A redução dos salários não é a solução

Uma proposta do comissário europeu para assuntos econômicos Olli Rehn, no início de agosto, desencadeou uma onda de protestos na Espanha: para recuperar o crescimento, basta que o governo espanhol reduza os salários dos trabalhadores. Uma proposta que não teve efeitos positivos nos países onde foi posta em prática, como a Irlanda e a Letônia.

Luis Doncel

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Fonte: Presseurop
Data original da publicação: 12/08/2013
Com adaptações para o português do Brasil
Originalmente publicado em espanhol no site do jornal El País em 10/08/2013

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Há esperança. Foi essa a ideia que o comissário europeu para os Assuntos Econômicos quis transmitir, na última quarta-feira (07/08). Olli Rehn escolheu um meio pouco habitual, o seu blog, para difundir uma mensagem de alta tensão política: a Espanha não precisa se resignar a uma taxa de desemprego elevada e a um crescimento anêmico. Mas, se quiser sair do poço, tem de fazer grandes esforços. Tão grandes como, por exemplo, conseguir que os trabalhadores aceitem uma redução geral de 10% nos seus salários. O vice-presidente da Comissão Europeia apontava dois exemplos para a Espanha: a Irlanda e a Letônia, “duas histórias de sucesso”, segundo a expressão de Rehn.

Mas, se observarmos bem os casos destes dois países, o “êxito” de que fala o finlandês não parece assim tão claro. O duro remédio aplicado nos dois países colocou a população no limiar da pobreza – no caso da Letônia, 40% [da população], a segunda maior percentagem da UE – e fez cair rapidamente a procura interna. Em contrapartida, esta pequena república do Báltico é um dos Estados-Membros que está crescendo a um ritmo mais elevado. A Irlanda, pelo contrário, continua mergulhada na recessão, depois de uma dura estagnação econômica e de uma ligeira recuperação.

“Se três meses consecutivos de quedas do PIB são um êxito, o que será um fracasso, segundo os padrões de Rehn?”, pergunta o professor de História Econômica da Universidade de Oxford Kevin O’Rourke. Além disso, O’Rourke rejeita por completo o modelo: na Irlanda, não houve uma diminuição significativa dos salários e as medidas de austeridade não produziram resultados. Os dados do organismo oficial de estatística lhe dão razão: o custo médio da hora de trabalho manteve-se estável desde o início da crise. “A Grécia foi o único país da zona do euro que sofreu uma queda brusca dos salários nominais.” Depois de se comprovarem os efeitos que isso teve sobre a sua economia e tecido social, seria melhor ir pensando noutra estratégia.

Dublin passou a ser o bom aluno de Bruxelas – ao contrário da rebelde Grécia – por ter conseguido controlar as finanças públicas desde 2010, ano em que a injeção massiva de dinheiros públicos na banca fez disparar o déficit para mais de 30%.

Tirar dos pobres para dar aos ricos

A Comissão Europeia também valoriza o fato de, embora tenha voltado a cair em 2012, o emprego apresentar sinais positivos, devido à lenta queda da taxa de desemprego. Apesar destas melhorias e ao fim de vários anos cumprindo as recomendações do FMI, da Comissão e do Governo alemão, a Irlanda continua em recessão. E, como garantia esta semana, no Irish Examiner, Séan Healy, diretor do grupo de reflexão Social Justice, “a política de austeridade originou a maior transferência da história [do país] de recursos das pessoas com rendimentos médios e baixos para os ricos e poderosos. Os principais beneficiários dessa transferência foram as empresas (sobretudo as multinacionais) e indivíduos endinheirados”.

O outro modelo proposto por Rehn conseguiu de fato sair da profundíssima recessão em que caiu em 2009. A Letônia foi o país da UE cuja economia cresceu mais fortemente no ano passado. E está previsto que repita o recorde em 2013.

A taxa de desemprego mantém-se elevada (cerca de 15%, em 2012), mas os prognósticos oficiais apontam para uma diminuição em breve. O sucesso do seu modelo permitiu que, no próximo dia 1º de janeiro, este país do Báltico possa aceder ao clube do euro, apesar da oposição majoritária da sua população, que receia que o abandono do lats faça disparar os preços.

Até aqui, trata-se de boas notícias. Porque o discurso oficial prefere contornar a questão do alto preço pago pelos letões. O Governo de Riga despediu um terço dos funcionários e os que ficaram tiveram de aceitar reduções de salários de até 40%. Riga cortou as ajudas sociais e aumentou os impostos. A perda de poder de compra de todos os cidadãos, e não apenas dos funcionários públicos, fez-se sentir na procura interna, que caiu mais de 27%, em 2009.

Muitos letões abandonaram o país

A modesta diminuição do desemprego também se explica pelo fato de, nos últimos anos, muitos letões terem abandonado o país. Entre 2000 e 2011, a população registou uma queda de 13%. A Letônia tem hoje pouco mais de dois milhões de habitantes, o mesmo número que nos anos 1950. Surpreendentemente, os letões não reagiram com greves e manifestações de rua ao estilo grego e, sim, com resignação. Até reelegeram o Governo que empunhou a tesoura.

“As reformas tiveram custos elevados. Aumentaram as desigualdades entre regiões e entre classes sociais”, resume Martins Kazaks, economista principal do Swedbank.

Independentemente do êxito ou do fracasso das receitas aplicadas pelos Governos de Riga e de Dublin, os comentários do comissário europeu Rehn também suscitaram dúvidas sobre a possibilidade de o modelo de um país com dois milhões de habitantes, como a Letônia, ser exportado para outro, que tem 46 milhões e é a quarta economia da zona do euro, como a Espanha. Fontes comunitárias explicam que Rehn só queria incentivar o debate sobre a situação na Espanha, “dramática para milhões de cidadãos sem emprego”, e que não pretendia de modo algum transpor automaticamente as políticas de um país para outro.

Contudo, estas explicações não evitam a indignação que as palavras de Rehn provocaram em sindicalistas, partidos políticos e inúmeros cidadãos. Emilio Ontiveros, presidente do [grupo de empresas] Analistas Financieros [Internacionales], aponta diversos fatores que impedem que as medidas de Bruxelas sejam aplicadas na Espanha: o nível de endividamento privado, a queda que se verificou no rendimento disponível das famílias…

No seu blog, Rehn dizia que aqueles que rejeitarem automaticamente as suas propostas “carregarão sobre os ombros a enorme responsabilidade pelos custos sociais e humanos” de ter seis milhões de desempregados. Se tiver razão, as culpas estarão distribuídas entre muitos.

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Luis Doncel é um jornalista espanhol que escreve na seção de Economia do jornal El País.

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