e centros de prevenção e deixaram muitos estabelecimentos de saúde sem as condições mínimas de funcionamento, sofrendo de falta de profissionais, material básico e medicamentos, têm contribuído para a deterioração das condições de saúde dos gregos.

Também o aumento acentuado das taxas moderadoras, o aumento das despesas dos cidadãos com medicamentos e o condicionamento do direito ao acesso à saúde, fazendo-o depender do número de dias trabalhados no ano anterior, contribuem para a dificuldade de acesso, por parte dos desempregados de longo tempo e dos cidadãos sem seguro de saúde, aos cuidados básicos de saúde, levando o Centro de Controle de Doenças da União Europeia a alertar novamente para um possível surto de infecções virais, vírus hospitalares, doenças contagiosas, e para o aumento exponencial do número de infectados com o vírus HIV (AIDS).

Ainda que, em dezembro de 2012, o frio tenha sido sentido na maior parte do país, o consumo de aquecimento a óleo observou uma diminuição de 7,5%, resultado do aumento dos impostos que estão associados.

Além de estar condenada ao frio, a população grega também se vê agora confrontada com a fome. De forma semelhante ao que se tem observado em Portugal, a população de sem-tetos e o número de cidadãos gregos que estão recorrendo à chamada “sopa dos pobres” têm registrado um acréscimo significativo. Nas dioceses de Neapolis e Stavroupolis eram servidas, em 2010, 1.387 refeições. Em 2011, o número aumentou para 2.445 e, em 2012, para 5.223.

Também como vem ocorrendo em Portugal, existem cada vez mais casos de crianças e jovens com fome nas escolas, que chegam mesmo a desmaiar dado o seu estado de fraqueza, e estão sendo vistos casos de crianças que chegam aos serviços de emergência dos hospitais com fome ou por causa de uma alimentação deficiente.

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Fonte: Esquerda.net

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