A propósito do dia das mães: maternidade, pecado, punição, trabalho

“Em nome de Deus” (2002) retrata os estabelecimentos católicos de internamento feminino que negaram na prática os preceitos de amor, fraternidade, generosidade, mas levaram às últimas consequências o preceito bíblico do trabalho como punição. Fotografia: Divulgação/Miramax Films/IMDb

Lorena Holzmann

Segundo o mito judaico-cristão da criação, ao serem expulsos do paraíso por terem desobedecido seu criador, os primeiros seres humanos ouviram o que seria seu destino para todo o sempre: os homens deveriam comer o pão com o suor de seu rosto e as mulheres parir seus filhos em dor. E também deveriam crescer e multiplicar-se. Então, ao homem caberia o papel de provedor da família que criaria junto com a mulher, perpetuando a espécie por meio de sua descendência.

A mulher e sua capacidade de gerar vida fundiu-se com a imagem da terra, de onde se obtinham os frutos que iriam alimentar a vida, e dessa fusão conceberam-se as deusas da fertilidade, veneradas desde os mais distantes ancestrais da espécie humana.

Mas o passar do tempo houve mudanças que deram outros significados aos preceitos bíblicos, produzindo situações históricas generalizadas, nas quais muitos trabalham para garantir o ócio de uns poucos. O “crescei e multiplicai-vos” transformou-se em obrigação das mulheres, com todo o ônus que venha a representar, pois o interesse coletivo de perpetuação do grupo através de novas gerações recaiu como atribuição natural das mulheres, reservando-lhes a função exclusiva da maternidade e dos cuidados do grupo doméstico. Valorizada na sociedade, a função de reprodutora, na cristandade, foi definida  dentro de regras muito restritivas e repressoras ao exercício da sexualidade feminina. Só dentro do casamento será aceitável. Fora dele, se transforma em desonra e vergonha para a família da mulher que transgride os rígidos códigos da moralidade feminina e, assim, deve ser punida.

Em nome de deus (The Magdalene Sisters, Peter Mullan, Irlanda, 2002)   trata disso: a transgressão à moral e a punição pelo trabalho.

Poster de divulgação do filme "The Magdalene Sisters", lançado no Brasil com o nome "Em nome de Deus". Fotografia: Divugação:Miramax Films/IMDb
Poster de divulgação do filme “The Magdalene Sisters”, lançado no Brasil com o nome “Em nome de Deus”. Fotografia: Divugação:/iramax Films/IMDb

O filme trata de jovens confinadas por suas famílias  num convento de freiras na Irlanda, nos anos 1960. A razão do confinamento está sempre vinculada à prática não sancionada da sexualidade, mesmo involuntária, pois uma das garotas foi estuprada por um parente numa festa familiar, o que a condenou à exclusão da vida social, a fim de ocultar a desonra da própria família. Nada aconteceu ao agressor. Entre as outras internas, sempre presente algum episódio que as liga àquelas práticas, um amor “pecaminoso”, um filho fora do casamento, atitudes consideradas provocantes e depravadas.

O trabalho é a remissão do pecado.  As jovens trabalham na lavanderia do convento, ambiente úmido e quente, no qual são impedidas de conversar ou manifestarem solidariedade umas com as outras, ou que se auxiliem mutuamente. As jovens são vigiadas por antigas internas, que incorporaram as funções de controle das quais foram vítimas no seu passado na instituição. A individualidade é sufocada pela uso de roupas padronizadas, sem nenhum apelo estético.  Qualquer transgressão às rigorosas regras é cruelmente punida com castigos físicos aplicados pela madre superiora com visível sadismo. Outras freiras tem atitudes semelhantes, submetendo as internas a humilhações, contra as quais elas não podem reagir, sob pena de serem castigadas. As tentativas de fuga acontecem e quando fracassam, são sempre punidas com rigor e crueldade. O corte rente do cabelo tem a múltipla função de humilhação, destruição da autoestima, de visibilizar a punição e destruir qualquer possibilidade de vaidade.

