A recorrência da concentração de renda como elemento dinamizador da economia brasileira

Fotografia: Luiza Castro/Sul21

Com a capacidade de consumo da base da pirâmide esgotada, todas as esperanças do Governo e dos analistas financeiros e do comércio varejista se voltam à expansão do consumo proporcionada pelas famílias da parte média e superior da pirâmide.

Flavio Fligenspan

Fonte: Sul21
Data original da publicação: 16/11/2020

O chamado “Milagre” econômico brasileiro (1968/1973) se caracterizou por uma taxa de crescimento elevada do PIB, com média de 11% ao ano, algo impensável nos tempos que correm, até mesmo para os padrões chineses. A marca maior daquele período, em plena ditadura militar, foi a desigualdade e a exclusão, tendo as camadas de rendas baixas participado marginalmente do crescimento econômico. Os salários da base da pirâmide, além de ficarem muito longe da possibilidade de comprar o mínimo necessário para a sobrevivência, eram continuamente reduzidos pela ação da inflação, sempre superior aos reajustes concedidos.

Assim, a expansão da economia se deu em cima de uma forte exploração da mão de obra e de um padrão de consumo típico de classe média; não por acaso, os produtos símbolo daquela fase foram os automóveis e os eletrodomésticos, inacessíveis para as famílias mais pobres. Outro símbolo foi os imóveis financiados a longo prazo pelo Sistema Financeiro da Habitação, também voltados para as rendas média/alta. Ou seja, a dinâmica econômica teve por base a diminuta classe média brasileira, os pobres colaborando apenas para a geração de lucros da empresas. Ganhavam muito pouco e consumiam tudo para prover minimamente sua subsistência, não “participaram da festa” nem para colher os frutos do progresso, nem para, através do seu consumo, explicar o funcionamento do modelo. Se primeiro era importante crescer, para depois distribuir, na frase famosa da época, o depois nunca chegou.

Passaram-se décadas, crises diversas, mudanças de padrões de produção e de consumo e diferentes governos; e chegamos a 2020 a uma situação que lembra em muito o período anterior. Lembremos que desde a recessão iniciada em 2014 a situação do mercado de trabalho começou a se deteriorar e que a piora ganhou velocidade com a Reforma Trabalhista de Temer (2016), implantada com objetivos muito claros de desregulamentação, aumento da informalidade e redução da remuneração média. Ato contínuo, viu-se o aumento do trabalho intermitente, a contratação de trabalhadores através da “pejotização” e a elevação da subutilização da mão de obra e do desemprego. Nada diferente do que se projetava e do que era o objetivo não declarado da Reforma.

A extensão da recessão até o final de 2016 e o crescimento raquítico da economia desde lá só agravaram a situação. O índice de Gini, usado para medir a desigualdade de renda, logo acusou o golpe e voltou a subir depois de anos num movimento comemorado de queda. Neste ambiente de deterioração das condições de vida daqueles que se encontram na da base da pirâmide, o consumo passa a depender cada vez mais das camadas médias e superiores, desprezando-se a “colaboração” de mais da metade da população para a expansão da função consumo, o que faz lembrar em muito o período do “Milagre”.

A pandemia tornou tudo ainda mais difícil para as camadas mais baixas, especialmente para os trabalhadores informais. Enquanto eles tiveram alguma cobertura do Auxílio Emergencial, entre março e agosto, ainda deu para prover precariamente a subsistência, mas a redução pela metade a partir de setembro e a retirada do Auxílio e sua substituição por alguma forma de Bolsa Família ampliado em 2021, vai jogar muito mais gente na miséria. A previsão do sistema financeiro é de encolhimento da massa de rendimentos ampliada no ano que vem, variável decisiva para explicar o consumo do País, visto que engloba rendimentos do trabalho formal e informal, aposentadorias, pensões, benefícios e até o seguro desemprego.

Para piorar, a taxa de câmbio subiu acentuadamente em 2020 e, com ela, aumentaram os preços das commodities agrícolas e de várias matérias primas industriais importadas, o que produziu um salto na inflação das famílias mais pobres. Com a capacidade de consumo da base da pirâmide esgotada, todas as esperanças do Governo e dos analistas financeiros e do comércio varejista se voltam à expansão do consumo proporcionada pelas famílias da parte média e superior da pirâmide. Uma das discussões do momento para quem acompanha a conjuntura é como estas famílias vão usar a “poupança forçada” a que foram submetidas no período de afastamento social, e não há respostas bem claras sobre isto.

Muitos detalhes técnicos sobre a alocação destes recursos estão em debate, como seu possível uso no turismo doméstico, nos serviços típicos de classe média – como restaurantes e diversão – e no consumo de bens duráveis e até na compra de imóveis. Discute-se também a possibilidade de desvio para aplicações financeiras. O fato é que boa parte da expectativa de retomada da atividade em 2021 depende do uso destes recursos, porque da base da pirâmide pouco se espera, vista a situação de penúria a que estará submetida. Irônico que, mesmo olhando um prazo bem curto, o biênio 2021-2022, inclusive com seu impacto sobre a próxima eleição presidencial, estejamos diante da nossa histórica exclusão social, tão marcante no período do “Milagre”.

Flavio Fligenspan é Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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