Análise arqueológica das estratégias utilizadas por homossexuais no trabalho bancário

Eloísio Moulin de Souza
Mônica de Fátima Bianco
Priscilla de Oliveira Martins da Silva

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Fonte: Farol: Revista de Estudos Organizacionais e Sociedade, Belo Horizonte, v. 3, n. 6, p. 12-59, abr. 2016.

Resumo: O artigo objetiva analisar as estratégias utilizadas por trabalhadores bancários homossexuais contra eventuais atos discriminatórios e preconceituosos no local de trabalho. Para o alcance do objetivo proposto foi realizada uma pesquisa qualitativa em que foram entrevistados trabalhadores do setor bancário público federal. De acordo com os resultados encontrados pode-se afirmar que cinco estratégias são utilizadas pelos entrevistados: (1) encobrir a homoafetividade; (2) manter o direito de exercício da sexualidade; (3) aumentar a aceitação do grupo adotando condutas que não provoquem conflitos em relação aos valores sociais existentes no ambiente trabalho; (4) aumentar a aceitação no grupo pela via afetiva, ou seja, pela criação de laços de amizade; (5) aumentar a aceitação no grupo pela via da conduta de alta performance no trabalho (competência). As estratégias utilizadas podem ser categorizadas como: a estratégia de assumir a homossexualidade independentemente das consequências, estratégias de encobrimento e estratégias de mediação.

Sumário: Introdução | Estigmatização, discriminação e hostilidade direcionada a homossexuais no ambiente de trabalho | Estratégias adotadas por homossexuais no local de trabalho | Aspectos metodológicos | Obtenção e tratamento dos dados | Análise dos dados | As estratégias adotadas pelos trabalhadores bancários | Análise arqueológica das estratégias adotadas pelos trabalhadores bancários | Conclusões | Referências

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Introdução

As pesquisas que envolvem aspectos relacionados a trabalhadores homossexuais no Brasil estão ainda em estágio embrionário. Contudo, apesar de incipiente, o número de estudos sobre o tema tem se tornado presente nos últimos anos (IRIGARAY, 2007a; 2007b; IRIGARAY; FREITAS, 2009; FERREIRA; SIQUEIRA, 2007; ECCEL; FLORES-PEREIRA, 2008; SIQUEIRA et al., 2006; SOUZA; PEREIRA, 2010). Em contrapartida, já se desenvolveu na academia norte americana uma grande tradição nos estudos que envolvem homossexuais, mulheres e negros no ambiente de trabalho (HEREK, 1991; 1998; WOODS, 2003; RAGINS; CORNWELL, 2001; HEBL et al., 2002; HEBL; GRIFFITH, 2002; BUTTON, 2001; CAIN, 1991).

Estudar aspectos sobre a sexualidade, dentre outros, no espaço laboral, ainda não é algo fácil. Pesquisas sobre a sexualidade trazem a tona, aspectos subjetivos em um ambiente empresarial que valoriza sobremaneira aspectos objetivos de gestão (DAVEL; VERGARA, 2001). Portanto, a lógica burocrática descrita por Weber (1999), lógica esta que promove a separação entre vida pública e privada, valorizando a impessoalidade e banindo das organizações aspectos afetivos e subjetivos, ainda está presente nas práticas gerenciais contemporâneas.

Conforme relatado por Souza e Garcia (2010) os homossexuais no ambiente bancário sofrem diversas formas de discriminação e preconceito. Os autores destacam duas formas de discriminação: direta e indireta. A discriminação direta é representada pela deficiência dos normativos dos bancos em garantir e esclarecer os reais direitos dos trabalhadores homossexuais. Já a discriminação indireta manifesta-se das seguintes formas: (a) piadas que falam pejorativamente de forma generalizada sobre homossexuais, (b) isolamento para que não tenham contato direto com clientes, (c) condições de trabalho inferiores as ofertadas para os demais empregados, (d) exclusão de participação nos grupos informais e atividades destes grupos ocorridas fora da empresa, (e) brincadeiras, fofocas e ironias sobre as formas de andarem, falarem e gesticularem quando não estão presentes no recinto, (f) uso de palavras pejorativas com o objetivo de evidenciar uma suposta feminilidade pertencente a homossexuais (“mocinha”, “veadinho”), (g) dificuldades de crescimento na carreira e (h) dificuldade de contratação de homossexuais, principalmente afeminados, por gerentes de bancos privados.

Diante da realidade exposta nos estudos acadêmicos no ambiente organizacional e com o objetivo de aprofundar sobre a temática e romper com a lógica objetiva e burocrática de gestão, esta pesquisa teve como norteadora a seguinte pergunta: Quais são as possíveis estratégias utilizadas pelos trabalhadores bancários para lidarem com aspectos relacionados à sua homossexualidade no local de trabalho?

Dessa forma, esse artigo analisa as possíveis estratégias adotadas pelos homossexuais masculinos no ambiente de trabalho bancário no intuito de se defenderem de possíveis preconceitos, discriminações ou estigmatizações sofridas. Metodologicamente, optou-se por realizar uma pesquisa de natureza qualitativa, uma vez que esta abordagem permite a compreensão do fenômeno em estudo a partir das falas dos sujeitos, já que “sujeitos, com suas opiniões sobre um determinado fenômeno, traduzem parte de sua realidade” (FLICK, 2004, p. 42).

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Eloísio Moulin de Souza é Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professor Adjunto da Universidade Federal do Espírito Santo.

Mônica de Fátima Bianco é Doutora em Engenharia pela Universidade de São Paulo. Professora Titular da Universidade Federal do Espírito Santo.

Priscilla de Oliveira Martins da Silva é Doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo. Professora Adjunta da Universidade Federal do Espírito Santo.

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