Embora o filme enfoque sobretudo a história das três protagonistas e suas tentativas de escapar do convento (o que conseguem ao final da narrativa), é sobre o caráter que o trabalho assume em suas vidas que pode-se justificar sua abordagem nesta coluna. O sofrimento pelo trabalho é a punição pelo pecado cometido, punição sem término, pois há entre as internas mulheres mais velhas, que foram deixadas e esquecidas no convento por suas famílias,  rejeitadas pela desonra que provocaram. Na história de cada uma, o pecado da sexualidade. O trabalho árduo, penoso, duro, castigando seus corpos, extinguirá a vaidade e as tentações da carne e, assim como Madalena (Irmãs Madalenas é o nome do convento do filme), a pecadora bíblica, poderão reencontrar o bom caminho e redimir-se. Mas a punição é para sempre, não há prazo de validade para o castigo imposto.

Baseado em fatos reais, filme retrata os estabelecimentos religiosos de internamento feminino que possuíam lavanderias onde as internas trabalhavam. Fotografia: Divulgação/Miramax Films/IMDb
Baseado em fatos reais, filme retrata os estabelecimentos religiosos de internamento feminino que possuíam lavanderias nas quais as internas trabalhavam. Fotografia: Divulgação/Miramax Films/IMDb

Para essas mulheres confinadas, o trabalho que são obrigadas a executar, sem possibilidade nenhuma de recusá-lo, é degradação, negação de sua individualidade, opressão sem tréguas, sem limites e sem fim. É uma condenação por toda a  vida.

Mesmo que as condições de trabalho no mundo contemporâneo sejam objeto de crítica e de denúncia, por serem alienadas e alienantes, impositivas, cerceando  a criatividade dos trabalhadores, cabe a esses a liberdade (ainda que limitada pela pressão de obter recursos monetários para a satisfação de suas necessidades de subsistência) de recusá-lo, trocá-lo por outro, o que é inviável para as mulheres do convento das Madalenas.

Esse filme é baseado em fatos reais. Esses estabelecimentos religiosos com a existência de lavanderias e o internamento de mulheres sobreviveram na Irlanda até 1996, quando foram fechados, depois de abrigar em torno de 30 mil mulheres  ao longo de décadas. Mantidas pela Igreja católica, negaram na prática todos os preceitos de amor, fraternidade, generosidade do discurso religioso, mas levaram às últimas consequências o preceito bíblico do trabalho como punição.

Cabe destacar, também, a atitude controversa da moral cristã em relação à maternidade. Sagrada, se acontece dentro das regras sancionadas pelo sacramento do matrimônio. Transgressão pecaminosa e passível de duras penalidades, se decorrente de atitudes contrárias à virtude e ao recato de mulheres  decentes e honradas.

Philomena (Stephen Frears, 2013) é outro filme, que narra a história de uma jovem mãe solteira que foi encerrada num convento semelhante e, obrigada a entregar seu filho em adoção, passados 50 anos, vai em busca dele. Embora o foco da história não contemple  a dimensão do trabalho na vida dessa mulher, cabe a menção desse filme como registro da crueldade que imperava nesses estabelecimentos.

Em nome de Deus é tomado como exemplo dos aspectos negativos do trabalho levados a suas últimas consequências, como recurso punitivo,  como destruidor de toda a individualidade dos transgressores, confinados em espaços fechados, sem contatos com o mundo exterior, sem a proteção dos estatutos jurídicos do estado-nação em que se instalam e operam, submetidos  ao arbítrio da administração dos estabelecimentos, que, segundo Goffman (Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 1992) constituem “instituições totais”, “estufas para mudar pessoas”. Aqui, obter esse resultado por meio do trabalho como punição.

E como ele pode ser imposto a mulheres que ousam exercer sua sexualidade na contra mão das regras e interdições existentes.

Neste mês de maio, em que se comemora o Dia das Mães, o significado da função social da maternidade para qualquer agrupamento social que vise a sua perpetuação, assim como os direitos das mulheres responsáveis por ela, deveriam ser o foco dessa celebração. Mas hoje ela está dominada por uma desvairada corrida consumista, que sufoca os possíveis verdadeiros valores a serem concretizados na civilização contemporânea.

Informações

Título: Em nome de Deus
Ano: 2002
Duração: 114 min.
País: Irlanda/Reino Unido
Diretores: Peter Mullan
Elenco: Eileen Walsh, Dorothy Duffy, Nora-Jane Noone

Mais informações: IMDb, Wikipédia (português).

Trailer do filme (somente em inglês):

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